Contos do Diabo — O Barqueiro

Depois do diabo ter visitado o merceeiro e ido embora com o som do trovão, ele foi para as margens de um rio. Gostava de observá-lo sob o céu estrelado. Aquela imagem imperturbada dava-lhe algo que ele não tinha e que o lembrava do que era. Ele recebia da contemplação, a verdade sobre si, coisa que ninguém nos dias de hoje lhe dizia. Todos o acusavam de ser o mal no mundo, algo que o diabo não concordava. Ele apenas fazia as pessoas revelarem o que eram diante da realização dos seus desejos. Ele era a serenidade do rio à primeira vista e a turbulência que se esconde logo abaixo da superfície.

O diabo não se tornou num diabo do dia para a noite. Ele outrora foi vítima de um outro demónio que o forçou a abandonar a sua existência humana. Ele conhecia os homens porque já foi um.

Ao longe ele ouviu as pás dos remos batendo na água. Era o barqueiro que trabalhava arduamente levando as pessoas de uma margem para a outra.

Leonid Afremov

O diabo mudou a sua aparência para ficar igual a uma criança. Pálida como a lua, cabelos loiros como o sol, olhos azuis como o céu.

Que fazes aqui?” — Gritou o barqueiro.

Quero ir para casa, mas a minha casa fica do outro lado do rio.” — Respondeu o diabo.

O barqueiro fez um sinal para que a criança subisse no barco. O diabo ficou olhar fixamente para o barqueiro sondando a sua alma.

Eu sou uma criança especial, eu consigo saber quando alguém diz uma mentira. Se prometeres dizer sempre a verdade chegaremos ao outro lado, se mentires, o barco afundará.” — disse o diabo.

Enquanto o barqueiro puxava os remos, olhava para a cara da criança iluminada pela Lua e pensou que esta fosse uma fantasia infantil.

Muito bem, eu sou um barqueiro.

Sim, mas não apenas isso. Que mais tu és?

Eu sou um homem.

Também é verdade. Que escondes tu?

Eu ?! Eu não escondo nada!

O barco começou a vibrar e a criança começou a aumentar de tamanho e de peso. A madeira rangeu um pouco.

Que escondes tu?” — Voltou a perguntar do diabo.

Já te disse que não escondo nada!

Mentira! Mentira! Mentira!”- Gritou o diabo enquanto aumentava mais de tamanho e de peso. Uma ponta do barco baixou enquanto a outra levantou tal como os pratos de uma balança.

Lembra-te barqueiro, não me podes mentir! Eu sei que invejas algo. O que é que tu invejas mas tens vergonha de revelar?

Monomania of Envy

Assustado, o barqueiro não sabia o que responder, mas lá no seu íntimo ele sabia o que era. A felicidade do seu colega, também barqueiro de profissão, o incomodava profundamente. O outro era mais pobre, o barco era mais velho, ganhava menos dinheiro mas mesmo assim o barqueiro invejava-o.

Eu não tenho inveja de nada, nem de ninguém!!!” — Gritou o barqueiro.

Nesta mentira, a criança ficou tão alta como um poste.

Lembra-te barqueiro, não me podes mentir. Na próxima mentira o barco afundará e tu irás com ele. O que é que tu invejas, o que é que o teu colega tem e tu não tens?

Os olhos azuis começaram a brilhar, o barco começou a ressoar na água criando um ruído angustiante.

Barqueiro, ninguém te pode salvar desta. Só tu podes te salvar! Diz a verdade!!!

Chorando, o barqueiro pôs as mãos no rosto. Os remos escorregaram e caíram na água. O pânico tinha se apoderado dele.

Lil Blue Eyes — Ashley Hackshaw

Eu tenho medo de te responder.” — O barqueiro caiu aos pés da criança — “Eu tenho inveja do meu colega. Trabalho mais do que ele, tenho mais coisas que ele, mas mesmo assim, ele é mais feliz. Eu invejo a felicidade dele! Esta é a verdade sobre mim!

O diabo fez parar a vibração do barco, reduziu de tamanho e de peso. Agora o barco estava repousado sobre o rio sereno. Os seus olhos ainda brilhavam e falou:

Falaste a verdade, mereces saber a verdade. O teu colega é feliz porque não é o trabalho, as coisas ou o dinheiro que o faz sorrir. É o coração dele que se alegra com o imaterial. Ele ama a sua família, ele ama ouvir as pessoas que transporta, ele ama o rio. Tu não amas nada disso. Um dia não terás trabalho quando fores velho, um dia não verás o rio quando a tua visão se escurecer e nem terás ninguém quando a morte levar aqueles que tu amas e aqueles que transpostas. Pára de invejar e começa a amar. Pára de te comparar, porque tu não foste, não és, nem serás os outros. Procura dentro de ti e sê feliz!

Perdoa-me criança pelas minhas mentiras!

Bartolome Esteban Murillo

Hoje falaste com o diabo, hoje o diabo te ensinou.” — O diabo colocou a mão no bolso e tirou uma moeda. — “Te ofereço esta moeda de ouro. Não a vendas e não a dês a ninguém. Quando desejares algo, podes me pedir o que for. Isto é uma recompensa pela tua honestidade. Atira para o fundo de um poço ou para o rio e eu virei em teu auxílio, mas cuidado com o que me pedes!

O diabo se desfez em fumo e o barqueiro pensou que ficou sozinho no barco. Na verdade, o diabo continuou a observá-lo.

O barqueiro chegou a casa, enterrou a moeda no jardim de sua casa. Quando entrou, beijou sua esposa e filhos. O diabo ficou feliz. O barqueiro aprendeu.