O contexto moderno da malandragem carioca.

http://www.deviantart.com/art/Rainy-Lapa-329384433

2016, o ano Olímpico pertencente ao Brasil. Ao Rio, a grande cidade de contrastes que me acolheu, junto aos meus sonhos de adolescente. A cidade que me tornou quem eu sou hoje. Que me ensinou a malandragem, o artifício final de quem não tem ninguém por si.

Já se ouviu falar muito dela por aí. Algo tão antigo no nosso folclore até hoje pode ser ouvida no samba, nas histórias que se repetem como um eco nas noites, nos livros, poemas e contos que compõem nossa cultura urbana e boemia. Uma ferramenta de navegação social que já faz parte de todo carioca, como manchas em um colchão velho. O que torna-se cada vez mais difícil classifica-la como algo bom ou ruim, justamente pela natureza volátil desse “recurso” por assim dizer.

Mas se nós observarmos a sua origem, fica claro que a malandragem em sua forma mais crua servia não apenas para transgredir, mas para trazer (nem sempre da melhor forma) justiça para quem é oprimido todos os dias.

Hoje, a gente vê a cidade se mastigando aos poucos, de dentro para fora, por algo que ela mesmo criou. A malandragem evoluiu. Tomou formas cada vez mais sombrias e sofisticadas. O filho rebelde dos costumes cariocas perdeu o controle.

As perguntas que me impedem de dormir sossegado são:

Entre todos os malandros que vagam pela cidade, como as pessoas não conseguem ver quem está do nosso lado da luta?

Por que eu vejo um repúdio tão extremo aos malandros sobreviventes, os que se valem da malandragem por um prato de comida, por uma droga que os desprenda dessa carne que só oferece dor, que tiram do fundo de seus peitos a vontade de sorrir e enfrentar um mundo tão grande, que insiste a virar as costas para eles. Malandros que não se escondem atrás de terno e gravata. Gente que já passou as dores que você passa também.

Nos preocupa toda essa violência nas ruas, os ladrões, os mendigos, as prostitutas, o narcotráfico. Pouco se fala dos juros crueis, dos impostos negligentes. Das multas criminosas, o desrespeito total a liberdade do cidadão.

E enquanto isso, a malandragem engomada busca mais uma reeleição, vidas são desperdiçadas como toalhas para limpar as mãos sujas dos malandros de terno. Mesmo assim nós continuamos a bater palma para essa grande festa que nem sequer fomos convidados. A malandragem engomada escorre pelas grades que separam os que podem ou não fazer parte dessa festa. Uma fatia utópica da cidade predadora em que vivemos.

No entanto, Não me entendam mal. A verdadeira intenção dos eventos Olímpicos é a de nos fazer sentir unidos enquanto humanos, é mostrar a todos do que a humanidade é capaz quando unida. Eu como ex-atleta sempre acreditei nisso. O esporte nos entrega um senso de igualdade genuína. Senso esse que se dissolve no sarcasmo de quem organiza as Olimpíadas, a frieza e crueldade de quem está por trás dos panos verdes e amarelos do nosso país.

Agora nos preparamos para as Paraolimpíadas, que batem timidamente a porta das nossas casas. Dá pra ouvir a timidez e o medo através de cada batida. Medo de levantar questões que não atendem o interesse dos governantes. Medo de expor as falhas e o descaso com os atletas e cidadãos que vão nos representar nas próximas semanas, mas que vivem todos os dias a dor de ser um deficiente e viver nessa cidade entregue aos lobos, aos malandros carniceiros que assistimos na televisão.

Cidadãos cariocas, que se usam da malandragem para sobreviver. Por que não há outra opção. Num ambiente urbano que transforma um passeio em uma luta, que nos priva acessar lugares comuns e conseguir um mínimo de respeito, qualquer malandragem a nosso favor é sim muito bem vinda.

As Paraolimpíadas são uma das maiores formas de mostrar a todos que deficientes podem sim ser fortes, capazes. Olhar os jogos e se sentir representado, respirar com toda a força dos pulmões os ares de inspiração.

Mas não é isso que eles querem que a gente veja. definitivamente não é isso. Criam uma estrutura inacessível a todos, fazem publicidade falsa, que nos afasta dos nossos verdadeiros heróis. Nos escondem com uma sutileza digna do mais chavoso dos malandros, quem são realmente aqueles que nos motivam a seguir em frente. Quem nos faz sentir bonitos. Quem nos ajuda a lidar com a nossa condição.

Meu desejo é que tirem os atletas, os turistas e a imprensa dessa bolha paraolímpica perfeita e cheia de estrutura! Mostrem ao mundo o que é atravessar o centro da cidade sendo deficiente. O que é pegar um transporte público. Enfim, o que é ser cidadão no Rio de Janeiro.

Você aflito em casa, faça um favor a si mesmo e a quem está ao seu redor. Quebre a cara num ponto de ônibus. Faça todos terem vergonha de não terem espaço pra você nessa sociedade. Jogue o peso dessa dor nas costas de quem realmente merece! Mostre que você pode rasgar uma ferida enorme nos muros que te prendem em casa. Que você tem forças para passar. Eles vão ter que nos aguentar. E o mais importante de tudo. Eles precisam nos ver.

Eu me orgulho de ser um bom malandro. De dominar a arte e o gosto de levar vantagem em tudo. Eu mereço. E eu uso isso ao meu favor.

2016 é agora, e é o momento de tomarmos conta do que é nosso. De usarmos tudo que temos para trazer a cidade mais bonita do mundo de volta aos nossos pés.

Reflitam sobre que malandros vocês são.

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