O primeiro mês

foi foda. Foda de ruim e foda de bom.

Caetano — 1 mês

Nesse período chamado puerpério, eu fui ao inferno umas 3 vezes e voltei. “Poxa, Anne, que pesado!”. É pesado sim.

A primeira ida foi na segunda madrugada em casa (4º dia de Caetano), envolvia mamilos machucados, leite que não descia, choro incessante, sono, medo e um caminhão de outros sentimentos nada nobres. Quem me resgatou foi a obstetriz Barbara que arrumou a pega, deu macetes, shakes, ordenha, termos maravilhosos que me aproximavam a uma vaca holandesa.

As outras idas pro inferno, umas 3 ou 13 vezes, não lembro porque fui e como voltei. Fui resgatada pelos grupos ~de mães~ do whastapp, por amigas e inúmeras vezes pelo Thiago, ele sempre dizia, pode chorar, coloca pra fora e eu chorava até soluçar, até me engasgar, até babar! Chorei por tudo que eu deveria ter chorado na vida toda em um mês. O tempo passou de forma diferente, como se a gente estivesse numa dimensão paralela, onde alguns dias se arrastam, e outros passam num piscar de olhos.

Teve dias que eu chorei junto com Caetano, o dia todo. Teve dias que eu tive vontade de sair pra “comprar cigarros e nunca mais voltar”. Teve dias em que não quis sair da cama, amamentar, comer e fazer aquela repetição (mama, caga, chora, balança, mama, mija, troca, canta, chora). Mas ela acontecia, da madrugada até a noite em que eu esperava que acabasse mais um dia.

Toda recém mãe passa por isso, elas podem negar, mas uma hora o baby blues vai bater. Não é depressão, mas é como se você molhasse o pé na lagoa da depressão. São hormônios caindo, privação de sono, mamilos doloridos, peitos inchados, estrias que eu não tinha reparado durante a gravidez, roupas que ainda não servem por causa dos 20 quilos que ganhei e ainda faltam 10 pra voltar ao peso “normal”. Também tem a barriga de 5 meses de gravidez que insiste em não ir embora. E tem as olheiras, o cabelo desgrenhado, a parte de cima de um pijama que não combina com a parte de baixo. E tem pijama o dia todo. E tem dias que não tem a parte de cima da roupa, tem peitos pingando leite. Tem dias que eu tive que escolher entre comer, tomar banho, cagar ou dormir. Na dúvida eu sempre escolho dormir. E tem a solidão, a solidão da madrugada, a solidão da mamada, a solidão de nao saber ao certo o que sente, a solidão de não ter coragem de dividir os sentimentos. A solidão de estar com gente em volta e mesmo assim estar sozinha.

Aquela mulher que eu era precisou morrer. E precisou ser enterrada junto com suas manias, seus hábitos, seu corpo, sua identidade. O luto precisa ser vivido, sentido, sofrido, entendido e digerido para que uma nova pessoa nasça. Uma mãe:

Uma mulher exatamente diferente do que era antes e que nunca mais será a mesma.

Uma mulher que tão cedo não dormirá 8 horas seguidas. Uma mulher que colocará seu filho sempre em primeiro lugar. Uma mulher que vai perder amigos, que não reconhece a palavra libido, que não vai tomar uma caipirinha tão cedo, que vai demorar pra pisar num bar e talvez não entre numa balada nessa encarnação. Que vai ter que marcar horário pra transar rapidinho entre uma soneca do bebê e o cansaço do dia todo. Que vai falar absolutamente sobre o mesmo assunto por muitos meses: cocôs, xixis, rotina de sono, amamentação, crescimento do filho, novas aptidões, saltos de desenvolvimento, vacinas, introdução alimentar, dentinhos, febres, noites mal dormidas, creche, colégio, etc etc etc. E falará somente com os amigos que estiverem passando pela mesma fase, simplesmente porque ninguém aguenta a pauta repetitiva de mães e pais. Também fará muitos outros amigos em grupos de ajuda, em rodas de puerpério, os verdadeiros AAs da maternidade: só por hoje eu não: (coloque aqui sua frase de impacto). A minha comemorativa de 1 mês de Caetano: só por hoje eu vou almoçar a comida quente, mesmo que ele chore durante o meu almoço.

E apesar dos choros, meu e dele, da falta de rotina, ou do excesso de rotina, apesar de me olhar no espelho e não me reconhecer, apesar de todos os pesares, conheci um sentimento que até então achava que conhecia: o amor. Soa brega falar sobre amor incondicional, sobre esse lugar comum de “você só vai saber o que é quando acontecer com você”. E é bem brega e bem verdadeiro. Você vai achar o seu filho remelento cheio de vérnix o mais lindo e amado do mundo quando tiver com ele nos braços.

O luto da morte dessa mulher é doloroso, é sobre abrir mão de tudo que se gosta. É sobre estar um zumbi e ele fazer um grunidinho quando acorda e ter vontade de apertar e nunca mais soltar. É sobre estar dolorida e ficar hipnotizada olhando pra ele. É sobre não lembrar que dia é da semana e ficar acariciando seus pequenos dedos. Não sei se fiquei mais mole, mais viada, mais sentimental, só sei que fiquei mãe.

Apesar do cansaço, do desgaste emocional, da exaustão mental, ter Caetano foi a cagada mais maravilhosa que já fiz na vida.

Obrigada filho, por esse nosso primeiro mês na tua companhia. Obrigada por ter nos escolhido.

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