Em defesa do fogo

Queen Katherine’s Dream — Henry Fuseli
O fogo é ultravivo, o fogo é íntimo e universal. Vive em nosso coração. Vive no céu. Sobe das profundezas da substância e se oferece como um amor. Torna a descer à matéria e se oculta, latente, contido como o ódio e a vingança. Dentre todos os fenômenos, é realmente o único capaz de receber tão nitidamente as duas valorizações contrárias: o bem e o mal. Ele brilha no Paraíso, abrasa no Inferno. É doçura e tortura (Gaston Bachelard, A Psicanálise do Fogo).

Nunca fui muito de acreditar em bloqueio criativo, o que não impediu que, às vezes, minha imaginação se tornasse árida e cinzenta. Tem dias em que as palavras parecem perder um pouco do sentido e, porque mais que eu me esforce para construir uma sentença coerente e fluida, a coisa não anda. Claro, às vezes, é estresse ou certa ansiedade, a cabeça pode estar cheia de mais. E então, o que fazer?

Acredito que processo criativo tem a ver com o que estou escrevendo, justamente por isso “bloqueio” me parece uma ideia abstrata demais. Mas me permita elaborar. Eu só consigo escrever se estiver no clima, no mesmo tom do que estou escrevendo. No meu último romance, O Réquiem do Pássaro da Morte, eu precisava de uma ambientação bem específica. O livro é uma fantasia sombria, ambientada em um mundo fantástico que tem um quê de gótico. A história é narrada em primeira pessoa e meu protagonista, Douglas, é um herói byroniano, um poeta maldito, angustiado pelas perdas do passado e atormentado pelos demônios de seus próprios desejos. Um sujeito autoexilado e, ainda que inicialmente estático, resguarda uma fornalha no peito, pronta para explodir.

Gosto muito de literatura gótica, como Poe, e poesia decadentista, como Baudelaire. Esses artistas e muitos outros foram fonte inesgotável de pesquisa e inspiração. Ainda assim, a história só saiu quando eu apaguei as luzes, acendi incensos e servi uma boa taça de vinho. Então escrevi madrugadas adentro, feito um louco, às vezes meio perdido nas minhas próprias notas. Por vezes, me sentia meio possuído por um espírito decadente que sussurrava para mim sobre anjos e demônios, musas e bacantes, coisas sagradas e profanas que eu tentava destruir para reconstruir na narrativa.

Há algum tempo, eu estava trabalhando em outro romance, uma história de horror urbano. Mas essa era um história em terceira pessoa, protagonizada por um jornalista afogado na turbulência de uma grande cidade. Nesse caso, eu só conseguia escrever no meio do turbilhão. Sentado na frente do computador não saiu nada. Era no ônibus que eu conseguia escrever, ou na fila do banco, num bar ou até caminhando. Escrevi praticamente tudo à mão, em blocos de notas — sim, imaginem o pesadelo de organizar tudo depois e, às vezes, simplesmente entender minha letra.

Meu ponto aqui é que acho que preciso sentir um pouco do que estou escrevendo. Parte da razão é que meu processo de criação quer ser um pouco sinestésico. Isso foi algo que eu aprendi a meu respeito. Claro, também tenho a pretensão — se feliz ou não, não sei dizer — de tentar oferecer alguma coisa nos textos que escrevo. Como gosto de poesia, valorizo o estilo e o ritmo. Além disso, tudo o que faço tem trilha sonora. Faço listas sem fim, que servem para me manter no clima, evocar aquela sensação que parece querer fugir pelos meus dedos. Também acredito em certo senso estético.

O Réquiem é sobre idealidade. Eu queria falar sobre o que acontece quando tocamos naquilo que só existe de fato dentro de nossa imaginação. Quando penso nesse caráter estético, duas coisas costumam me voltar à mente: a ideia de subversão e Anne Rice. Subversão porque acredito, do fundo do coração, que a arte é a forma mais forte de contrariar o senso comum, de contradizer convenções, ameaçar verdades. Literatura é subversão de forma, de ideias, de pessoas; é a centelha primeira da revolução. Anne Rice, porque me lembro do Vampiro Lestat afirmando que o mundo é um Jardim Selvagem, onde a tudo colide e as formas indomáveis da criatividade confluem em uma coisa — a arte — que é maior que bem e mal, certo e errado, Deus e o Diabo. É maior, porque transcende tudo isso.

Talvez eu não tenha dito realmente nada nesse texto. Mas minha ideia era provocar. Não acho que existam fórmulas para desbloquear nossa criatividade; recursos de escrita criativa, como conceitos de trama, narrativa, diálogos, metáfora, etc., são exatamente isso: recursos. Trata-se de criaturas construtas, golems trazidos à vida pelo nosso fogo interior, a chama da criação, de nossa imaginação. Quando escrevemos, no geral, temos alguma coisa a dizer, uma experiência para oferecer. Queremos afetar o leitor através da empatia. E para fazer isso, acabamos oferecendo algo nosso. Esse é o preço, afinal de contas: desnudar-se diante do outro, um ser que é exatamente como nós, mas diferente, composto de loucura, imaginação e amor; em suma, desejo.

Foi por isso que comecei esse texto com uma citação de Bachelard, porque só nós mesmos podemos encontrar o combustível para atear fogo em nosso desejo, pôr a vida em movimento e levar as coisas a termo. A história a ser contada, isso a gente pode descobrir enquanto conta. Mas precisamos de uma ideia, algo nosso, que só nós mesmos possamos contar, do nosso jeito. Isso é autenticidade, é aquele elemento a mais que vai fazer fogo persistir pelo tempo necessário. Somos imaginação, só precisamos encontrar nossas próprias formas de caminhar através das chamas.

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Meu romance, O Réquiem do Pássaro da Morte, está no Catarse neste momento. A ideia é viabilizar a versão impressa do livro. Então, se puder, confere a campanha e me dá um apoio. Meus demônios criativos agradecem.
Arte de capa por Jéssica Lang.