O dia em que encontrei um xenófobo

Eu sei que o título é forte, mas adianto que tudo acabou bem. Aliás, tão bem, que eu até pensei em nem relatar isso aqui mas, afinal, foi algo que aconteceu aqui, na minha vida na Escócia, e faz parte do rol de riscos que todo estrangeiro corre: ser julgado/hostilizado por ser de fora.

Eu nunca me senti diferente por ser estrangeira. Fui nova para os Estados Unidos, e por isso foi relativamente fácil perder o sotaque. A maioria das pessoas nem percebia que eu era de fora. Era fácil, naquela época, passar por local. Na Inglaterra, depois de anos de Brasil, isso já mudou, e se eu falasse mais de duas palavras, percebiam que eu não era dali. Aqui na Escócia é a mesma coisa, ou seja, se fico calada, passo fácil por escocesa (uma escocesa muda, mas passo!).

Desde o ano passado, e principalmente por causa do referendo de saída da União Europeia, pipocam notícias de xenofobia pelo Reino Unido. Histórias de velhinhos raivosos gritando “go back home” para qualquer pessoa com sotaque que passe por eles, pessoas sendo agredidas, verbal e fisicamente, por serem estrangeiras, recebendo bilhetes, tendo muros pichados, etcs. E é inevitável, ao ler e saber dessas histórias, sentir um certo desconforto, sabendo que parcela da população é hostil à minha presença por aqui. A campanha pela saída da UE foi fortemente pautada na questão imigratória. E os imigrantes europeus — que são, em sua esmagadora maioria, trabalhadores qualificados que contribuem muito mais do que recebem, — foram o bode expiatório da coisa toda.

Apesar disso, eu sempre imaginei que, por estar na Escócia, um país declaradamente mais tolerante que o vizinho do sul, de onde vinham essas notícias xenófobas, eu dificilmente passaria por qualquer situação parecida com as que lia. Talvez eu tenha sorte, ou seja apenas distraída, mas as pessoas aqui sempre me pareceram muito queridas e eu nunca senti nenhum tipo de preconceito por parte dos escoceses.

Até aquele dia, algumas semanas atrás, quando eu estava na estação de trem em Edimburgo, sentada no banco, esperando meu trem. Já era noite, o filhote havia pegado no sono e dormia no carrinho. Um senhor, de cabelos brancos, com uma maleta, se aproximou e me perguntou se era dali que sairia o trem para Dundee. Respondi que sim. Tinha um trem na plataforma, ele perguntou se seria aquele e falei que achava que sim, mas que estavam limpando e que depois nos deixariam entrar. Então ele se sentou do meu lado, e me contou que havia perdido a carteira no pub, que teve que correr para buscá-la e ficou com medo de perder o trem. Não lembro o que comentei, mas comentei com sotaque (ops!) porque ele, em seguida, perguntou se eu era americana. E arregalou os olhos — como a maioria faz — quando respondi que era brasileira. Me perguntou se eu era turista, e quando respondi que não, que morava aqui, o semblante dele mudou bastante. Começou a falar mais pausadamente, e quis saber se eu tinha visto, de que tipo, se trabalhava…começou a me encher de perguntas invasivas. Minha reação costumeira teria sido pedir licença e sair de perto, mas acho que a Escócia está me me transformado em uma pessoa mais zen (deve ser culpa do ar, cheio de partículas de whisky), porque fui respondendo tudo, muito tranquila (e espantada com a própria tranquilidade, confesso). Quando soube que meu status aqui era de europeia, ele suspirou, me olhou firme e falou “Eu votei pelo Brexit”.

Eu não quero, aqui, discutir política, nem se Brexit é bom ou ruim, mas ficou muito claro, naquele contexto, que era a maneira “educada” de ele me dizer que era contra a minha presença ali. Soou muito hostil, mais pelo olhar de desaprovação que pelas palavras em si. Incrível como olhares conseguem comunicar coisas não-ditas. Foi a primeira vez, de verdade, em que me senti mal-vinda, inadequada por ser estrangeira. Me senti levemente culpada por algo que não tenho culpa. Aquele olhar de quem era dono do país e queria que eu saísse continuava firme sobre mim, esperando minha próxima reação. Mas, provavelmente bêbada de tanto respirar, eu perguntei, muito calma: “É mesmo? E por quê?” E então eu escutei todo um discurso que tenho preguiça de reproduzir aqui, mas que basicamente se resume a esta ilha ser muito pequena e não comportar todos esses imigrantes que vêm aqui e têm 15 filhos cada…. (e ainda trazem os gatos junto, eu quis acrescentar, mas achei melhor não me entregar).

