o chaveiro
foi assim do nada. eu tava arrumando minha mochila, sem pretensão. a chave do cadeado da bike dele tava lá, as do portão do meu prédio e da porta do apartamento, também. vi a chave, dele também, só que do portão de casa, jogada aqui no móvel. — ele deixou comigo semana passada, não lembro direito o porquê.
então tive uma ideia: juntei as chaves dele com as minhas, fiz um molho só… pensei como seria bonito e útil eu ter suas chaves: além de engrossar o meu molho e eu poderia abrir o portão de lá sempre que eu quisesse.(sua casa no geisel é um pouco minha também, não é?!) fiquei feliz. o molho tava pronto.
mas aí, fiquei triste por que elas não tinham chaveiro, e o que eu comprei da última vez, junto com a chave nova, (eu tinha perdido a anterior) quebrou… e eu perdi as peças também. poxa, eu queria porque queria um chaveiro.
procurei, pensei, tentei achar, nada. só apareceu um feio com telefone de chaveiro (o homem que troca as chaves). — chaveiro e chaveiro são coisa diferentes, né? engraçado.
decidi fazer um novo, pensei mais um pouco e lembrei que tenho vários pingentes guardados, dos meus vários colares adolescentes, maioria que ele não gosta e que eu quase não uso mais. (sem relação) lembrei da época em que eu fazia coisas com pingentes junto com a marcela (alguns dos colares são dessa época). como éramos boas nisso, tanto é que agora ela ta vendendo coisas que ela faz com pingentes. eu já até comprei um par de brincos.
aí, fui colocando os pingentes um por um. não gostei de primeira, ficou muito simples. sem graça, ai tirei, coloquei, tirei de novo. o primeiro, foi aquele que veio na blusa amarela que eu e ele trocamos juntos. a que eu comprei antes ficou apertada. a blusa amarela, (cor favorita dele e da minha querida isabela também) tinha dois pedaços de metal no formato de metades da laranja (pelo menos é o que parece) no lacinho do detalhe do decote, eles ficavam horrorosos nessa blusa, então eu tinha arrancado de lá. sabe, a isabela iria gostar do pingente e da blusa… a possível metade da laranja era, definitivamente, o primeiro pingente.
o segundo, a estrela que veio naquele kit com três pingentes e um colar, eu comprei quando eu nem namorava com ele. uns 2 meses antes de o conhecer, um ano atrás. eu adorava esse kit porque, nele veio aquele colar que eu usava apertadinho na garganta. simples e prateado. sempre com aquele medalhão vazio pequeno, que minha mãe achava sem graça. o colar quebrou várias vezes e a gente foi arrumando… até que ele quebrou mesmo e nunca mais deu pra arrumar (perdemos uma pecinha importante). dai nunca mais usei. sinto saudades. mas pronto, a estrela do kit era o segundo pingente.
tava ficando legal. meio sem graça, prata demais, mas único. daí, eu tentei colocar a outra metade da laranja, mas ela não encaixava, ficou feio. desisti dela. então, o terceiro pingente, foi um que a princípio mal combinou com o resto, mas me lembrava o último que quebrou — na verdade, não quebrou assim… ele foi se esmiuçando. agora não sei onde tá mais. ele tinha umas pimentinhas e uns olhos gregos, minha mãe diz que é bom e afasta mal olhado. eu acredito.
mas era um fecho de um outro colar, esse terceiro, que eu comprei da minha doce amiga giovanna, aquela que fomos no aniversário numa pizzaria. queria que as outras meninas tivessem ido nesse dia. mas, coincidência, ela também vendia bijuterias. ainda não tava bom. tentei colocar a metade da laranja de novo. feio de novo. deixei só a pimenta do fecho do colar da giovanna mesmo. não tava tão bonito, mas já tava quase pronto. tão meu. eu olhava e ficava feliz. mas ainda mexi um pouco. ele sabe, eu sou reclamona. nunca to satisfeita. culpa dos meus pais. aí eu pensei por que não misturar algo com cor? tava tudo prateado. bonito, mas ainda bleh.
