Uma Carta ao Movimento

De acordo com a física elementar e dinâmica linear, existem 5 equações para descrever como os corpos se movem, através de uma aceleração uniforme.
Nos sistemas dinâmicos – que para uma alma inquieta parecem mais atrativos do que os lineares – existe sempre um único grau de liberdade, que, de acordo com a física, é uma coordenada ou ângulo que determina sua posição, e duas variáveis de estado que são: a variável associada a esse grau de liberdade e sua derivada em ordem de tempo.
Para poder calcular a velocidade do movimento em qualquer ponto do espaço é necessário obter o valor da aceleração dos corpos.

Obviamente, para uma pessoa das Ciências Sociais e Humanas, busquei essas informações específicas no Google. Não me lembro mais dos detalhes do que aprendi em física, no colégio.
Na minha última viagem, há umas duas semanas atrás, decidi fazer uma Carta ao Movimento. Por essa razão, me surgiu a curiosidade de ir atrás desses conceitos sobre o movimento em si, já que a nossa educação muitas vezes abafa nosso desejo de interdisciplinarizar tudo, fica aberta a possibilidade de tentar fazer essas conexões sozinho.
Desde criança o movimento foi algo que exerceu encantamento em mim. Primeira viagem de avião com 1 ano de idade, inicio da vida de bailarina aos 3 (para mim não mais belo movimento humano que a dança), e uma constante mudança de casas e passeios aleatórios de carro sem destino durante toda a adolescência, fizeram de mim uma pessoa que necessita do movimento para sentir-se bem, quase que para respirar com tranquilidade.
Nunca me esqueço do quão bonito era ver as árvores e os pastos se movendo, ou dançando – como eu dizia à minha mãe – na estrada, por causa do vento. Eu sempre tentava colocá-los dentro do ritmo da música que tocava, imaginar uma ballet inteiro naquele som, naquela imagem.

Nessa última viagem, duas das cenas mais lindas que já vi na vida, não saem da cabeça. A primeira, dentro do avião: acordar de repente e ver pela janela a mãe Amazônia, no seu infinito, na sua magnitude e força vital. Delicadamente cruzando sua mata fechada e intocada, um rio, que fazia desenhos como se estivesse brincando com o lápis em uma folha em branco, formando pequenas ilhas e curvas de se perder de vista. O sol e as nuvens faziam a moldura daquele momento, que, de tão emocionante, não precisou de fotos e publicações para ficar gravado pra sempre na minha memória.
É por isso que eu tenho vontade de agradecer a quem inventou o avião (querido Santos Dumont) e a quem inventou o movimento (querida natureza, suponho eu). Graças à possibilidade de viajar, de se mover, de ver as coisas em movimento, somos seres humanos inconstantes, em plena transformação e evolução. Mesmo aquele que nunca se move é afetado pelo movimento. Se a Terra não se movesse, não haveria dias e noites únicos, não haveria estações, colheitas, frio e calor, não haveria biodiversidade.
Fascina-me a sensação de ver a vida de cima, da janelinha de um avião. Tudo parece tão simples, a pequenez da vida fica evidente em uma escala maior. Todos deveriam ter o direito de experimentar essa sensação um dia.
Toda vez que subo em um avião, é sempre a mesma emoção, como se fosse a primeira vez. Amo todo esse procedimento, amo essa sensação de me desligar de tudo lá embaixo, amo essa oportunidade de reflexão e de gratidão, por uma humanidade que nos proporciona tantas coisas maravilhosas e tantos problemas por resolver, ao mesmo tempo.

Outra magia do movimento é o carro, trem, ônibus e qualquer outra coisa que nos proporcione andar pelo chão e ver como tudo se conecta, ver como a paisagem muda, ver o que está logo em seguida. Muitas coisas que jamais conheceremos em detalhes, mas que sabemos que estão ali e fazem parte do nosso todo. Não me lembro quem inventou o motor, a roda (essa é antiga), o carro per se. Mas agradeço a esses seres humanos por esse meio de movimento tão prazeroso, que nos permite parar ou seguir ao nosso bel prazer. Esse para mim é o melhor terapeuta, o melhor amigo. Uma volta de carro por uma estradinha qualquer, sem rumo certo, não te desconecta de tudo, mas te faz ver as reais conexões que rodeiam a sua vida, e isso aclara e acalma a mente de um jeito extremamente eficaz.

A respeito da segunda melhor cena da vida, que se concretizou através de um carro, se manifestou ali, frente aos olhos, que sem necessidade de foto, está gravada para sempre. Na estrada, uma das mais bonitas que eu conheço, no sul do meu mundo, a lua, vermelha, gigantesca, encostando no lago, que por sua vez, cumpriu o papel de espelho para aumentar ainda mais a beleza dela. Um momento tão especial e único, que exigiu uma parada no acostamento para observar aquilo e levar aquele momento com a gente para sempre. Observar foi necessário para se deixar afetar por esse poder e por essa inteligência da natureza, que está dentro de cada ser vivente nesse mundo tão grande. Esse momento só foi possível graças ao movimento, o da Terra, o do carro, o de quem construiu a estrada e o de quem um dia inventou tudo isso que move a máquina.

Incluo no movimento, não somente o deslocamento físico, que implica em gerar uma distância e uma velocidade. Mas sim essa aceleração, que de acordo com a física é necessária para todo tipo de movimento, que vem de dentro dos corpos, que podem provocar mudanças e deslocamentos. Considero que essa aceleração vem de uma motivação, uma decisão, que nasce dentro de cada corpo. O grau de liberdade, como explicado lá em cima, é o ângulo ou coordenada, é o que te gradua dentro desse espaço. Cabe a cada um decidir qual é o grau necessário para suprir as ânsias de liberdade que todos temos por dentro.

O meu grau de liberdade é altíssimo, meu ângulo é imenso, minhas coordenadas são sem sentido e sempre estão mudando. Necessito que a equação do meu movimento viaje de acordo com a minha mente e espírito inquietos, que querem sair voando sem ter que comprar uma passagem, sem respeitar o tempo dos humanos.

Tudo isso me faz refletir que, como tudo na natureza segue uma ordem e uma lógica, nós também, como mestres do nosso futuro, devemos organizar essas variáveis e forças, para que, logo mais, nossa equação resulte ao menos satisfatória. Satisfatória não para o que a sociedade te diz que é satisfação, mas sim para satisfazer essa aceleração que temos por dentro, e que, lhes garanto, não é saudável contê-la por muito tempo.
Como disse nosso conhecido cientista francês, Louis Pasteur: “Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”.
Gosto quando vejo e sinto que essa frase tem sentido. Deus, ou a inteligência divina, nada mais é do que a vida seguindo sua lógica natural, do que corpos e elementos cumprindo seu papel em direção à evolução comum.

Por mais que sejamos tão bombardeados com elementos de imortalidade, de materialidade e de superioridade, somos e para sempre seremos corpos no espaço, com papeis a cumprir e movimentos a realizar, dentro dessa grande inteligência chamada natureza.

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