Grandes Webfábulas Brasileiras: “A DANÇA DO GATO LOUCO!”
O texto abaixo é o segundo da série “Grandes Webfábulas Brasileiras”. O intuito é pagar de Esopo moderno e mostrar a literatura em torno de sagas internéticas genuinamente nacionais. Quando sai o próximo texto dessa série só Deus sabe.
Todos nós temos sonhos.
Independentemente do tamanho dele, você tem um sonho. Uma meta, um objetivo, um lugar aonde você quer chegar que, talvez, seria o ápice da sua curta passagem pela Terra. Tem gente que sonha em ser médico, advogado, engenheiro, jogador de futebol, astronauta, piloto de fórmula 1, diva pop, sei lá. Sonhar é livre - e essa é a melhor parte.
Se sonhar é tão fácil assim, realizá-lo é inversamente proporcional em termos de dificuldade. Quem quer ser o novo Neil Armstrong e viajar para o espaço sideral, por exemplo, precisa abdicar de muita coisa. Estudar, treinar, dedicar-se ao máximo àquilo. Precisa VIRAR o seu sonho. E isso exige uma coisinha mínima, minúscula, ínfima, mas crucial:
Talento.
Não adianta querer ser o novo Pelé se tu tem dois pés esquerdos. Não adianta querer ser o novo Ayrton Senna se tu não consegue fazer baliza. Não adianta querer ser a nova Madonna se tu cantando parece uma enceradeira.
Sonhar é pra todo mundo; realizar, não.
O Se Vira nos 30 começou em 2002. O quadro do Domingão do Faustão, assim como o próprio programa, é uma das maiores marcas da identidade cultural televisiva brasileira. A proposta é simples: pessoas aleatórias, de diversos lugares do Brasil, tem 30 segundos para apresentar algum talento no palco. O público vota no melhor, que leva um prêmio em dinheiro e, de quebra, gera audiência limpa e barata para o espetáculo de Fausto Silva.
Convido o leitor a reler o parágrafo acima. “Apresentar algum talento”. Algo que você sabe fazer e que, por ser único, te difere dos demais. A gente conversava sobre isso: ter talento pode te levar à realização de um sonho.
Então, Tiago Sales de Almeida, qual o seu talento?

2012, dez anos depois do início do quadro.
“Então vem aí Tiago de Almeida. Cuiabá na parada!”, introduz Fausto Silva, parte do folclore nacional. E lá vem Tiago, correndo, do camarim para o palco (o Coliseu de Fausto). Camisa polo rosa, calça jeans azulada, visivelmente acima do peso, sorridente. Tiago vai encarar Faustão frente a uma enorme plateia, um corpo de bailarinas e uma equipe numerosa de profissionais por trás das câmeras. São cerca de 400, 500 pessoas contra ele; se contar os espectadores de todo o país, são dezenas de milhões de olhares julgadores. Afinal, ele disse que tinha um talento. Eu quero ver esse talento.
Tiago se aproxima e algo chama a atenção. O rosto pintado. De gato. Um homem adulto com o rosto pintado de gato. E não é uma obra digna de exposição no Museu do Louvre: um pancake branco fosco coberto por linhas pretas disformes que simulam os traços de algo que ousa parecer com um felino. É a definição da palavra ridículo. O Brasil pensou a mesma coisa nessa hora:
“O que caralhos um gordinho com o rosto pintado de gato foi fazer no Se Vira nos 30? Que talento esse cara pode ter? Só foi no programa passar verg…
O pensamento foi interrompido pela primeira coisa que Tiago vociferou ao encarar o palco mais famoso do país.
“E aí? Como vai?”, disse ele para Fausto Silva.
Como assim o cara entra no palco, pintado de gato, e tem a pachorra de se dirigir ao apresentador perguntando ‘como ele vai’. Isso é de um ultraje, uma audácia, um desprendimento, uma loucura, uma coragem, uma bravura. Tiago ganhou a suspensão de descrença do Brasil inteiro ali. Mas uma pergunta ainda pairava no ar: qual o seu talento, Tiago?
“Quê que cê faz lá na tua cidade lá?”, pergunta Faustão.
“Eu trabalho como engraxate no aeroporto de Várzea Grande, né? Cuiabá. E… aí eu faço pros cliente lá, desde criança…”, explica o convidado.
“Você faz o que pros cliente?”, interrompe o apresentador.
“A dança do gato louco!”, responde Tiago.
A dança do gato louco.
Convido o leitor a olhar ao redor agora e verificar se está sozinho no recinto onde lê esse texto. Não tem ninguém? Ok, então fala em voz alta “a dança do gato louco”. Isso soa bobo. MUITO bobo. Por que, ó céus, um gordinho com o rosto pintado de gato e calça jeans foi até o palco do Domingão realizar a dança de um animal que não se encontra em plenas faculdades mentais? Porquê? Porquê?!
Porque esse é o meu talento, responderia Tiago.
Ele e Fausto conversam um pouco mais. O apresentador se vê, claramente, em posição superior ali. Ele brinca com o convidado, pois sabe o nível do que o aguarda. Há R$ 15 mil em jogo e Faustão jura, com os pés juntos, após uma década de quadro, que Tiago Sales de Almeida, o Gato Louco, não será o premiado do dia. Então, certo da vergonha que virá a seguir, ele engatilha a apresentação:
“Pra vocês que tão a fim de encontrar o gato da vida de vocês. Salve-se quem puder… Atenção! Seis e Cinco! Preparado, Tiagão?”, questiona, já com o tom de voz inflado.
“Preparado”, responde Tiago, concentrado.
“Então, se vire nos 30!”, Fausto lança um de seus bordões.

