O teórico de sentimentos
Um teórico de sentimentos. A ideia me veio do nada enquanto, concentrada no vazio, pensava em pessoas que não eram eu.
Eu queria ser um teórico de sentimentos. Um daqueles que escreve sobre as sensações que habitam o ser, sobre os valores tão estimados — ou não — por aqueles que andam sobre a terra e se autodenominam, como espécie, O Homem.
Eu queria que meus textos contivessem epifanias não epifânicas, que vasculhassem os pensamentos e a confusão da alma, que minhas palavras no papel enchessem os olhos de lágrimas e lavassem os corações.
Queria que grandes motivos me trouxessem a pena à mão; e que uma vez que ela estivesse em meus dedos, derramasse sobre o papel as inquietações que me habitam e que não sou capaz de transpor em vocábulos. Mas que posso fazer se nem com pena escrevo? Se uso canetas que me mancham os dedos de tinta e tocos de lápis perdidos no canto da gaveta?!
Eu queria ser um teórico de sentimentos. Escrever textos cheios de firulas de escritor sem que estas firulas soassem como tais. Queria colocar em minhas histórias as imagens poéticas em que penso durante o dia, ou no seio frio das madrugadas, que preenchem todo meu corpo, ao rememorar os acontecimentos passados que dão forma à longa narrativa que denomino Minha Vida, dotada de reviravoltas nem sempre agradáveis fazendo com que eu me pergunte: e agora para onde vamos? Onde isso vai dar?
Eu queria ser um teórico de sentimentos. Poder derramar vida em minhas palavras, fertiliza-las com sensações ao invés de apresentar a mesma obra sempre engessada, incapaz de acalentar nem mesmo meu próprio coração.
Eu queria ser um teórico de sentimentos. Compartilhar com todos toda a dor e agonia, toda a exaltação e alegria nas quais sou capaz de pensar; e pela primeira vez que alguém entendesse que quem escrevo não sou eu, e se sou eu sou também outro. O narrador e o personagem não são o mesmo sujeito empírico, pois ao tocar o papel não importa sobre quem aquilo seja, sobre ele não é mais.
Eu queria ser um teórico de sentimentos, cujas palavras, a quem chegassem, os corações acalentassem, como leves afagos ou sussurros de uma canção de ninar.
