É o feminismo que deve se adaptar às necessidades das mulheres

Não são às mulheres que devem se adaptar ao feminismo. É o feminismo que deve se adaptar às necessidades das mulheres. De TODAS as mulheres!

Não sei, mas parece que alguns espaços feministas se tornaram cultos feministas, cheios de cagação de regra, forminhas delimitando o que é ser mulher e o que é ser feminista. Cheios de conceitos estáticos que, se você não se enquadra, surge uma ‘fiscal do feminismo alheio’ para retirar sua carteirinha dizendo que seu feminismo é errado e não obedece às regras, te retirando do seu local de fala de, vejam só, mulher!

Enquanto tem mulher pobre, mulher negra e mulher trans passando fome, sendo assassinada e violada diariamente, tendo que se prostituir (ou permanecer em relacionamentos violentos/abusivos) para poder comer e sustentar os filhos, essas minas se organizam pra falar mal de pornografia, prostituição e mulheres livres sexualmente.

De verdade, essa é a pauta da mina pobre e/ou negra lá da periferia? Essa é a pauta da mina trans que não tem outra opção, na maioria das vezes, a não ser fazer programa? Acabou pornografia e prostituição, acabou o patriarcado? Todas as trans, negras e periféricas terão uma vida bela e linda, com acesso a educação, saúde e dinheiro? Acabou liberdade sexual das mulheres, acabou a objetificação? Todas as minas aqui da periferia terão relacionamentos saudáveis e deixarão de sofrer agressão dos seus parceiros como num passe de mágica?

Ou esse é um problema que afeta as minazinhas cis, brancas, classe média, sustentadas pelos pais enquanto podem escolher a profissão que quiserem e ler os mil textos feministas sobre o assunto que quiserem? Que afeta a minazinha padrão que levou chifre do boy padrão porque ela não é igual à mina do pornô? Que afeta a minazinha hétero que paga de ‘lésbica política’ na internet? Que afeta mulheres que tem profissão/emprego, não sofrem com falta de comida, saúde básica e tempo pra problematizar no facebook?

Geralmente isso parte de um tipo de feminismo branco, cis e classe média, famosinho nos anos 60, que parou por lá e se recusa a fazer recortes, analisar contextos sociais, incluir — e não apenas tolerar e fingir sororidade para ganhar biscoito e “fiéis” — outros tipos de mulheres senão as iguais a elas (não se iludam, pois elas não estão nem aí pra suas pautas!).

Sinto informar que as mulheres NÃO estão todas no mesmo patamar de privilégios!

Enquanto você, feminista revolucionária das internets, pode perder horas do seu dia problematizando a prostituição, a pornografia ou a liberdade sexual de outras mulheres, tem mina passando fome sem 1 real pra comprar pão, tem mina aceitando fazer programa pra pagar conta de luz, tem mina suportando homem violento pois não tem como arrumar emprego por falta de acesso à educação.

É óbvio que nenhuma mulher sonha em ser prostituta/atriz pornô/objetificada, assim como é óbvio que nenhuma mulher quer morrer de fome. Então se não for pra colar aqui na periferia e mostrar como essas mulheres podem ser empoderadas, sustentar suas famílias e a si mesmas, pagar suas contas e chegarem ao patamar em que vocês estão, não venham cagar regra sobre o que é ser mulher. As igrejas já fazem isso há milhares de anos, não é nada inovador.

Não são às mulheres que devem se adaptar ao feminismo. É o feminismo que deve se adaptar às necessidades das mulheres. De TODAS as mulheres!