O timer na tela é acompanhado pelo início de uma versão instrumental acelerada de Ex Mai Love, de Gaby Amarantos. E então, Tiago começa.
Na verdade, começar é pouco. Ele se transforma. Tiago não é mais um mato-grossense acima do peso com camisa polo rosa. Pelos próximos trinta segundos, ele é o Gato Louco (do aeroporto) e não há viva alma acima do chão e debaixo do céu que o diga que aquele não é um talento. Prove, blasfemo, que o que virá a seguir não pode ser chamado de talento - ou que não levaria um brasileiro como qualquer um de nós a realizar um sonho.
30 segundos
Ao primeiro acorde da música, o performer arqueia os ombros para frente, inclina os braços, dobra-os na altura do cotovelo e se prepara. A entrada da track eletrônica na música, que marca o tecnobrega, leva a um movimento de onda entre os braços do artista. O passe remete ao break dance da Nova York oitentista e a referências nacionais do ritmo, como Tony Tornado e Nelson Triunfo. O Gato Louco sabe o que está fazendo com seu swing hipnótico.
As pernas acompanham o vai-e-vem dos membros superiores, em uma dança sibilante tal qual uma Salomé masculina que evoca luxúria em suas curvas (no caso do Gato Louco, mais esféricas). A cereja do bolo é a cabeça do homem, que inicia um trajeto retilíneo na horizontal, para frente e para trás, de forma que provoque a ilusão ótica de que o pescoço está descolado do tronco. A Fat Family está viva, senhoras e senhores.
Mas falta algo. Onde está o gato?
21 segundos
Voilá.

Como se não bastasse as ações provindas de todas as partes do corpo de Tiago Sales de Almeida, ele acrescenta a expressão facial e o som ao seu arsenal. Deixa surgir os dentes, retrai a cabeça, levanta uma das mãos de forma que remeta a uma pata. Como um Marcel Marceau cuiabano, ele mimetiza o (suposto) movimento perimetral da cabeça de um gato e utiliza-se da mímica de pata para conferir verossimilhança a sua performance. 8/10. Ainda falta.
Opa, não falta mais. Um agudo esganiçado eclode por entre suas cordas vocais e toma conta do palco dominical. A ideia é que remeta ao miado de um felino, provavelmente em período fértil. Parece um gato? Parece. Parece muito? Não. Mas deixe-se levar pela magia da coisa, homem. Que coração de pedra…
10 segundos
Tiago fica em silêncio para reposicionar-se. Ele gira o corpo acompanhado pelo gingado orbital de seus braços e pernas. Agora, encontra-se na diagonal em relação a sua câmera, perfeito para o gran finale de sua apresentação, fadada ao espaço de meio minuto.
Mais grunhidos. Mais esguichos. O artista/engraxante/Thundercat continua seu show, agora em reta final. Falta o apogeu, o clímax, a apoteose dessa trajetória. Romeu e Julieta pedem por veneno, Tiago. Entregue ao público um desfecho digno.

7 segundos
A segunda variação de miado, acoplada ao movimento de pêndulo da cabeça, em paralelo à linha dos ombros, é crucial para a apresentação. É ela que confirma a habilidade de Tiago com aquilo que afirma ser seu talento. Ele brinca, se diverte, arrisca o freestyle da personificação de animais.
Ronaldinho Gaúcho foi para o futebol o que Tiago Sales de Almeida é para a imitação de gatos com o rosto pintado, camisa rosa, calça jeans, no palco de um programa de auditório em um domingo perdido de 2012.
2 segundos (ou O Último Miado)
A imagem fecha em seu rosto. Gato Louco finta o timer na câmera de palco, que auxilia o apresentador no controle do que é filmado. O performer, agora, sabe o tempo que lhe resta.

