Feliz dia das mães para sempre, todos os dias

Hesitei um tanto a escrever este texto, e o título não deixa dúvidas, o que não é um problema em tempos de retrocessos ideológicos e discos de vinil convivendo com café em cápsulas e dependência de smartphones, e cada vez mais médicos metidos a escritores (desconfio muito disso, aliás). Mas gosto do fato de poucas, mas muito significantes, pessoas lerem o que eu escrevo.

Dito isto, eis que daqui a algumas horas é Dia das Mães, o que inclui uma das pessoas mais generosas e dignas que já tive o privilégio de conhecer e conviver: dona Nazita, minha mãe, minha heroína.

“Tá, mas o texto já começou tendencioso”. Alto lá! – não tem nada de tendencioso e vou explicar o porquê.

Todo mês de maio é a mesma coisa no Facebookistão (não falo mais do Twitter pois este é caso perdido, repleto de blogueiros fúteis): a gente vê todo tipo de manifestação de afeto, amor, orgulho e mesmo exibicionismo (sim, é sério) dos vários tipos de “filhos da mãe” que convivem nesse país virtual chamado Facebookistão: uns exaltando a beleza física, outros a elegância, as milhões de virtudes da mãe de cada um, chamadas de santas, heroínas etc etc e o resto todo que vocês sabem.

Optei por não escrever uma só linha sobre qualidades em si e preferi falar da essência da minha “véia milionária”. E começo a explicar as muitas lições de vida que ela me deu que pode servir para muitos de nós – melhor não dizer que tudo o que sou eu devo à ela, já que definitivamente sou uma pessoa não-boa-nem-má assumida. Como já cantou Amy Whinehouse, “I told you I was trouble, you know that I’m no good”.

Dona Nazita não tem Facebook, o que considero uma virtude nos tempos de hoje, pois se poupa de muitos dissabores e também de tentativas de intoxicação do ego. Era uma mulher linda que nunca inflou o ego por isso e hoje é uma simpática senhora de 80 anos. Foi uma das pessoas que mais quebrou paradigmas e preconceitos pessoais: ela, branca, filha de agricultores, com posses, casou com um homem negro e pobre aos 16 anos, criou 8 filhos com muitas dificuldades (não vou listar para não parecer aquelas historinhas patéticas de superação que pipocam por aqui); teve pouco estudo, mas é de uma humildade e generosidade que é rarefeita em muito PhD, há anos sofre intolerância religiosa dentro de casa por ser católica romana atuante e reta na sua fé.

Compreendeu e compreende as escolhas pouco ortodoxas de cada filho, minhas inclusive, desde a saída de casa para morar só “por nenhum motivo” até as escolhas espirituais. É tão tolerante que admitiu ter preconceito com o budismo como tinha com a Kabbalah – por pouco conhecimento e por uma experiência traumática no passado com uma vizinha nossa que recitava mantras quase 24 horas por dia (um saco). Tolerou minha escolha pelo zen em cinco minutos de conversa ao telefone.

De hábitos simples, banais até, mas por isso mesmo muito especiais: conversa por horas com qualquer pessoa em fila de supermercado, sempre tratou igualmente as pessoas, do agricultor ao “doutor”, adora manga – devora várias em minutos, é uma ilha de humildade cercada de soberba (tem umas pessoas que frequentam igreja que prefiro nem comentar…), comemora conquistas como aprovações e títulos com a mesma alegria de quem acerta o tempero do feijão; trabalha de sol a sol em casa há mais de 60 anos, fazendo suas coisas costumeiras e sempre cozinhou com as próprias mãos – faz o melhor feijão carioca e bife de panela da galáxia. Só teve 20 e poucos dias de “férias” quando veio para minha casa aqui no Sul, em que a proibi de lavar um prato sequer. Enfim, olhando assim não tem nada de especial, mas por isso mesmo merece ser beatificada ainda em vida – não precisa de aprovação de igreja nenhuma, nem de público nem curtidas aleatórias.

