Ben
Há 11 anos, eu conheci alguém pela internet. Em um fórum, da época, que discutia política do Brasil Imperial. A pessoa era anônima, mas a conversa era instigante, e um início de amizade surgiu, com trocas frequentes de emails. Logo descobri que estava conversando com um senhor de 85 anos de idade. Viúvo, aposentado, morava com a filha por causa da saúde. Extremamente inteligente e articulado, havia chegado ao topo da carreira, e era bem conhecido onde morava, no outro lado do país. Pediu-me que não revelasse sua identidade. Mas não me importava quem ele fosse, porque eu gostava de trocar ideias com ele, simplesmente. Então, apelidei-o de Ben, e a distância e a enorme diferença de idade nos deixaram, curiosamente, muito confortáveis para conversarmos livremente.
Trocávamos impressões sobre livros, filmes, personagens históricos. Filosofávamos sobre coisas mundanas e espirituais. Eu contava sobre os meus dias para o Ben, sobre meus sonhos, meus planos, minhas angústias. Ele me contava sobre a vida imensa e bem-sucedida que teve, sobre as saudades que sentia da esposa, sobre a rotina e os passeios ao lado das filhas e das netas.
Ben adorava escrever, e me mandou os livros que havia escrito. Os publicados, os não publicados, os contos, os rascunhos, os poemas. Por meio das histórias dele, eu viajei por épocas diferentes, aprendi, me diverti, me emocionei. Eu, que sempre adorei escrever, me sentia à vontade para mostrar para ele algumas das minhas histórias escondidas, que ele lia e comentava com a maior paciência e carinho. “Lise, isto está fantástico, você escreve muito bem, precisa continuar a história, mostrar por aí, quem sabe até publicar.”, me dizia meu generoso amigo. Mas eu, no meu perfeccionismo improdutivo, sempre achava que nada estava bom o suficiente. “São apenas rascunhos”, eu dizia, “um dia termino esse conto”. E nunca terminava. Nossos assuntos fluíam fácil, variados, naquele nosso espaço-tempo que era puramente mental.
“Como é engraçada a vida, unindo duas mentes de épocas tão diferentes. Você, no amanhecer da vida. Eu, no anoitecer. Mas somos iguais, Lise, temos a mesma essência. Somos almas irmãs separadas pelo tempo.” Ben era espírita e acreditava que já havíamos sido pai e filha em outras vidas, ou irmãos, ou grandes amigos. “Sinto que nosso encontro foi um reencontro”, ele me dizia. Era o que eu sentia também. Ben me entendia surpreendentemente bem. Talvez pela idade e pela experiência de ter criado três filhas que tiveram angústias juvenis semelhantes às que eu tinha. Eu adorava falar com ele, e gostava de pedir sua opinião e orientação sobre vários assuntos.
Um dia, aconteceu de ele viajar para o Sul, e resolvemos nos encontrar pessoalmente, muito embora nunca houvéssemos sentido essa necessidade. Confesso que foi estranho vê-lo tão frágil, caminhando devagar, ou apoiado na filha. O físico não combinava com a personalidade forte, jovial e cheia de ideias que eu conhecia. Mas essa estranheza foi passageira, e em nada interferiu na nossa interação e na nossa conversa, fluente e animada como sempre.
Ben era engraçado. Usava palavras como “deveras” e “apraz”, mas também escrevia coisas como “Estou muito interessado nesse assunto, pode crer!”. Apesar de aposentado, ele se mantinha muito ativo, escrevendo artigos, participando de congressos. Mas sempre me mandava notícias. Um dos emails mais divertidos que recebi dele foi ranzinza, reclamando: “Estou em uma lan house muito vagabunda em Cartagena, Colômbia. A abertura do Congresso foi linda. Está muito difícil digitar neste teclado horroroso. Meus joelhos estão me matando.” Ben, com aquela idade toda, curvado, sofrendo de artrose, em uma “lan house vagabunda”, na Colômbia, me mandando um email. “Que figura incrível a vida me trouxe”, pensei!
Poucas pessoas entendiam a dimensão e a autenticidade da nossa amizade. Uma vez, quando eu falava, animada, da minha amizade com ele, uma amiga me disse “Não seja ingênua, ele é só um velho carente que está a fim de você”. A amizade com ela terminou, mas a com ele continuou. “As pessoas enxergam no mundo o que carregam dentro de si”, ele me disse. O preconceito e a malícia estavam dentro dela. Mas, a partir daí, resolvi preservar essa amizade, já que ela aparentemente causava tanto estranhamento. “As pessoas apequenam aquilo que é grande demais para o entendimento delas, isso é natural e esperado.” Enquanto eu me magoava, ele sequer se surpreendia.