aí, eu vi aquele pingente de pedra, que veio no outro kit com colar que eu comprei. nesse, eu só uso o pingente de pedra roxa. e ele acha bonito por que não é justo que nem os outros. mas, o meu objetivo inicial era trocar sempre essas pedrinhas, mas é muito complicado e eu acabei me acostumando só com a roxa. a minha habilidade com argolinhas e pingentes não foi suficiente pra ficar trocando também, ele tem encaixes duros de abrir e fechar. que colar mal diagramado, vem com pingente pra trocar e não é fácil de trocar. loucura, né? por isso eu gostava do outro, do justo com o medalhão vazio. sempre que eu queria trocar era fácil. — tanto que, quando votamos pela primeira vez, no ano passado, eu tirei o medalhão, e coloquei a estrela, pra combinar com o nosso voto ‘petista’, do segundo turno e com a minha blusa vermelha também. ele tirou várias fotos minhas nesse dia.
a estrela que é o terceiro pingente, ficou bem diferente dos outros. metade de uma laranja, estrela, pimenta de fecho, pedra branca ou incolor, não sei — ainda tava tudo muito sem cor, e pensando bem, nada combina muito com nada, coisas totalmente opostas. mas encaixaram e ficaram tão bonitos juntos. -parece a gente. se bem que, a gente não é tão oposto assim, né? as vezes.
eu ainda tava incomodada com a falta de cor, e vi uma outra pedrinha, fecho de um outro colar apertado, que usei pouquíssimas vezes. a cara da marcela aliás. a pedrinha agora, era preta e brilhava mais. meio strass, sabe? mas muito bonita. coloquei ela no fecho de pimenta, acima da pedrinha branca. e aí, achei perfeito. tava pronto meu molho, e meu chaveiro. pensei nele, em quando vai ser a nossa casa e o nosso chaveiro e o nosso molho, e pensei que quero fazer tudo com as minhas mãos que nem fiz agora. me senti orgulhosa, e senti que ele também ficaria. a marcela também. vim contar, mas percebi que queria dar detalhes. acho que to inspirada. pensei em escrever, muito. não sei. acho que é droga e o amor. -e os textos do nosso amigo bruno, talvez?
eu também gosto de escrever. pensei muito em escrever ontem. na sala da psicóloga, em casa. e eu to escrevendo. lembrei de muitas coisas gostosas, da minha mãe. do meu pai. tô com muita saudade deles, quase chorei quando eles me ligaram hoje de manhã... meu pai aliás, sempre falava que eu deveria fazer algo pra vender. ele insistia muito. durante todo meu ensino médio, ele praticamente implorava pra eu vender alguma coisa. eu falava “pai eu quero trabalhar”, e a resposta era sempre a mesma: “vende alguma coisa”. eu ficava tão irritada, não queria vender nada.
mas, chegou essa época, em que eu e a marcela, insatisfeitas com os colares das lojas, achamos uma loja de cordas, pingentes, costura e tudo mais, perto de um brechó onde comprávamos roupa por dois reais em santos. — tudo isso por que fazíamos técnico de administração, e as vezes era melhor ir no brechó do que na aula. tão perto da praia, tão sol... as vezes a gente perdia o ponto de propósito só pra ficar no ar condicionado do ônibus que passava pela etec…por que ficar numa sala fazendo cálculo o dia todo, não é?
e nessa pira de fazer colar, colocar pingente, fazer fecho... (no começo a gente só amarrava mesmo, depois decidimos colocar um acabamento melhor) a gente usava nossos colares feitos por nós mesmas como se fossem um escapulário sagrado. não tirávamos nunca. os olhos do meu pai, aliás, brilhavam quando a gente ia fazer lá em casa: VENDAM ISSO!
a gente já pensava em vender também. vendemos alguns, se eu não me engano. — o custo era tão baixo pra nós… uma corda, uma argolinha e um pingente… 3 reais na lojinha de velharia em santos… vendemos alguns por uns 10? fazer não custava nada, mesma coisa que custou fazer esse chaveiro. enfim. que saudades. dele, dos amigos de lá, da praia, de tudo. saudades até da terrível santos que fede a peixe e dos meus pais que me pariram por lá mesmo.
eu só queria mesmo falar que eu amei as minhas novas chaves. e o chaveiro.

