Contos do Diabo — A lista dos 7

O Diabo ficou perto do Barqueiro, ele tinha mais uma missão, a mais difícil de todas. O Barqueiro seria finalmente a sua escapatória, a sua liberdade, o seu descanso eterno.

Algo no Diabo o prendia, sabia que escolher o Barqueiro para ser o seu substituto seria cruel. Enquanto o Diabo observava o carinho e afecto que o Barqueiro tinha pela sua família, as lembranças da sua vida enquanto homem emergiam. O Diabo nunca se esqueceu do que fez e aquilo que conseguiu com isso, mas não sabia se era uma recompensa ou um castigo.

A arbitrariedade com que outro demónio o escolheu não lhe permitia ver para além da dor e sofrimento. “Fiz o que tinha de ser feito!”, dizia ele para si mesmo inúmeras vezes, “Este é o meu caminho!” de cada vez que se aproximava de uma das pessoas que constava na sua lista.

O demónio que o escolheu, que o transformou na vil criatura, que o prendeu ao infindável caminho de torturar os homens e mulheres através dos seus desejos e ambições, dava-lhe frequentemente uma lista com 7 nomes.

Esses nomes seriam as pessoas que o Diabo teria que visitar e pôr à prova. Cada nome representava um pecado mortal. A avareza do merceeiro, a inveja do barqueiro, a luxúria de Lídia, a ira do padre, a soberba do médico, a preguiça do ministro e a gula da viúva.

Henri de Toulouse-Lautrec — In Bed : The Kiss

O Diabo continuava a ver os afectos trocados entre o Barqueiro e a sua mulher enquanto segurava a lista com os nomes. De repente uma voz vinda de trás lhe falou:

Que raio de Diabo és tu? Demónios, diabos e todas as criaturas das trevas dignas de serem chamadas assim não sentem piedade!

Voltaste para me lembrar da minha missão?” — Questionou o Diabo.

Te dei essa lista para a cumprires, cumpre-a sem hesitares. Não te esqueças da tua promessa e do que recebeste em troca.

Nunca esquecerei, nem por um segundo do que aconteceu, nem o que deixei.” — Respondeu o Diabo.

Quando alguém alcança aquilo que quer, e que não podia nem deveria ter, há um preço a pagar. Hoje tens o poder de transformar as vidas, tens um poder quase ilimitado mas não suficiente. Não te consegues libertar do teu destino e estás submisso às minhas ordens. Não há liberdade neste mundo e nem no mundo dos homens. Todos são escravos, seja dos seus desejos, das suas dores ou das suas responsabilidades. Quanto mais ambicionam maior é o sofrimento. Quanto mais poder e riqueza acumulam, maior é a dúvida no seu coração sobre aqueles que o rodeiam. Nunca têm a certeza sobre a única coisa que neste mundo alivia qualquer dor, o amor. São atirados para a solidão imensa, fria e imutável que vive nas suas almas. Colocam máscaras de papel nas suas faces para esconder o que realmente sentem. Vivem caminhando para a morte sem nunca terem experimentado a liberdade com que nasceram e perderam no momento em que desejaram.”

Tu também desejas, desejas que alguém faças coisas por ti. Cobarde! Nunca foste realmente poderoso, nunca foste realmente meu mestre. Sou submisso porque te pedi algo e me deste. Mas a minha submissão não é devotada a ti mas à palavra que dei para aqueles que tive de deixar.” — Respondeu enfurecido o Diabo. — “Eles já estão mortos, já passaram mais de dois séculos desde que os vi partir. Mas a memória deles continua presente e é por eles que faço o que faço.” — Acrescentou.

Pobre Diabo que tu és!” — Disse gargalhando — “Cumpre a lista e força o Barqueiro a tomar o teu lugar, talvez Deus te perdoe e consigas finalmente te juntar a eles.”

A voz sumiu, o Diabo enfrentava agora o dilema de aprisionar o Barqueiro para ser livre ou continuar vivendo preso e deixar o Barqueiro livre.


Siga a história:

I) O Merceeiro II) O Barqueiro