What happens in happn stays in happn

Ou não. Pra quem não conhece o happn não sabe o que não está perdendo. É uma oportunidade única para você, antropólogo não graduado que gosta de analisar o comportamento dos humanos interagindo com a sua própria espécie.

Funcionamento:

O Happn serve pra conhecer pessoas pelos locais que você passa, na faixa etária e gênero que você indica no aplicativo. E ele vai mostrando pessoas que “cruzaram” com você, se você tiver a curiosidade e clicar no ❤ e a outra pessoa também, você tem um match e abre uma conversa privada, e aí você tem um CRUSH!

Pesquisa:

Entrei devido a recomendação fortíssima de amigos e também com certa curiosidade, confesso. Inicialmente eu não entendia o que segurava aquelas pessoas ali, o que as fazia puxar papo, aquele cardápio de pessoas, como escolher entre tantas pessoas pra dar um like. Também não entendia que fotos colocar, como se descrever e mais do que qualquer coisa, quais meus objetivos ali.

Depois de alguns ❤ espalhados aleatórios e erroneamente por lá, alguns crushs viraram papo no chat do próprio app. E com outros troquei meu número pra falar por WhatsApp. E com isso, temos um bom começo de pesquisa pra você, humano desavisado que troca número de celular antes de 1 semana falando pelo aplicativo:

A linha de pesquisa que escolhi foi: “Humanos: como vivem, o que comem, por onde andam, como se reproduzem.”

Agora é a parte que talvez alguém se identifique aqui, mas queria dizer, é tudinho ficção, viu gente?!

Experiências:

  1. Jovem macumbeiro: dei like porque estava escrito “umbandista” no bio dele, não vi foto, não li nada a respeito, achei legal alguém ter a mesma religião que eu. Dois minutos depois do crush, sim, eu disse dois minutos, ele me manda uma mensagem:

pessoa: tá sozinha?
eu: tô.
pessoa: estamos a 250 metros segundo o aplicativo. Onde vc tá?
eu (em choque): na padaria, e vc?
pessoa: no restaurante. posso ir aí?
eu (incrédula): oi?
pessoa: chego em 5.

Atônita, sonolenta, descabelada, maquiagem do dia anterior, estava eu na frente da padaria esperando alguém que eu não fazia ideia de quem seria pra falar sabe-se lá o que. Conversamos por longos e intermináveis 10 minutos em que eu fiquei totalmente desconfortável nível suandinho. Vejam, ele foi agradável, conversamos sobre amenidades ~ macumba ~ mas realmente não imaginei que a minha primeira vez fosse assim, tão sem glamour. Saímos umas 3 vezes ou 4, pra tomar suco, café, lanche, etc. Não passamos para modalidade romance, apesar de ter me convidado pra ver netflix na cada dele, e também isso não é indicativo de nada. Seguimos amigos, eventualmente trocando mensagens sem conteúdo além da brodagem e macumbagem nossa de cada dia.

2. Advogado funcionário público: fomos a um café, onde falamos sobre política, funcionalismo público, carreira, família, amenidades. Emendamos num bar e depois fomos para uma cervejaria artesanal. No melhor idioma paulistano, ele me catou na rua no meio nada. E eu pensei: MANO, que caralhos esse cara tá fazendo? Sutilmente com meu jeitinho nada sutil disse que achava um pouco, digamos, desnecessário, aquele tipo de comportamento, porque eu não estava à vontade.

Na volta, aquele convite, vai pra minha casa, nossa tô super cansada, a gente marca outro dia, vai, vamos hoje, melhor não. Por fim, o convenci que eu não iria pra casa dele (eu virada no bode) e não satisfeito ele pergunta se pode entrar no meu carro. Olha, acho melhor não. E aí insistência recomeça e nessa hora eu já tinha vários bodes e cabras ao meu redor. E lembrei de um fato, quando estávamos no bar, em determinado momento ele disse que o órgão público que ele trabalhava era tipo uma “mulherzinha de fases” e eu devo ter feito uma cara tão bosta apesar do meu esforço talvez nulo de disfarçar, que ele se “desculpou” or kind of, dizendo que talvez tivesse sido um exemplo tosco e que ~ atualmente ~ a gente deveria ter muito cuidado por que tudo era visto como machismo. BODE BODE BODE.

No dia seguinte, mensagens (ATENÇÃO NA MINUTAGEM DO DRAMA)

pessoa: bom dia (08:22)
eu: bom dia (11:31)
pessoa: dormiu bem? (11:32)
eu: ainda estou dormindo. hahaha. to na cama (11:37)
pessoa: rs. fique tranquila :* (11:38)
pessoa: hello (14:59)
pessoa: e aí, fazendo o que de bom? (15:06)
eu (falando a verdade): oi oi. indo meditar. e tu? (15:19)
pessoa: pedalando (15:27)
pessoa: olá, sua agenda está muito lotada nesse feriado? rs (18:23)
eu (que já tinha avisado que teria 626 compromissos): então, um pouco, e amanhã tenho eventos o dia todo. (18:48)
pessoa: tendi. vc quer marcar algo durante a semana? iu tá de boa? rs? perguntei de boa, tá? rs (18:50)
pessoa: você tá ocupada? ou tá indecisa? RS (18:56)
eu (que queria marcar durante a semana mas já tava com os pacovás cheios de mimimi respondi): hahahaha, vamos marcar sim. estou comendo com amigos. (18:56)
pessoa: desculpe, não quero te apurrinhar. beijo (18:57)
pessoa: Anne, estive aqui pensando sobre nosso encontro. embora tenha rolado uma química boa, eu vejo que temos estilos de vida diferentes. então acho melhor ficarmos na brotheragem, ok? (19:57)

Ah, essas gentes que ficam PU-TI-NHAS porque as pessoas não estão disponíveis 24 horas no WhatsApp. Se você é do tipo maníaco por 2 checks verdes no WhatsApp, escreve isso na sua bios no Happn porque as pessoas precisam saber com quem elas estão lidando.