Comecei falando dessa divindade na terra chamada mãe (e a minha é divindade mesmo e pronto) para tocar em um assunto mais árido: o retorno à idade média. Vivemos tempos obscuros, ainda que muitos teimem em chamar de tempo de transmutação (parece que a era de aquário degringolou). E não falo em idade média pelas medidas retrógradas que os políticos corruptos andam votando ou deixando de votar. Falo pelo coletivo virtual e de mesa de boteco com a mente cada vez mais tacanha. Tudo remete à idade média: parece só haver dois posicionamentos políticos no Brasil, a luta do bem contra o mal, a fé (doentia) acima de tudo, e o retorno ao passado de hábitos que não sei se é por saudosismo ou por falta de criatividade mesmo: muitos remakes de filmes (a maioria ruim), a música mainstream em crise de criatividade há horas, a volta dos discos de vinil e de roupas e cortes de cabelo de 20 anos atrás. Por outro lado, falando em padrões de comportamento de defesa de ideologias, ou o ser se engaja demais e vira cão raivoso ou se engaja de menos e vira egocêntrico e ser “isentão” é crime. Quem se engaja demais, vocifera contra quem não pensa igual (e haja argumentação ad hominem ou o famoso “vai estudar”) ou contra quem se engaja de menos rotulando estes de fúteis.

Em tempos de demonstrações públicas de retórica maquiada como sapiência rebuscada, é um alento ter ouvido de um monge zen que na sabedoria a gente emburrece. E isso vai de encontro à minha mãe, que mesmo com pouco estudo tem a lucidez e sabedoria simples e direta que pouca gente letrada e viajada tem. É, mamis, é melhor a senhora estar fora daqui é só receber notícias boas quando um de nós mostramos para ti pelo grupo do WhatsApp da família – aliás, está fervendo com a ida dela à balada vulgo show do Roberto Carlos.

De resto, aqui sobram notas verdadeiras e falsas de corrupção política e muito mais de corrupção da vida, honestidade forçada, ultraengajamento em campanhas contra câncer infantil e doação de cabelos mas passa reto pelo porteiro pobre e negro, dizer que respeita as mulheres mas não perde uma “pagada de calcinha” de alguma moça, temer o inferno mas não temer a indiferença ao outro (como se o inferno já não fosse aqui, de certo modo).

Enfim, para não delongar mais, eu só tenho um pequeno e talvez infantil desejo: que no Facebook seja dia das mães (ou propaganda de perfumes, como queiram) todo dia. Talvez só assim para ver pessoas falando bem dos outros, ainda que somente da mãe. Mas está aí um exercício interessante de mudança de padrões: passar a ver e apontar coisas boas nas pessoas, não somente nos filhos, bichos de estimação e em poemas em corrente… Eu sei que anda difícil, mas é um exercício e tanto observar o que o outro tem de bom e bem e que tipo de esforço vida afora essa pessoa faz, independente do seu tipo sanguíneo, de que Deus ela segue ou não e da cor da sua pele. É uma questão que vai além de falar de amor; trata-se de respeito. E lendo sobre a etimologia da palavra respeito, adorei saber que no latim respeito significava “olhar outra vez.”

Talvez seja uma missão interessante “olhar outra vez” para si e para o mundo e transformar o Facebook e a vida: de campo minado à dinâmica de grupo, de discurso de ódio a respeito sustentável, de ostentação à simplesmente ação, de “eu exijo, é meu direito” a “por favor, poderia me ajudar?”, de “eu sou o máximo” a “vivo em um mundo que é o máximo”, de “eu me basto” para “eu co-existo”.

E assim a bagagem dessa existência fica mais fácil de ser carregada, com menos itens desnecessários, seja numa bolsa Louis Vuitton ou em uma sacola de feira; afinal, como diz lindamente os versos publicados por um grupo de praticantes zen do Uruguai:

“Vir com as mãos vazias

Sair com as mãos vazias

Isto é humano.

