Numa redoma de vidro.

http://demonmiss27.deviantart.com/art/Lonely-Rose-19881758

Entrei com meus passos largos, sapatos bem engraxados e um discreto sorriso na face.

-Alguém por aqui já leu “O pequeno príncipe”? — Duas mãos levantaram-se no público, arrependendo-se quase que imediatamente do que fizeram.

-Pois é, boas lembranças são o que me traz este livro, todos os vulcões, baobás, a raposa e a rosa.

-Ah sim, a rosa. O único contato real de amor que o principezinho teve em toda a sua breve vida. Amor que retrata da melhor forma os romances infantis. - Sentei-me em uma cadeira no meio do palco e disse, com ares de nostalgia.

-Ainda me lembro do meu primeiro amor. Acredito que esse sim foi um verdadeiro amor, puro, sem esses pensamentos rudes que os homens têm depois da puberdade. Ana Maria era seu nome. Consigo lembrar dos seus negros cabelos, sempre embaraçados de tanto correr por aí. Estranhamente, apesar de ter quase a minha idade, Ana parecia ter parado no tempo há alguns anos, e naquela época em que todas as garotas apaixonavam-se, importavam-se com sua beleza, pintavam-se e amavam, ela parecia não se importar com nada parecido, mostrando reação alguma ao ouvir de alguém “eu gostaria de tê-la como namorada”.

O público parecia pouco interessado, pude até ver um senhor olhando seu belo e dourado relógio, que refletiu a luz do palco direto nos meus olhos. Piscando, prossegui com minha história.

- Demorei a dizer a ela diretamente o que eu sentia, pois tinha medo de sua reação, afinal de contas, éramos grandes amigos, Ana Maria era uma moça muito recatada, e realmente não possuía nem a metade de amizades que eu. Andávamos juntos no recreio de vez em quando, também procurávamos sempre ajuda um do outro durante as aulas, eu, mais do que ela, pois, ninguém na sala era tão bom aluno quanto ela. O tempo passou, e quanto mais ele passava, mais eu me sentia atraído pela perfeição inocente de Ana Maria, ela, para o meu descontentamento, parecia nunca ter ouvido falar da palavra paixão.

-Ana, preciso te dizer uma coisa, acho que estou apaixonado por você, acho isso há um bom tempo. Disse a ela com meu coração apertado na palma minha mão.

-Puxa vida André, não é por maldade não, acredite, mas eu não estou muito preocupada com isso agora, eu gosto muito de você, sabe, mas não acho que dar um passo a frente vai me fazer mais feliz do que eu já estou, sendo apenas sua amiga, tudo bem? — Foi o que ela me disse, depois me deu um sorriso e mordeu sua maçã.- Disse, ao público, já com os cotovelos apoiados nas coxas.

Meu amor mais sincero e puro se foi como um punhado de areia numa ventania. Mas não chorei, pois percebi que a minha amada era como uma rosa em uma redoma de vidro, perfeita, intocada e feliz, assim como está.

Vive em seu pequeno mundo, fechado e livre do vento da liberdade. Seria impossível tirar minha bela rosa da redoma, tornando inevitável a hora de partir, e assim, como o principezinho buscar planetas mais interessantes.

Levantei-me da cadeira, com a testa suada graças aos holofotes que me fritaram até o fim do monólogo. Poucos aplaudiram, muitos se levantaram com pressa, até que me encontrei sozinho em um auditório vazio.

-E então, seu Jonas, como foi na apresentação? Disse-me o zelador, na saída do palco.

-Não muito bem. As pessoas não querem mais saber de amor.