Ele ia falando e eu ia acenando com a cabeça, tranquila. Eu estava muito “da paz”. Sinceramente não sei o que aconteceu, porque eu não sou sempre assim (tenho um ascendente em áries que me faz chutar pra longe o que me agride, e muitas vezes literalmente). Fiquei escutando e, em certo momento, resolvi concordar com algo que ele disse. Ele pareceu se espantar com isso, porque se atrapalhou no que estava falando, e pareceu confuso. Nisso, nosso trem chegou. “Me livrei!”, pensei. Mas ele, solícito, me ajudou a levantar o carrinho até o trem, sem acordar o Pedro, e sentou na minha frente, em uma das mesas do vagão. Ele estava a fim de continuar o papo, apesar de eu ser uma estrangeira-ladra-de-empregos-prestes-a-ter-mais-14-filhos. Mas, antes que ele pudesse continuar o discurso, resolvi dar o troco e comecei a perguntar sobre a vida dele (eu teria que passar 20 minutos sentada ali mesmo…). E aí o lado carente de velhinho escocês de pub aflorou, porque ele desatou a me falar da família dele, das coisas em que havia trabalhado na vida (nenhum emprego que eu quisesse “roubar”, diga-se de passagem…), dos desenhos que ele fazia, do câncer que havia enfrentado, do motivo de ter ido a Edimburgo aquela noite… E, ao falar da própria vida (para uma ouvinte atenta e interessada — eu!), aquele semblante hostil foi suavizando.

Pouco antes da minha parada, foi a minha vez de ficar espantada: ele tirou uma caixa de bombons da maleta e me entregou. “Eu sempre carrego chocolates comigo, para dar para pessoas especiais”, me disse. Chocolates suíços — que ironia! — roubando emprego dos chocolates britânicos… Agradeci, me levantando para sair, e ele se despediu na maior gentileza do mundo.

Já em casa, enquanto comia os chocolates, eu pensava no quão estranha havia sido aquela interação. Começou com um senhor me olhando de modo agressivo e me dizendo que não aprovava eu estar morando no país dele. E terminou com ele me dando bombons que — surpresa! — nem estavam envenenados.

Acho que esse episódio inusitado serviu para me tirar um pouco da minha bolha de segurança. Eu não estou imune a esse tipo de coisa. Sou e sempre serei uma estrangeira aqui, por mais que eu me sinta em casa. Porque eu não nasci aqui (ao menos não nesta vida), e não ter nascido aqui me torna diferente dos que nasceram. É um primeiro e importante ponto de diferenciação, de segmentação de pessoas entre o “nós” e o “eles”.

Lembrei dos anos que passei, durante meu mestrado, estudando a situação do Haiti, na mesma época em que muitos haitianos migravam para o Brasil em busca de uma vida melhor. Lembrei das notícias de brasileiros os hostilizando, do preconceito que enfrentavam, não bastassem todas as dificuldades inerentes a migrar: a distância de casa, a língua, a falta de amigos, a estranheza cultural. Os haitianos no Brasil, os poloneses aqui… qual a diferença? Mas também lembrei das inúmeras histórias de acolhimento e carinho, tanto lá quanto cá. E talvez eu seja idealista, mas gosto de acreditar que o mal, no mundo, é mínimo. O que é grande é a ignorância e a falta de empatia. No caso da xenofobia, o medo também grita a plenos pulmões. Principalmente nos mais velhos, que passaram por duas guerras mundiais. É natural querer se proteger do que vem de fora.

Conclui que minha virada, de “inimiga da nação” a “merecedora de chocolates”, começou quando eu concordei com algo que aquele senhor me disse. Uma coisa mínima, mas esse pequeno ponto de concordância fez com que eu fosse menos “diferente” dele, e isso o desarmou. Eu simplesmente decidi ignorar o que não concordava (que utilidade teria discutir, sejamos honestos…) e foquei no resto. Eu fiquei mais humana, aos olhos dele, quando concordei com ele, e também quando me interessei pela vida dele. E ele ficou mais humano, aos meus olhos, quando escutei ele falar sobre a família, e sobre o medo de morrer que teve quando descobriu o câncer. Somos todos humanos, obviamente, mas existe essa tendência moderna de objetificar pessoas, de as classificar em diferentes grupos e desumanizar alguns desses grupos. E quando a gente desumaniza alguém, fica autorizado todo tipo de violência. Essa tendência culminou nas Duas Grandes Guerras, e infelizmente permanece forte. E a gente faz isso cotidianamente, sem nem se dar conta. “Nós” de um lado, “eles”, do outro.

Enfim, essa pequena história, além de ter me trazido muitas reflexões úteis, também mostra o óbvio: a marca do estrangeiro é muito forte, e carrega consigo uma série de impressões pré-concebidas. Felizmente, as impressões que as pessoas têm do Brasil e dos brasileiros costumam ser positivas. Mas existe o risco de, volta e meia, ser julgado com base no lugar onde você nasceu — ou, pior, onde não nasceu. E eu ainda estou aprendendo a lidar com esse fato, com esse pequeno medo que existe dentro de mim, de sofrer esse tipo de preconceito. Eu vou ter que lidar com as vantagens e desvantagens de ser estrangeira sempre que eu colocar o pé pra fora. Como em tudo que envolve humanos, não existe uma fórmula perfeita, mas acho que, sem querer, me saí bem.

Anelise Vaz Kaminski

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Brasileira morando na Escócia. Sempre escrevendo, raramente compartilhando, tentando mudar isso. Mais em www.vidanaescocia.com.br.