Quando nasces, de onde vens?

Quando morres, para onde vais?

A vida é como uma nuvem flutuante que aparece

A morte é como uma nuvem flutuante que desaparece

A própria nuvem originalmente não existe.

Vida e morte, ir e vir, também são assim.

Mas há uma coisa que sempre permanece clara.

É pura e clara, não depende da vida e da morte.

Então, que coisa pura e clara é essa?”

Carpe diem,

Yakusan


Trilha sonora enquanto escrevia essa crônica, atirado no sofá de casa:

  • Se eu quiser falar com Deus – versão lindíssima do Ney Matogrosso com Emílio Carrera ao piano. A letra do Gilberto Gil é uma obra-prima, adequada nesses tempos obscuros.
  • Borrowed Time – do último álbum da Madonna, Rebel Heart. Não é um mega hit da cantora nem desse álbum, mas gosto do groove e da letra que tem um “no filter” ao falar de intolerância e lembra que o nosso tempo de vida é emprestado, ainda que a gente alugue o universo e a timeline com bobagens e atrocidades (tem a ver com o verso acima sobre mãos vazias)
  • Beloved – das irmãs do duo Say Lou Lou. Aliás, todo o álbum Lucid Dreaming é incrível. Pop gostosinho de ouvir. Imaginem a mistura de coisas descartáveis e clássicas como ABBA, Depeche Mode, Ace of Base, Lana Del Rey, Nina Sky, Shampoo e Cyndi Lauper. O melhor do pop dos últimos 40 anos condensados em 2015.
  • Casca – adorei o que Gal Costa fez no álbum Estratosférica – fincou pé nas raízes do tropicalismo sem esquecer que estamos no século XXI. E assim brotaram musicas ótimas, atuais, estranhas até. “Estranho mesmo é o amor / Que invade sem sorrir”.
  • Yanira – mais um duo de irmãs, Ibeyi. Filhas do falecido Miguel Diaz do Buena Vista Social Club, fazem uma mistura ótima de inglês e iorubá, ritmos caribenhos e africanos. Aos malas de plantão, um aviso: elas são cubanas. Se quiser boicotar, boicote; se quiser ouvir, ouça e desfrute. Viva e pare de rotular tudo o tempo todo.
  • Rio Verde – do último álbum da Ceumar, Silencia. Lindos arranjos e muita alusão à elementos da natureza e um quê de fados, Da safra da ótima e pouco divulgada nova música brasileira (aquilo que não sai no Papel Pop nem no Esquenta).
  • Stonemilker – da maravilhosa e inusitada Björk, do intenso álbum Vulnicura. É a canção mais “peito aberto” dos últimos tempos. Falar de sincronizar sentimentos em tempos em que mal se diz que ama o cachorro é para poucas.
  • Esquerda, grana e direita – Tom Zé genial como sempre. Retrato fiel do chato e burro eleitorado brasileiro, ainda que muitos afirmem o contrário. Humor e protesto na medida certa. Cita Paulo Freire, e se você é do tipo que associa Paulo Freire à suas convicções anti-partido você-sabe-qual, por favor, suma do planeta. Já me bastou ouvir distorções de textos dele no meio acadêmico. Aliás, todo mundo anda com encosto de sociólogo ou é somente impressão minha? Karl Marx agora anda em boca de Matilde no mesmo patamar de ex-BBB. Não sei dizer se isso é bom ou ruim. Enfim…

Dica de artigo: por coincidência, trata de discordâncias

http://www.fronteiras.com/artigos/como-discordar-sem-iniciar-a-terceira-guerra-mundial

Dica de livro: Da arte de falar mal, do membro da Academia Brasileira de Letras Carlos Heitor Cony. São crônicas, gênero que adoro, com um recorte polêmico e até da época da ditadura militar, mas com muitos assuntos que nos dizem respeito hoje, como ditaduras, papel das mulheres na sociedade, religião, pensadores. Leiam e tirem suas conclusões…

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