4 meses de VRAAAA de Caetano
Achei que teria autonomia pra fazer xixi e cocô sozinha, um banho rápido, arrumar um armário, cortar unhas (as minhas, as dos 3 gatos e as dele), mas não minha gente, não foi com 4 meses. Eu até comprei tatame de EVA pra ele ficar brincando enquanto supostamente eu faria alguma coisa, os únicos que aproveitaram até agora o tatame foram os gatos pra afiar as unhas.
Não sei quando essa sensação de ser shiva com vários braços vai passar. E essa promessa que todos me fizeram “calma, vai passar”, “você vai ver, depois do terceiro mês melhora muito”, etc, não aconteceu. Estou aguardando as novas frases motivacionais envolvendo a expressão “vai passar”.
O fato é que intimamente eu cogitava a hipótese de postergar minha volta ao mercado de trabalho, a um suposto emprego/freela/job que eu ainda não tenho ideia de qual será. A medida que o 4º mês foi passando, essa deliciosa vontade maternal de ficar com ele até um ano, amamentar livremente e tardiamente, fazer a introdução alimentar com calma, acompanhar as principais descobertas dele, etc etc etc PASSOU. Essa vontade passou e se meu telefone tocasse pra começar um freela, eu ia guardar a teta e sair correndo com os gorfo tudo no ombro mesmo. Ia mesmo. De verdade.
E aí teve a piração “eu preciso voltaaaaar a trabalhaaaaaar semana que vem, eeeeepaaaaa me segura”, pensei em gastar uma parte do meu suposto salário num berçário, contratar uma veterinária pra ir em casa todos os dias fazer a enfermagem dos gatos, pagar alguém pra cozinhar nossa comida, aí pago também alguém pra ir à terapia no meu lugar. E se for pra ser assim, tudo terceirizado era melhor nem ter tido filho.
A rotina tradicional da maternidade pesa: teta, fralda, nina, acode, passeio pelo bairro, gorfos, risadinhas, teta, fraldas vazadas, aconchego, barulhinhos, teta, brinca, canta, põe no sling tira do sling, pessoas intrusas na rua metendo a mão do meu filho, nossa, só tem 4 meses, grandão né?!, ufa, Thiago tá chegando pra eu poder sair da forma shiva e olhar pra parede por 5 minutos. Um dia não teve “ufa Thiago tá chegando”, foi um dia de “fodeu Brasil, Thiago tá viajando”. E nesse dia eu entrei em parafuso, pirei, não me planejei estrategicamente e nem psicologicamente, não tinha comida pronta, a louça estava loucamente suja na pia, a areia dos gatos tinha tanto cocô e xixi que eu imaginei que os dois gatos da vizinha tinham vindo mijar por aqui. E tinha que dar banho na cria, e eu fiquei com o cu travado de medo de dar sozinha no chuveiro e a creyança escorregar, inventei de dar na banheira e ele O-D-I-O-U, escorregava, esperneava, chorava, quase afoguei ele umas 4 vezes. E aí não tinha o pai pra tirar o ranho seco do nariz com aquela paciência búdica que eu não tenho. E aí teve criança chorando do banho até pegar no sono. E teve gato doente amputando mais um dedo meu quando tentei dar os comprimidos, e teve gato virando no Wolverine na hora do soro cutâneo, dois seguram o gato, um distrai o bebê e o outro reza pra que tudo termine bem. Menos de 24 horas da viagem do Thiago se passaram e meus pais, que já estavam planejados pra vir, chegaram. Eu tive vontade de entregar o bebê no colo deles e sair correndo pelada.
Esse 4º mês foi a fina flor da loucura. E não está sendo fácil. Nem pra mim, nem pra Caetano, nem pra gata que tá doente e nem pro Thiago que deve estar com os pacová cheio da minha verborreia contínua de reclamação de assuntos variados.
O carinha resolve que a vibe daora é ficar sentado, claro que sozinho ainda não, então alguém precisa estar sempre apoiando ele. E também começou a gargalhar de qualquer coisa idiota que eu faço. Agarra no nosso rosto, fica com a boca parada na minha bochecha e eu já acho que ele aprendeu a dar beijo, fica fazendo paraquedismo de bruços, segura meu dedo enquanto mama no estilo casas bahia (dedicação total a você), estica o bracinho enquanto mama “fazendo carinho” ou tentando catar o outro mamilo pra sintonizar, faz barulhinhos diferentes, gritinhos estridentes. E eu derreto com cada coisinha dessa, e tenho vontade de encher de beijo, apertar, esmagar, beijar mais uma vez.
Mas aí eu to tão cansada, estafada, descontrolada, despirocada, que chego a tremer a mão de ansiedade e começo a considerar que possa existir a síndrome de burnout da maternidade. No mesmo mês que eu tomei uma cervejinha leve numa padoca, que eu lavei as louças uns dias de boa com ele na supervisão, dormi um ou dois dias 7 horas seguidas, nesse exato mesmo mês eu tenho a nítida sensação de que voltamos a vibe recém nascido: colo e peito em tempo integral.
E dizem que melhora, que é pico de crescimento, salto de desenvolvimento, salto quântico, talvez aos 7 ou 12 anos melhore. Vocês que tem mais de um filho, você são maravilhosos, eu me impressiono com a amnésia que vocês tiveram quando resolveram providenciar mais um filho. E vocês que são mães solas ou pai solos são mais maravilhosxs ainda, tiro meu chapéu pra vocês, tiro até os meus poucos cabelos que restam do pico hormonal puerperal.
E claro, a rede de apoio (muitas vezes no estilo nunca vi nem comi, eu só ouço falar) é fundamental pra atravessar esse mar negro da maternidade, pra passar por esse período sem deixar uma mãe traumatizada.
Terminei de escrever esse texto faltando 11 dias pro 6º mês. SEXTO, eu disse sexto mês, e os próximos forem pra vir assim*, já traz uns rivotril que ninguém é de ferro.
*SPOILER: quinto mês tá recheado de novidades que incluem a primeira doencinha, novas culpas maternas e novos surtos.

