Fast food do amor

Na minha cabeça, desde sempre, era óbvio que em uma relação as duas pessoas são iguais. Os dois fazem trabalhos domésticos, os dois pagam as contas, os dois são honestos, os dois se amam.

Na minha cabeça era tão óbvio que as duas pessoas são livres para falar do que querem, com quem querem, sem a necessidade de pequenas mentiras cotidianas. Sem a necessidade de transformar o outro num inimigo/fiscal/pai-mãe para quem se precisa mentir e enganar a fim de não ser punido.

Na minha cabeça era bem simples: as pessoas se gostam e ficam juntas. Elas tem prazer em conhecer uma a outra, em ouvir, em falar, em compartilhar, em trocar carinhos espontâneos, porque se quer o outro bem.

Na minha cabeça era parceria. Simples e eficiente.

Mas na vida real as pessoas não tem tempo, elas estão à espera de algo melhor que pode surgir, estão à espera da próxima foto do Tinder, do próximo match, do próximo amor ideal que seja a combinação exata de todas as expectativas.

As pessoas tem preguiça de se conhecer. Não vale o esforço.

É um desejo louco de amar e uma falta de disposição insana para conhecer o que a outra pessoa é de verdade.

Ninguém parece preparado para a realidade em um mundo de selfies super produzidas, filmes pornôs com corpos (e performances) perfeitos, felizes para sempre, clichês e estereótipos.

O mundo anda muito machucado, esfolado pela frustração, pelo engano, pela quebra da idealização de um outro que não existe. Nunca existirá. Um outro construído por fotos e frases felizes em redes sociais, sem direito à tristeza, gordura, TPM, impotência, ansiedades e faltas.

A intimidade física é mais fácil de conseguir do que a intimidade emocional. Parece que vivemos uma época de fast food do amor. Como, então, se apaixonar?