O Dilema de Afrodite

Uma conversa sobre o amor

Anelise Vaz Kaminski
Jun 11 · 6 min read

Afrodite — a deusa do amor e da beleza — é só coração, e não se importa com as conseqüências disso. Age por impulso, por instinto, por paixão pura e devastadora, do tipo que cega e enlouquece a razão dos homens tanto quanto a guerra. Não é à toa, aliás, que Ares — o deus da guerra — seja seu amante mais assíduo. Ambos são passionais ao extremo, desconsideram qualquer aviso da prudência, atropelam morais e princípios em prol de suas causas: o amor e a guerra. Tão diferentes mas tão semelhantes. Ambos fazem vítimas, causando feridas e memórias dolorosas.

A vida não é a mesma depois de um grande amor, pois ele marca o coração e modifica a mente. A mente, aliás, já é domínio de outra divindade: Athena, a deusa da sabedoria e da inteligência. Ela ama a razão, o conhecimento, e abomina assuntos do coração, por serem estes tão desestabilizadores, insensatos, e aprisionantes. A paixão é inimiga da razão. Athena repudia os valores de Afrodite, que por sua vez, usa sua sedução para estremecer os pilares de autocontrole dos sentidos tão apregoados pela racionalidade.

Sendo assim tão diferentes, torna-se improvável um acordo entre as deusas. O mais comum é uma alternância de seus domínios, sempre em batalha para retomar a influência sobre os homens, que se deixam levar ora por uma, ora por outra.

Um dia, porém, entre um amor e outro, com o coração machucado por mais uma aventura passional de grandes conseqüências, Afrodite se flagrou desejando ser como Athena. Isso a surpreendeu profundamente mas, segundos depois, já não fazia mais sentido. Fôra um lapso. Em momentos de distração, todavia, o pensamento voltava, e ela se viu forçada a refletir melhor sobre o assunto, percebendo que fazia, sim, certo sentido.

Athena não era tão bela quanto ela, verdade. Também não era tão amada, pois seus súditos eram antes austeros que apaixonados, e menos numerosos. Athena precisava argumentar para conseguir favores e concessões, enquanto ela, Afrodite, apenas lançava o olhar certo e o mundo era seu. Athena tinha, no entanto, algo que lhe fazia muita falta no momento: um coração intacto. Solitário, mas intacto. E de que adianta, afinal, ter muitos amores e ainda se sentir sozinha, por saber que são todos passageiros? No fundo, ela era tão solitária quanto Athena. Ou mais, por tentar-se enganar constantemente. A solidão não se preenche simplesmente com presenças, carinhos e atenções. Há de se ter a presença certa, aquela que se sabe eterna, algo diferente do que Afrodite vivia. Seus amores eram intensos, porém fugazes, e ela cansava-se deles com a mesma velocidade com que se interessava por outro alguém. Vivia momentos de paixões fulminantes entrecortados por momentos de frustrações e profunda solidão. Momentos que cada vez mais corroíam-lhe o peito e cansavam-lhe a alma. “E, ao final, estou sempre sozinha, pois ninguém me basta…”. Solidão por solidão, a de Athena era sincera, pelo menos.

Além do mais, se conseguisse se libertar dos mandos e caprichos de seu próprio coração, ela poderia dedicar-se a coisas mais produtivas, e teria menos confusões na sua vida. Sair desse círculo vicioso passional lhe pareceu, de repente, algo urgente. Como uma patologia recém-descoberta, com a qual havia convivido por todos esses anos e da qual só agora se dera por conta. Precisava de conselhos. E partiu ao encontro de Athena.

Encontrou sua irmã jogando xadrez, na biblioteca do Olimpo. Jogou-se, dramaticamente, no sofá ao lado e, afobada, lhe disse:

“Athena, preciso dos seus conselhos! Cansei de viver entre uma paixão e outra. Eu quero encontrar um amor de verdade, um amor perfeito.”

A deusa da sabedoria ergueu seus olhos acizentados do tabuleiro e olhou Afrodite com incredulidade. Não conseguiu segurar um pequeno riso quando respondeu:

“Você, a deusa do AMOR, está me pedindo conselhos sobre…. amor??!!”

“Sim. Você é a pessoa mais inteligente que conheço e tenho certeza que vai saber me ajudar.”

“Mas eu não entendo nada dessas coisas. Você sabe que eu nunca me importei com isso e tampouco amei.”

