Você não precisa ser perfeito para realizar seus projetos
Mas isso não é desculpa para fazer as coisas de qualquer jeito
Por Andriolli Costa

Eu não sou o fotógrafo mais técnico do mundo. Só para ter ideia, durante anos — quando a imagem para mim era mero suporte para o texto e não condutor de sua própria narrativa — eu me sentia mais confortável ao me descrever como “um jornalista com uma câmera”.
Também estou longe de ter o melhor equipamento do mundo. Uso até hoje uma Canon T2i, com kit básico, uma cinquentinha e uma 75–300 que comprei usada não faz nem um mês. A câmera peguei em 2011, já em promoção, e desde então ela tem me acompanhado em curtas-metragens, eventos e projetos fotográficos. Nunca tive condições de comprar um modelo atualizado.
Também nunca me vi como uma daquelas pessoas que passeiam pela vida com um “olhar fotográfico” apurado. Eu já estudei com gente que pediu para o ônibus da excursão encostar para poder fotografar uma paisagem bonita. Eu mesmo jamais faria isso. Também sempre admirei quem tinha um instagram conceitual, daqueles que compartilha olhares sobre a cidade com legendas breves e fatais. Mas aquilo não era para mim.
Eu não era perfeito técnica ou artisticamente, não tinha o equipamento ideal, mas tinha duas coisas fundamentais: obsessão e criatividade.
A criatividade é sua capacidade combinativa, é o modo como um ou vários inputs se somam ao conhecimento sedimentado para formar algo novo, revoltoso, que precisa ser organizado e posto em prática. A obsessão é a vontade pungente, que toma seus pensamentos e seu tempo livre. Que te ajuda a romper a barreira da procrastinação ou do simples devaneio. É o que vai te levar do delicioso mundo das ideias — onde tudo funciona perfeitamente — ao sofrimento da ação concreta, onde acertos são muito menores que a infinidade de problemas.
Foi assim que criei o projeto Folclore Nu — Desnudando a cultura brasileira. Em 2016 eu desenvolvi um forte trabalho de divulgação folclórica com uma mostra de curta-metragens e contação de histórias pelo meu blog, o Colecionador de Sacis. Eu fiz o planejamento para ter seções para adultos e crianças, com abordagens diferentes. Na das crianças tinha o público de 200, 500, até 800 meninos e meninas. Na de adultos, eu apresentava em salas para 10, 15 pessoas… Era preciso pensar em uma ação diferente e que captasse a atenção do público adulto. Um trabalho que servisse para mostrar que o fundo comum do folclore brasileiro era capaz de produzir narrativas que envolvessem públicos dos mais variados — e não apenas o infantil.

Foi em 2016 que encontrei, graças ao Facebook, a oficina de um fotógrafo chamado Alberto Prado. Ele já havia passado por Porto Alegre, então não pude ser seu aluno, mas me encantei pelo trabalho. Até então eu só pensava em fotos de nu em seu sentido estético, mas Alberto investia no dramático. As poses do corpo, torcidas em movimentos bizarros, não buscavam a beleza do modo como a conhecemos, mas eram belas no sentimento que transmitiam. O nu contava uma história de natureza, drama e animalidade.
Naquela época, calhou de eu estar me debruçando sobre um novo artigo que escrevia para um evento de comunicação. Um texto que buscava entender as estratégias de fotografar o invisível, o sensível, o inefável: como fotografar mitos e lendas folclóricas? Eu havia encontrado várias possibilidades, das mais objetivas — como centrar-se nos espaços físicos onde o lendário habita — até as mais subjetivas — como o uso de manipulação digital em sombras, projeção sobre corpos de modelos, etc. Reuni tudo isso: fotografia, nu, folclore em uma revoada de pensamentos.
Deixei a ideia incubando durante meses até finalmente escrever o projeto. A obsessão não me deixou abandoná-lo. Eu já tinha aceitado meus primeiros trabalhos remunerados com fotografia, mas apenas em coberturas de evento, e não em ensaios. Não tinha experiência em dirigir pessoas e fazê-las se soltar, quanto mais sem roupa! Eu não era perfeito, talvez não estivesse a altura da minha ideia. Mas precisava tentar.
Para ser um realizador
Você não precisa ser perfeito para ser um realizador. Não precisa ser o melhor fotógrafo, o maior roteirista ou diretor mais genial. Mas isso não significa que dá para fazer as coisas de qualquer jeito. É possível, claro, mas os resultados podem ser muito abaixo do que você esperava.
Para mim o modo de equalizar a expectativa da ideia com sua realização vêm do desenvolvimento de três fundamentos: A) Observação, B) Curiosidade e C) Consciência.
A Observação é a capacidade de identificar seu lugar no campo, a proximidade e a distância do seu trabalho com o que outras pessoas já vêm fazendo. Assim, você vai conseguir buscar referências e não achar que está inventando a roda. Esse é o momento da pesquisa, da consolidação do olhar. Foi quando o iniciei que descobri, por exemplo, o trabalho de Annie Leibovitz com a fotografia dos contos de fada. Ou de Melanie Rodrigues e Deborah Sfez ao retratarem as vestimentas típicas do folclore russo com muita dupla-exposição e uma incrustação física de linhas de bordado na imagem. Possibilidades surgiram aos montes: não como cópias, mas como combinações possíveis.
É nessa fase que você identifica os erros que deseja evitar. Nos grupos de Facebook dedicados ao nu artístico, por exemplo, encontrei fotos em que a pele era tão limpa que davam o efeito de plástico brilhoso ao corpo da modelo. Em outros ensaios, o branco do olho era tão realçado que tinha a impressão de que me deparava com um exemplo contemporâneo de tanatografia — a fotografia dos mortos, na qual os olhos eram pintados sobre a pálpebra do falecido para dar impressão de que vivia. Entendi pouco a pouco o que fazer e o que não fazer.

