Os origamis da paz

Uma das primeiras coisas que eu reparei quando entrei no local onde ia começar meu novo trabalho foram os origamis de pássaros (havia dezenas deles pendurados e apoiados por todo o canto, de todos os tamanho e cores. Toquei em um, pra “ver” melhor (que mania, né?), e o coordenador aproveitou e começou a me contar que eles faziam parte de um dos projetos da ONG. O objetivo era conseguir 140.000 origamis destes, para depois fazer uma grande exposição pela paz e pelo fim dos armamentos nucleares. “Por que 140.000?”, perguntei. “É o número de pessoas que morreram em Hiroshima”. Entendi que seria impactante ter uma referência visual do número de pessoas mortas pela bomba. É diferente você saber que 140.000 pessoas morreram e você ver este número representado, um a um, e entender que cada origami daqueles era uma vida. Parece que a dimensão da coisa muda.

Com o tempo, percebi que origamis estavam chegando de vários lugares diferentes do mundo. Um dia, chegou uma caixa do Japão com mais de 200 deles, feitos por alunos de uma escola primária de lá. Junto, veio um bilhete com uma mensagem sobre a paz e sobre a memória de Sadako. Fiquei curiosa e resolvi pesquisar quem era Sadako e o que ela tinha a ver com esses origamis. E foi aí que eu entendi melhor o significado desses pequenos pássaros de papel.

Sadako Sasaki tinha 2 anos de idade quando a bomba atômica atingiu Hiroshima, em agosto de 1945. A casa dela estava fora do perímetro maior da explosão e a família conseguiu escapar sem ferimentos, mas foram atingidos pela chuva negra, uma precipitação de material radioativo resultante da bomba. Apesar disso, todos pareciam bem e ela seguiu a vida como uma menina normal, sendo inclusive uma das atletas principais da escola. Aos 11 anos, Sadako começou a se sentir mal e foi diagnosticada com leucemia — chamda de “a doença da bomba”, naquela época. Ela foi hospitalizada e os médicos deram a ela um ano de vida, no máximo. Uma pessoa no hospital contou a ela uma antiga lenda japonesa que dizia que quem fizesse 1000 origamis de tsurus teria um pedido atendido. Sadako então fez seu pedido — ficar boa, voltar pra casa e para a escola — e começou a fazer os origamis, incansavelmente. Quando morreu, ela havia feito 644 tsurus. Seus amigos e família fizeram os que faltavam para completar 1000 e os enterraram com ela.

Tocados pela determinação e força dela, as pessoas que a conheceram angariaram funos para a construção de um memorial em honra de Sadako e de todas as crianças que morreram pelos efeitos da bomba atômica. Escolas de todo o Japão contribuíram para a construçnao de uma estátua de Sadako segurando um origami de tsuru. No local, está escrito: “Este é nosso grito, esta é nossa prece. Paz no mundo.” Pessoas do mundo inteiro deixam origamis de tsurus na estátua de Sadako, em Hiroshima e em vários outros locais. E foi assim que esse origami se tornou um símbolo da paz.

Estátua de Sadako no Parque da Paz, em Hiroshima.
Estátua de Sadako em Wales. Foto de Hazel Reeves.
Estátua de Sadako em Seattle, EUA. Foto: Seattle Times.

Conhecendo esta história, o projeto da ONG tomou mais uma nova dimensão pra mim, porque é como se cada uma das 140.000 pessoas, ao serem representadas pelos tsurus, estivessem pedindo pela paz.

Quem quiser saber como fazer um origami de tsuru, seja pra tentar conseguir seu pedido ou para colaborar com os diversos projetos em prol da paz que existem no mundo todo, pode aprender aqui:

Como parte do projeto, a ONG onde trabalho organiza workshops de origamis nas escolas. Eles contam a história de Sadako e ensinam as crianças a fazerem o tsuru. É uma forma de conversar sobre a paz, e sobre como ela só acontece quando nos sentimos conectados uns aos outros. Neste caso, em uma mesma intenção, em que cada origami carrega o desejo de um mundo sem guerras.

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