“E também sei que isso não é verdade… Você já amou. Eu vejo nos seus olhos. E eu nunca me engano nesses assuntos…”

Athena sentiu o coração apertar, e seus olhos adquiriram um brilho súbito, das lágrimas que queriam brotar deles. Respirou fundo e disse, escondendo perfeitamente qualquer emoção:

“Está no passado. Era um mortal. Foi melhor assim.”

“O que aconteceu com ele?”

“Se jogou de um penhasco…”

Afrodite revirou os olhos, entediada, enquanto gesticulava, e falou:

“Céus, por que os humanos têm que ser tão dramáticos?!! O último mortal com quem me envolvi arrancou os próprios olhos porque, segundo ele, não suportava continuar enxergando em um mundo sem a minha beleza. Estou farta dessas tragédias que causo…”

Athena riu, enquanto pensava no quanto o comentário de Afrodite era absurdo, pois ela era a rainha absoluta do drama helênico.

“Você sabe que esse drama todo é culpa sua, não sabe? Culpa desse ideal de amor romântico que você espalha mundo afora.”

“ Eu sei. Mas estou envelhecendo, Athena. Não aguento mais essa vida atribulada que levo.”

“ Olha só quem está sendo dramática agora. Somos imortais, esqueceu? Não envelhecemos.”

“Exato! Sou imortal. Preciso de um amor imortal. Um homem perfeito. Um amor perfeito. Onde encontro isso?”

“Afrodite, amores perfeitos não existem. Mesmo Eros e Psiquê tiveram seus problemas, e você sabe — mesmo porque causou grande parte deles… Mas, ainda que amores perfeitos existissem, não conseguiriam se sustentar em um mundo imperfeito. Entenda, se você quiser parar de se machucar e de machucar os outros, vai ter que aceitar que não existe uma pessoa perfeita, nem um amor perfeito, mas sim um amor certo para cada pessoa imperfeita. Eu vejo, como única solução de quebra do seu círculo vicioso e insatisfeito, o uso da razão: escolha uma pessoa com imperfeições que você possa tolerar, faça uma fria análise das afinidades e valores e, se as estatísticas forem favoráveis, transforme essa pessoa na sua pessoa certa. Imperfeita, assim como você, assim como a vida, mas perfeita para você. Insista, persista ao invés de cair fora assim que a paixão e o encantamento acabam. Veja o que sobra e trabalhe com isso.”

“Você faz tudo parecer tão chato… Cansei só de escutar a descrição desse processo…”

“E, no entanto, eu não tenho causado mortes semanais e nem passado madrugadas pensando em homens. Enquanto você chorava pelo Adônis, por ex, eu ganhei uma cidade. Quantas cidades você tem mesmo? Não está cansada de sofrer por amor?”

“Estou. Mas quero um amor que não me faça sofrer. Quero alguém que me complete, que me faça sentir que tudo está certo e perfeito no mundo.”

“Pois eu prefiro ver o que está errado no mundo para tentar consertar… Olha, eu acho, cara irmã, que a pessoa imperfeita traz resultados mais produtivos. Porque amar uma pessoa imperfeita requer tolerância, paciência, humildade. Significa um esforço semelhante ao de subir uma escada. Você tem que erguer os pés e dobrar seus joelhos. Você tem que ceder. E isso amadurece, ensina lições, ajuda a evoluir. Você precisa se perguntar, afinal, qual a sua verdadeira vontade: adquirir conhecimento e sabedoria ao aprender a amar alguém imperfeito ou continuar buscando — provavelmente em vão — um amor pronto e perfeito?”

Afrodite olhou pela janela, enquanto enrolava os dedos nos cabelos dourados, e respondeu, com a voz tão baixa que Athena quase não escutou:

“Eu não sei…”

Athena olhou para a irmã, que se virou, com o semblante pensativo. Fez sinal para que Afrodite se sentasse na poltrona em frente a ela. Afrodite girou o corpo levemente e se sentou, em um movimento de pernas perfeito e fluido, como uma espuma do mar sendo depositada pela onda, delicadamente, sobre a areia. Athena se perdeu nesta cena por um breve momento, admirando a beleza de Afrodite. Tudo nela era de uma perfeição estética tão imensa que mesmo os deuses se afetavam, por vezes. Atena voltou a si rapidamente, respirou fundo e, olhando para o tabuleiro em frente à ela, respondeu:

“Que bom, então, que você tem a eternidade para descobrir. Enquanto isso, quer jogar xadrez?”

Photo by John Gibbons on Unsplash
Anelise Vaz Kaminski

Written by

Brasileira morando na Escócia. Sempre escrevendo, raramente compartilhando, tentando mudar isso. Mais em www.vidanaescocia.com.br.

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