Possuído Pt.2

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Depois disso houve o silêncio. Me perguntei por alguns instantes se eu estava morto.

Não podia ser. Comecei a ouvir uma batida compassada. Era meu coração. Essa batida ia se radiando em linhas que desciam. Senti minhas orelhas pulsarem, e então toda a minha cabeça e pescoço. Até que um breve som entrou passou pelos meus ouvidos, vindo de dentro para fora. Era como o barulho de uma corda sendo torcida. Eram os músculos das minhas mãos se contraindo.

Tentei abrir os meus olhos. diante de mim estava uma cama. em cima dela, um corpo estendido, magro, pálido, embaixo das cobertas. Percebi que estava em pé, frente a mim mesmo. A estranheza daquele momento era demais para mim. Meu novo corpo começava a acordar e eu comecei a testar meus movimentos. Tentei caminhar, e naturalmente, consegui, sem falhas nem hesitações, foi como se eu sempre tivesse feito isso. Aproximei-me dos monitores e o bipe estava cada vez mais espaçado. Minha casca antiga estava morrendo. Uma das enfermeiras entrou pelo quarto.

-Graças a Deus, Doutor! Você já está aqui!

Doutor? Olhei para o reflexo em uma das janelas e não pude acreditar no que vi.

-O que está acontecendo? Que escuridão toda é essa? — Disse ela, aproximando-se da cama.

Não sabia o que dizer.

-E.. Eu tenho que ir.

Saí correndo pela porta e me deparei com o corredor vazio. A passos largos, fui até o elevador. Na minha boca eu sentia um gosto metálico. Ainda dava para ouvir a enfermeira tentando reanimar aquele corpo sem mente.

Apertei o botão. Quando entrei no elevador, meu coração começou a se agitar. Finalmente havia fugido daquela prisão. Minhas mãos ainda palpitavam enquanto eu corria em direção da saída. As portas se fecharam atrás de mim. Já estava fora do hospital e só conseguia pensar na minha esposa.

-Esposa?! No que eu estou pensando?

Milhares de lembranças que eu nunca havia vivido penetraram minha cabeça como farpas pontiagudas. Dias na praia com a Lívia, Livros, cirurgias, filmes. O gosto metálico na minha boca estava se alastrando até o fim do meu esôfago. Engoli seco e sentei em um banco que vi ao longo da calçada. Esperei as farpas pararem de doer. Lúcio não explicou isso para mim.

Me senti mal pelo Doutor e sua esposa. Não queria passar por cima da vida de um cara que tentou por tanto tempo me deixar melhor. Precisava sair de lá, só não sabia como.

-Talvez eu apenas precise me aproximar de alguém e desejar.

Olhei ao meu redor. Nada. Caminhei pela rua procurando alguém para possuir. Naquele momento eu só queria deixar as lembranças para trás e começar de novo. Vi um homem de rua deitado com seus cachorros em um colchonete puído.

-Isso!

Fechei com força meus olhos, na esperança de que encontrasse o clique que me transportou. Mordi os lábios até conseguir lembrar do beijo.

Lá vamos nós de novo.

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