3. Rockstar: gente boa, trocamos telefone e marcamos de ir prum bar. Eu sou dessas que chama pra tomar água com gás no bar que é pro limiar do álcool não judiar do meu juízo e me colocar numa roubada filha da puta. Papo legal até chegar na parte do “fui iniciado como druída”. Velho, os druídas são como dragões, existiram apenas em Atlântida e nas Brumas de Avalon. Quase simulei demência e comecei a babar quando ele insistiu no assunto, pois estávamos falando sobre espiritualidade e ele falou a palavra mágica “bardo”, diretamente do livros “As brumas de Avalon”. FERA, PERAÍ, nossa nave já tá chegando. Um mais pirado que eu.

4. Diretor publicitário ou algo do gênero: trabalha like a hell e por isso já marcamos e desmarcamos umas 928737 vezes. Uma companhia interessante, apesar de um tanto melancólica. Será que se juntar a melancolia dele com a minha languidez conseguimos fazer uma depressão profunda?

5. Engenheiro e sociólogo: sim, isso mesmo. Pessoal de humanas aprendendo a fazer miçanga, só que ao contrário. Na primeira saída fomos pra uma apresentação de coral (QUE? Foi legal, eu juro), marcamos um show pra além de 7 dias. Óbvio que ele é de esquerda, eu também sou (que meu pai não leia isso), mas faz muitos anos que prefiro não me manifestar ou compactuar com o samba que tá dando. Fora ele ser socialista, onívoro, ter 33 cm a mais que eu fazendo com que eu pareça a estátua da liberdade quando estou de mão com ele. Talvez dê jogo, torçamos pra quem não seja 7x1 pra Alemanha.

6. Maromba de TI: o papo era sobre o treino, MAS mesmo assim resolvi por falta de discernimento que eu faço na vida, ir ao parque. Meditei, corri e encontrei o maromba. Cheguei suada, vermelha e descabelada e ele chegou com um amigo e me arrependi nos primeiros 3 minutos de estar ali. Um ponto importante, quando stalkeei tardiamente ele (erro RUDE) vi que ele era a favor do Bolsonaro. Rude, erro rude.

Dicas de como não ser um beginner.

  • se você não quer ser stalkeado não entre com a sua conta do Facebook
  • se rolou crush, se você achou a pessoa interessante pelas fotos puxar papo, significa apenas que você quer conversar com a pessoa
  • se trocar WhatsApp, saiba que os algorítimos de integração entre Whats e Face podem sugerir a pessoa como possível amigo.
  • é normal stalkear
  • locais públicos como cafés, bares (cheios), parques (durante o dia) e livrarias são os meus locais ideias para primeiros encontros, vai que a pessoa quer roubar seu rim
  • se nas fotos tiver algum casal saiba que é a três a pegada ali
  • é normal dividir a conta, é normal um dos dois se oferecer pra pagar a conta independente do gênero. Significa gentileza, não que alguém está subjugando o outro. Nem feminismo, nem machismo
  • não ache que alguém tem obrigação de te pegar em casa, São Paulo é do tamanho do mundo e é de bom tom você encontrar a pessoa no meio do caminho
  • se por acaso você resolver entrar no carro da pessoa, ou ir pra casa dela, eu, na condição de mulher penso no seguinte estudo que foi feito em 2013 e que fala o seguinte sobre o Brasil:

• 48 vezes mais homicídios de mulheres que o Reino Unido;
• 24 vezes mais homicídios de mulheres que Irlanda ou Dinamarca;
• 16 vezes mais homicídios de mulheres que Japão ou Escócia.
Nesses 83 países analisados, a taxa média foi de 2,0 homicídios por 100 mil mulheres. A taxa de homicídios femininos do Brasil, de 4,8 por 100 mil, resulta 2,4 vezes maior que a taxa média internacional. São claros indicadores de que nossos índices são excessivamente elevados, considerando o contexto internacional.

Com isso eu sempre compartilho o contato, o perfil do Facebook (como já visto ou stalkeado anteriormente, foto, etc) e o local que estarei com uma amiga próxima. Também é de bom tom avisar quando voltar.

  • nunca adiciono ninguém no Facebook, mentira. Já fiz essa cagada, não façam, a não ser que você ache que no mínimo será uma boa amizade.
  • seja seletivo, vale a pena uma averiguada com cuidado no spotify, porque se tiver um gênero musical que você O-D-E-I-A não vale o like

Resultado da pesquisa:

  • boa parte recém terminou relacionamento e está ali por dificuldade de voltar à vida social, principalmente na faixa 30–40 onde normalmente os humanos já casaram e estão reproduzindo com a cota do segundo filho.
  • boa parte usa fotos das viagens internacionais com direito a Paris, NY e estações de esquí
  • boa parte dos homens gostam de tirar fotos: sem camisa, no espelho do elevador, em motos potentes, em frente de carros potentes, dentro de carros com teto solar, com os pets, na academia, de óculos escuros, fazendo hang loose (esse é foda), fazendo v com o polegar junto (que porra é essa?), em lanchas e barcos, pulando de paraquedas
  • profissionalmente falando todo mundo tem cargos de gerência pra cima, fundadores, sócios, proprietários, diretores, só gente foda e bem sucedida
  • alta incidência de casais que tentam swingar o aplicativo

Conclusão geral:

Se organizar direitinho todo mundo transa.

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