Em que momento a escrita se perdeu?

Sério. Foi mesmo uma pergunta.

Houve um momento no tempo onde a escrita era importante e existia tal como deveria existir até hoje: passando uma mensagem após ser devidamente decodificada, ou seja, lida. Em algum ponto, isso se perdeu.
Talvez tenha sido durante a descoberta do internetês, não? Aquele festival de abreviações e símbolos e palavras escritas sem o cuidado de gramática e ortografia, que veio com uma enxurrada de vc, pq, tb, kd, qdo, qto… e por aí vai.

Chegamos na era da informação exigindo agilidade, sim, mas isso não deveria permitir uma séria mediocridade de leitura e escrita que soa como abuso e afronta aos olhos de quem procura ler e falar o mais corretamente possível.
Hoje em dia, não fazer parte do movimento que abrevia tudo e não se dá ao trabalho de colocar vírgulas onde elas deveriam existir é quase uma ofensa mortal. Afinal, se a mensagem é passada é o que importa. Correto?
Concordo em parte. Há formas e formas de se passar uma mensagem, mas codificá-la por preguiça não equivale a simplificar a linguagem tornando-a inteligível a todos — afinal, esse é que é o objetivo.

A questão é: a escrita se perdeu.

Poderia aqui citar exemplos que vão desde textos sucintos que não são lidos em sites de notícias (ué, mas o objetivo não era consumir informação? que houve com o consumo, então?) até a cada vez maior ausência de opções legendadas em redes de TV a cabo e salas de cinema, mas não é esse o foco. Quero ir um pouco mais a fundo, num ponto bem crítico: em que momento o que você escreve, do jeito como escreve, deixou de ser interpretado como se deveria?

Bem, como sou eu escrevendo (e sabe Deus quem vai querer ler), permito-me transformar isso aqui num quase desabafo.
Há alguns anos, costumava pensar que sempre me expressei muito melhor por escrito que falando. Ou por poder escolher melhor as palavras para expressar melhor o que estava sentindo ou por confiar mais e melhor na minha linha de raciocínio quando ela se apresenta num papel (ou na tela de um computador), não importa.
Pois bem. Graças a essas supostas novas regras de convivência, tornou-se impraticável sequer pensar em enviar mensagens a alguém por um motivo bem banal: eu (ainda) uso pontos finais. Sim, desses de finalizar uma frase mesmo, como usei ao longo de todo o texto até aqui!
Duvida? Dúvidas? Um tempo atrás andou circulando pelo Facebook (peço desculpas, mas o link se perdeu no limbo “internético”) um texto sobre como o simples uso de pontos finais torna a mensagem ríspida e seca para quem lê. — E eu pensando “ué, mas se eles servem pra pontuar, por que não usar?!” — Então passei a notar: praticamente ninguém mais usa ponto em final de frase. A mensagem vai inteiramente sem pontuação, na maior parte das vezes!
Algo meio assim:

“Oi td bem”
“Td bem e ai”
“Td trank vai fz o q hj”
“N sei e vc”

(Confesso que foi doloroso e difícil pra mim, escrever assim.)
Agora leia novamente, com o diálogo devidamente pontuado:

“Oi, tudo bem?”
“Tudo bem, e aí?”
“Tudo tranquilo. Vai fazer o que hoje?”
“Não sei, e você?”

Notou diferença? Pois há quem diga que ela existe.
Pra alguns, aquele ponto ali entre “tranquilo” e “vai”, que marca o fim de uma afirmação para partir a uma interrogação, é sinal de raiva, rispidez, sisudez, etc. Algo como dizer “tudo tranquilo” como quem diz “não quero falar sobre isso, não me encha a paciência”. Tudo por conta de um ponto.

“Ah, mas você poderia usar três pontinhos!” (vulgo “reticências”)
Não, minha ideia não é deixar a frase vaga, parada no limbo, servindo de gancho a outros pensamentos. É só uma frase, não é para ser um tratado de etiqueta!
“Ou carinhas, você pode usar carinhas!”

Conclusão a que chego: sou das antigas. Gosto de pontuar minhas frases e procuro escrever o mais corretamente possível (dentro do que minha cabeça conseguiu absorver dos longínquos anos de educação fundamental, ensino médio, etc.), mas graças a isso sou aquele que põe fim nas piadas, que não compreende os outros, que transforma uma mera opinião num assunto encerrado. Tudo por conta de um ponto. Tudo porque esse ponto é encarado como “cai fora, só eu que tô certo”. [insira aqui um emoji de carinha revirando os olhos]

Eis aí outra coisa que se perdeu no tempo: interpretação de texto.

E os pensamentos voltam à época em que trocar cartas escritas a mão era uma atividade corriqueira, que fazia pensar no que escrever e como escrever e onde pontuar e como se expressar e, principalmente, nos ensinava a como interpretar o que outro havia escrito, em que ler uma carta significava procurar entender o que estava ali no papel, qual o sentimento por trás, como interpretar cada ponto e cada vírgula.
Bela época…
(sim, acabei de usar reticências, mas para deixar bem explícito o saudosismo; e, não, infelizmente não tenho mais o costume de enviar cartas)

Parando para pensar, não é à toa que mensagens de voz em apps façam tanto sucesso, não? Por outro lado, ligações telefônicas vêm minguando. — Como entender esse aparente paradoxo?!

E que me perdoem o mundo virtual, os aplicativos e mensageiros espalhados por aí e os amigos que se utilizam desses meios para trocar mensagens, mas faço questão, sim, de continuar a usar pontos e letras maiúsculas e acentos, para não deixar assentar em mim a parte que mantém a mente funcionando na hora da leitura e da escrita.
Quanto às carinhas, usarei-as, obviamente! Mas não conte com elas a cada frase para ter certeza que estou falando com um bom humor. Acredite, nos dias de mau humor isso vai ser bem notório, com ou sem pontos e carinhas!

Até lá, parta sempre do princípio que estou calmo e tranquilo enquanto escrevo, ok?

(sim, a carinha foi intencional)
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