Escoteiros em um cemitério da Escócia

Sobre como a presença e a naturalização da morte mudam nossas perspectivas.

Anelise Vaz Kaminski
Feb 22 · 5 min read

Meu filhote começou a frequentar o grupo de escoteiros do nosso pequeno vilarejo, aqui na Escócia. Fomos ontem pela primeira vez, e a atividade da noite (porque começa às 6 hs, já escuro por aqui) era “stargazing”. Alguns pais estavam junto ajudando, e aproveitei pra ficar também e acompanhar essa primeira experiência dele no grupinho. Fizemos molduras de papelão que serviriam para “moldar” as estrelas certas no céu, e havia também dois telescópios.

Os meninos estavam super animados, e assim que tudo ficou pronto e o chefe dos escoteiros passou as instruções, eles se juntaram em pares e seguiram alegre e desordenadamente, com lanternas, pela trilha que passa pelo lado da igreja. O destino: um cemitério que ficava logo ali, e onde estava escuro o suficiente para ver as estrelas. O chefe mandou apagar as lanternas, para que os olhos se acostumassem à escuridão.

Nós ali, no escuro total, em um cemitério, e eu pensei que talvez isso seria visto como estranho no Brasil.

Mas, aqui, estava a coisa mais normal do mundo.

Os adultos montaram os telescópios enquanto o chefe localizava algumas constelações e as mostrava para os meninos. Ele teve que botar ordem algumas vezes, porque alguns meninos queriam acender as lanternas e sair correndo cemitério adentro, entre as lápides. “Não saiam correndo por aí, vocês podem tropeçar e cair!” Logo, eles começaram a se revezar nos telescópios, e a conversar sobre os astros, meteoros, estação espacial, etcs. Os telescópios foram colocados em lugares diferentes, e as crianças estavam circulando por um caminho entre um e outro, bem no meio do cemitério.

Olhei em volta e pensei nos possíveis inúmeros fantasmas do local e no que eles estariam achando sobre isso. Pensei que no Brasil a cultura seria mais no sentido de não “incomodá-los”, e que as pessoas achariam uma falta de respeito crianças correndo e gargalhando por ali. Vi uma luz estranha ao longe, pelo chão, e pensei: “Lá vem o primeiro morador-fantasma reclamar!” Mas depois descobri que era uma lâmpada de energia solar que provavelmente algum familiar tinha colocado aos pés daquela lápide específica. Uma moderna substituição da vela tradicional.

Alguns ainda olhavam nos telescópios, poucos prestavam atenção ao chefe, outros andavam por aí correndo e brincando de pegar, e um pequeno grupo de 3 ou 4 meninos passou por mim correndo, um deles com uma lanterna, dizendo:

“O meu irmão está aqui, venham, vamos achar a lápide dele, é meu irmão maior, ele está aqui.”

Foi dito com tanta naturalidade e empolgação que partiu meu coração de um jeito inexplicável. Observei eles correndo e tentando achar o lugar certo, na maior animação. Depois voltaram e contaram ao chefe que haviam achado o irmão dele. Tudo muito normal: relatos e reações. Como se tivessem dito que avistaram um esquilo. Outros garotos estavam com as lanternas (a essas alturas já novamente liberadas) explorando e lendo as lápides:

“Olhem, essa aqui morreu com 64 anos”, um falava.

“Vejam esse, morreu com 76 anos, mais velho”, outro dizia.

Logo a aventura terminou e saímos do cemitério, todos tão animados quanto antes, e eu ainda com uma sensação de estranheza e de coração meio partido.

Fiquei refletindo sobre o que causou tais sensações: a diferença cultural e o modo de ver as coisas com o qual fui acostumada. Pensei que, para eles, esse era apenas um lugar, como um parque, um gramado. Ninguém achou triste ou sombrio ou desrespeitoso usar um cemitério para uma atividade infantil.

Uma coisa que eu já havia reparado aqui, e que também é diferente do Brasil, é o tempo que geralmente levam para funeral e enterro: aproximadamente duas semanas, às vezes mais. Claro que é algo particular e que a família pode optar por um enterro mais imediato, mas é normal esperar bastante. Será que é melhor ou pior esperar tanto? Por quê?

Pensei que não existe o certo e errado, são apenas formas diferentes de lidar com as coisas, mas que essas diferenças parecem especialmente tocantes quando dizem respeito à morte.

Talvez porque aqui seja tudo tão antigo, com lápides e sepulturas em todo canto. Fica mais fácil encarar esses lembretes do destino inevitável de todos com mais naturalidade. No estacionamento do supermercado aqui perto tem três sepulturas antigas, conservadas e protegidas. É normal caminhar em lugares históricos e encontrar lápides e sepulturas antigas. Cansei de, distraída, pisar em várias por engano. As pessoas aqui compram igrejas para transformar em lojas ou mesmo casas, e o jardim cheio de lápides fica sempre junto. Dizem que, quando se caminha pela Royal Mile, na cidade velha de Edimburgo, nunca de está a mais de um metro de um corpo enterrado. Parte do turismo da cidade consiste em tours pelos cemitérios antigos, para ver as lápides de pessoas famosas. J.K. Rowling caminhava pelos cemitérios de Edimburgo para buscar inspiração de nomes e histórias. Eu mesma canso de fotografar lápides antigas com desenhos diferentes e interessantes (vide abaixo algumas das que encontrei por aí). Acho que todas essas coisas, tão à vista, acabam criando uma perspectiva diferente.

E acho que são essas observações do diferente, que nos levam a refletir sobre o nosso comum, que fazem com que vivenciar culturas e locais diferentes seja uma experiência tão potencialmente transformadora. Sigo refletindo. O que vocês acham?

Uma das minhas favoritas, porque eu gosto de pensar que é um esqueleto feliz e dançante que gosta de ler! (Certamente sagitariano!)
Mas na verdade é de um professor de anatomia, morto em 1645.
Gosto dos detalhes elaborados, da arte, e de pensar do motivo que levou a escolherem cada desenho.
Podemos supor que este era um músico?
E este? Alfaiate? Cabeleireiro? Reparem que os cabelos da figura viram tecidos, então talvez os dois?

Originally published at https://vidanaescocia.com.br on February 22, 2019.

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