A Curiosidade, por outro lado, é sua tentativa de entender essas referências. Como foram feitas? Como é essa técnica? Como misturo esses dois estilos e o que surge com isso? Decidi usar a obliteração por fogo no ensaio do Boitatá, por exemplo. Para isso, revelei várias cópias da foto que queria, em formatos diferentes, preparei a câmera e comecei os testes. Fósforo, acendedor, boca do fogão. As fotos ou queimavam pouco, ou rápido demais. Enchi a casa de fumaça, mas achei um clique adequado. Misturei a foto queimada com sua cópia digital para retirar o brilho da segunda exposição e pronto! Você não precisa ser perfeito, mas deve querer desvendar os resultados que te interessam.
Consciência, por fim, é o mais importante. Diz sobre você ser capaz de perceber quais os seus limites — de técnica, de habilidade, de dinheiro ou mesmo tempo. Eu não tinha experiência com ensaios de nu, então a primeira coisa que busquei assim que terminei de escrever o projeto e de pesquisar as referências foi me capacitar. Conversei longamente com o amigo André Patroni, que já desenvolvia um trabalho admirável. O André foi meu colega de faculdade, e seus ensaios me mostravam que aquilo que eu procurava não era inalcançável.
Tive a sorte de encontrar pouco depois um workshop d’O Bendito Fruto que cabia no meu bolso. Lá compreendi os cuidados necessários ao dirigir uma modelo em ensaio íntimo e tive as primeiras experiências com direção de um trabalho desse tipo. Os dois ensaios de 10 minutos que fiz no curso me abriram as portas para outros, entre amigas, indicações e modelos que conheci em grupos de Facebook.
Cada novo ensaio era um teste, uma oportunidade de encontrar o meu jeito de dirigir e de obter os resultados que eu queria. Você pode acompanhar esta evolução aqui. Com os primeiros resultados, já posicionado como um fotógrafo de nu em início de carreira, eu pude convidar homens e mulheres sem constrangimento para meu projeto autoral. Eu realmente tinha um projeto, consolidado, pensado e em pré-produção. Não era nenhum aventureiro.
Sem dinheiro para executar os ensaios, a pré-produção foi longa. No correr dos sete meses necessários até estrear o projeto, comprei aos poucos os objetos de cena que precisaria — ou pedi aos amigos, fiz teste de maquiagem corporal inspirado pelo trabalho do amigo fotógrafo Giovani Scherer, encontrei as locações e otimizei o tempo dos ensaios pensando nas fotos que eu queria antes mesmo de conhecer o espaço. Era mais fácil adaptar as ideias do que criar na hora.
O resultado está aí, fruto de minha obsessão direcionada; de uma criatividade combinativa. Resultado de meses de observação, curiosidade e planejamento, mesmo não sendo o fotógrafo perfeito que eu queria ser.
Muita gente fala sobre a síndrome do impostor, e eu mesmo já escrevi anteriormente sobre a “Polícia da Fraude”, aquela que invariavelmente baterá um dia em sua porta para dizer: “Pronto! Você nos enganou por muito tempo, mas agora acabou. Acompanhe-nos, por favor”! Só que não se trata de sentir-se um impostor ou indigno de seus projetos, e sim de ter consciência de suas limitações.
Não ser tecnicamente perfeito, não ter o orçamento ou o tempo perfeito, são contingências não só de nossos projetos pessoais, mas da própria vida. Reconhecer essas limitações permite que você possa contorná-las, evitá-las ou até mesmo aceitá-las sem se frustrar com o resultado final.
E se ainda assim fracassar, paciência. Sempre é tempo de voltar para a prancheta e de criar algo novo. Ficar parado é impossível; a obsessão não deixa.
Acesse os ensaios do Folclore Nu pelo Facebook ou em nosso portfólio.

