Sonho de um desperto
era como se eu ali
naquele momento
fosse a nuvem mais escura
e carregada dentre o cinza
infindo de um horizonte
em desencanto e finalmente
estivesse pronto para soltar
as lágrimas que a tanto tempo
pendiam em meus olhos
então, chorei, chorei junto
com as nuvens, chorei desesperadamente
relembrando cada momento
que vivi, desde a infância
com todos os sonhos e inocências
até o meu total desvanescimento
naquele momento eu via
epifanicamente
toda a conformidade
que me circundava
percebi que a correnteza
letárgica da desfantasia
vinda do mundo dito
crescido e civilizado
que há muito tempo tinha tomado
as rédeas de minha consciência
e tudo que antes eu sentia
se perdeu, como uma bolha
de sabão que estoura
com o vento
enfim, o que pareceu ser hora
no tempo astral de meus pensamentos
fora apenas poucos minutos
em meio a todo o caos do trânsito
da cidade que, agora
com meus sentidos que viam
e lentamente retornavam
alardeava suas estridentes buzinas
de raiva, cansaço, angústia
conformidade e desespero
estavam todos os motoristas — que gritavam
“sai da frente, idiota” “tem merda na cabeça?”
como eu estava antes deste incidente
que mudaria completamente
o rumo do meu caminho
sai do meio da encruzilhada de carros
e fui para baixo de um ponto de ônibus
que ficava do outro lado da esquina
da empresa em que eu e mais algumas
centenas de funcionários
cumpriam a mesma função obnóxia
de carimbar pilhas e pilhas
de papéis burocráticos
todos os dias
o ponto estava, como de praxe
após o termino do expediente
lotado, enquanto eu caminhava
até lá sem perceber que estava
inteiramente encharcado
em baixo de quase que
uma tempestade de chuva
percebi que todos que estavam
no ponto, olhavam com estranheza
de mim, alguns riam e outros apontavam
estavam fazendo seu julgamento
sobre o mais recente funcionário
contratado da agência
que tinha cara de otário, desengonçado
e agora bizarro por ter ficado parado
minutos em meio a uma avenida movimentada
mal sabiam toda “merda”
que se passara
em minha mente
após aquilo que muitos
consideraram um vexame
entrei no ônibus abarrotado e fui
com os braços esgueirados no ferro
mais próximo que eu podia segurar
pensando no que acontecera
a poucos minutos atrás
alguma coisa ainda havia
dentro de mim
um sentimento de que algo
deveria ser feito, algo deveria
ser mudado, mas o quê?
eu olhava pelo pouco
de janela que à minha visão
foi concedida e outorgada
fitava então o movimento
dos prédios e das calçadas
tudo o que compunha
aquela eterna selva de pedra
e que variava apenas em alguns
tons de cinza
tudo parecia correr na velocidade
da luz, enquanto eu estava parado
tudo parecia derreter enquanto
eu me afundava e, enquanto tudo mudava
eu permanecia calado, sem reação
na mais miserável inércia
que me foi condicionada
por todos os lados, eu me sentia
amassado, deformado e no entanto
agora, um pouco mais lúcido
tudo, absolutamente tudo
que acontecia comigo
nesses últimos minutos
soava de modo contundente
como uma metáfora de minha vida
logo, senti uma mão tocando
em meus ombros e assustado
rapidamente sai
daquela profundidade
que me contornava e me contorcia
por dentro e logo vislumbrei
as cores da “realidade”
minha mente estava frágil
procurava entender o que de fato
acontecia, e quando segui a sensação
do que tinha me tocado, me deparei
com o motorista do ônibus me avisando
que aquele era o último ponto
e que eu deveria desembarcar
as suas duas últimas palavras
começaram a reverberar
em minha cabeça e aos poucos
transfiguravam-se em palavras
desformes até soarem como:
“última chance”
segui cambeleantemente até a porta
e, quando saí, minhas pernas
começaram a correr sem parar
dentre o barulho incessante
caótico urbano com seus carros
metrôs, guinchos, construções
buzinas, latidos de cachorros
abandonados em meio
ao esquecimento
então, após alguns largos passos
caí de bruços no chão de concreto
e naquele mesmo ponto abstrato
de minha queda inconsciente
adormeci…