Uma vez, lamentei a perda de um amor, com todos os exageros e dramas que me cabiam. Ben me disse que aquilo não era amor, era ilusão. “Amor, Lise, é para sempre, nunca acaba. Você está confundindo as coisas.” E eu estava mesmo. Ele me ajudou a perceber. Destrinchamos juntos as minhas dores, filosofamos sobre relacionamentos, e tive sempre como maior exemplo o que ele sentia pela esposa. “Não, minha filha, não descreia do amor. Ele existe e é a coisa mais linda do mundo! Quero, para você, o que tive com Luisa. Casei com ela duas vezes, e casaria outras mil. Ela foi e sempre será meu grande amor. Sinto uma saudade imensa, sadia, conformada, mas penetrante, profunda. Tão profunda que vai até a alma. E lá fica. Gosto de dizer a mim mesmo que ela está viajando, e que logo nos reencontraremos.” Ben me contou várias vezes a história de como conheceu a esposa. “Já lhe contei como conheci Luisa? Foi lindo, nunca me esqueço, parece que foi ontem”, e me contava pela vigésima vez, incluindo detalhes de como ela estava vestida e de tudo que as pessoas ao redor falaram…
Ele me disse que meu coração cicatrizaria com o tempo, que outro amor viria, e que tudo passaria muito rápido. Ele tinha razão. Outro amor veio. E quando chegou a hora de tomar uma decisão importante, recorri a seus conselhos: “Devo me casar? Ou comprar uma bicicleta? Como saber se é de verdade? Como saber se não é outra ilusão?” Ben me respondeu: “Lise, querida, entenda: você nunca vai ter certeza. Mas as melhores coisas da vida surgem quando a gente se deixa levar. Case-se e compre a bicicleta também. Viva tudo que puder viver. Viva intensamente. Acumule histórias, adquira experiência. Se não der certo, siga outro caminho, e continue inteira como sempre foi. Mas aposte, tente, ame. Não tenha medo. Porque, quando chegar à minha idade, você só vai se arrepender daquilo que não fez.”
E então eu me casei. E a vida seguiu, e nossa amizade também. Tempos depois, Ben recebeu com alegria fotos do meu bebê, e acompanhou minhas angústias de mãe de primeira viagem. “Preocupe-se menos. Pedro é forte feito pedra.”
A vida foi ficando mais puxada e, como consequência, nossos emails ficaram mais espaçados. Mas Ben continuava presente em todos os meus momentos importantes. De longe, torcendo, aconselhando. Vibrando com minhas conquistas e me consolando nas minhas derrotas. Acompanhando minhas aventuras e minhas desventuras. “Nada de traumas, querida. Você é mais forte do que a adversidade.” A cada email, palavras de carinho mescladas com grandes lições que só quem viveu muito consegue transmitir.
Só que, hoje, eu recebi um email diferente. A filha de Ben me escreveu. E assim que vi o nome dela na minha caixa de entrada eu imediatamente soube o motivo. Ela também deve ter achado estranha nossa amizade, mas teve a sensibilidade de compreender e de me informar que Ben havia partido. Aos 96 anos de idade, em paz, em casa, sem dor, como ele queria e merecia. Ela me agradeceu por todo o carinho, me disse que ele se alegrava muito com meus emails. E, ao ler isso, senti lágrimas caindo pelo rosto e lembrei que não havia respondido o último email dele. Fui deixando para depois, para quando tivesse mais tempo, mas esqueci que o tempo do meu amigo estava acabando. Eu devia saber que este dia chegaria, era óbvio.
Ao reler aquele último email não respondido, a culpa se fez pequena diante da imensa gratidão àquela alma tão linda e tão sábia que, por todos esses anos, desinteressadamente, alimentou a minha própria alma, jovem, ignorante e — ultimamente — sem tempo para ele.
E por que é que, agora, eu estou aqui contando tudo isso? Porque Ben sempre me dizia que eu devia escrever todas as minhas histórias, que eu devia jogar para o mundo todas as minhas palavras, porque elas podiam, de alguma forma, chegar a quem precisasse delas. “Você tem alma de escritora, Lise”, me dizia. “Mas você não pode ficar escrevendo só para si mesma, não seja egoísta. Deixe que suas histórias voem por aí, deixe que criem vida própria.”. Mas eu não deixava, porque tinha medo do que as pessoas poderiam pensar. “O que você escreve é problema seu. O que as pessoas entendem é problema delas”, ele me dizia. “Mas não consigo arranjar tempo para escrever”, eu reclamava. E Ben me dava a mesma bronca de sempre: “Tempo a gente não arranja, a gente cria. Olhe a sua idade e olhe a minha. Eu sim poderia estar reclamando de não ter tempo suficiente para fazer o que quero, mas você?! Crie vergonha!”.
Eu criei, Ben. E também criei o tempo para, com os olhos cheios d’água, rever alguns de nossos emails e escrever a nossa história. E agora eu vou jogá-la para o mundo, como você me disse para fazer. Vou deixá-la voar, como você voou, para longe de mim.
Te encontro do outro lado, meu querido amigo. E prometo, até lá, viver com a maior intensidade possível, para acumular tantas histórias quanto possa. Um dia, quando o tempo e o espaço não estiverem mais entre nós, te contarei todas. E escutarei as suas com o mesmo encanto e admiração de sempre. Você se foi, mas segue vivendo no meu coração. E, também, nessa história, que agora circula livre pelo mesmo meio que me trouxe você.
Lise.