Let your memory lead you
Open up, enter in
If you find there the meaning of what happiness is
Then a new life will begin”
(Memory, do musical Cats)
Concentração. Sangue frio. O coração de Tiago acelera na mesma proporção que sua mente alinha-se para a entrega derradeira, o ponto alto. Claramente, o momento já havia sido planejado anteriormente por Gato Louco. Era uma de suas boias para a curta apresentação. Setup feito; hora do delivery.
Ele trava o rosto, projeta os lábios à frente, tensiona as cordas vocais e emite O Último Miado. Mais longo que os demais, mais estridente que os demais. O som estendido acompanha os últimos segundos do relógio e vara o soar do alarme, que marca o fim de seu tempo de tela. Tiago balança a cabeça para gastar o que lhe restava de energia. Entregou-se, por completo, à arte a ao personagem. Seria Tiago Sales de Almeida discípulo da dramaturgia de Constantin Stanislavski? Eu não duvidaria.
Há mais mistério entre a maquiagem tosca de gato e o gingado fora de forma do que supõe a nossa vã filosofia.
A apresentação é devidamente encerrada com a plateia e o próprio Tiago batendo palmas para o que foi mostrado. O momento segue por mais alguns minutos, que alternam entre as brincadeiras de Fausto Silva, conversas com o artista e, por fim, Gato Louco dançando uma versão instrumental de Meteoro da Paixão, de Luan Santana, com uma das dançarinas do programa. Tudo acompanhado de movimentos rápidos de pescoço e miados.
A participação de Tiago no Se Vira nos 30 é encerrada da mesma forma que começou: efêmera. A câmera nem sequer filma ele saindo do palco. Fausto apressa-se em chamar a próxima atração, que, provavelmente, foi um adestrador de cães ou alguém que empilha pratos em um cabo de vassoura. Coisas mais plausíveis de serem chamadas de talento. Tiago, inclusive, não ganhou os R$ 15 mil naquele domingo. Passou, como tudo na televisão.
Mas o questionamento do começo continua martelando a cabeça do brasileiro que assistiu à Tiago naquele dia. O que vimos foi, de fato, um talento?
Imitar um gato enquanto dança uma mistura de break, lambada e epilepsia pode ser considerada uma habilidade única? Ou é só uma esquisitice? Se for um talento, é capaz de levar Tiago a realizar um sonho? Está no nível da destreza de um exímio músico ou da cautela de um neurocirurgião?
Como toda fábula, as Grandes Webfábulas Brasileiras possuem uma moral, uma mensagem que deixam para o mundo. E a mensagem de “A DANÇA DO GATO LOUCO!” só pode ser entendida se abafarmos a Dança, o Gato e o Louco e isolarmos o Tiago Sales de Almeida.
Bom, clica no vídeo aqui embaixo.
Cerca de um mês atrás, a maior rede de fast food do mundo, o McDonalds, lançou uma campanha publicitária para divulgar o retorno de alguns pratos ao seu cardápio. Uma das estrelas da campanha, que abre o vídeo trajando uniforme da lanchonete e ostentando a marca, é a mesma pessoa que, seis anos atrás, dançava no palco do Domingão sob a descrença de milhões.
Seis anos depois, o Gato Louco se mantém relevante como influenciador digital para a maior rede de fast food do mundo. Isso foi graças ao seu talento ou graças à peculiaridade de sua figura?
A resposta é simples: não importa. E essa é a moral dessa webfábula.
Você seria capaz de deixar sua casa no Mato Grosso para imitar um gato frente à quinta maior população do planeta? Você seria capaz de fazer isso mesmo que isso lhe colocasse como alvo nacional de deboche? Você seria capaz de fazer isso diariamente, enquanto engraxa sapatos em um aeroporto?
Eu não seria. Provavelmente você também não. E esse, sim, é o talento de Tiago Sales de Almeida, o Gato Louco: o de rir consigo mesmo. Em 2018, amigo, isso é muito um talento. E o sonho que ele realiza? O de dar condições dignas de vida para si próprio e para sua família, com dinheiro ganho honestamente.
A gente costuma sonhar muito alto e, na maioria das vezes, não sabe lidar com a frustração de ter que interromper um objetivo. Ninguém almeja se pintar de gato em rede nacional e dançar para uma câmera, mas todo mundo almeja ser feliz e digno. E dá pra alcançar isso de vários jeitos - até se pintando de gato e dançando para uma câmera.
De quebra, ainda faz campanha pro McDonalds, mas isso é só consequência do talento e do sonho.
