Essa moça

Conversa de hoje pela manhã com um moço que acabou de se separar…


Antes e Depois…. :((((

Hoje eu conversei com um moço que se separou da esposa com quem era casado há uma década. Está separado há um mês. Falamos sobre a nova rotina que é a vida de solteiro, do desânimo de sair novamente, do espaço vazio que fica na vida. Aquele papo típico de quem já passou por tudo isso e quer ajudar, com uma pequena diferença: eu sou uma mulher.

Ele me falou o quanto é difícil, o quanto sente falta de companhia, de ter com quem dividir as coisas, o quanto sente falta da vida de casal (não, não falou que sente falta DELA, por não sentir falta mesmo ou por se sentir fragilizado pela falta que sente, não sei…).

A segunda coisa mais difícil de explicar pra ele é que não mata. Que a gente melhora rápido, basta reconstruir a vida pra outro lado. Trabalhar, estudar, fazer um esporte cultivar as amizades… eventualmente ter um romance quando for a hora certa. Sem pressa, sem urgência, sem drama. Mas é difícil porque no primeiro momento de separação tudo é pressa, urgência e drama.

A primeira coisa mais difícil da nossa conversa hoje foi quando ele demonstrou um não entendimento de como uma mulher opta por abrir mão de constituir família. "Família é a coisa mais importante do mundo, a realização de um homem é ter filhos, eu queria ter tido pelo menos 3…" mas tem mais… "ficar sozinha agora você acha bom, porque quando você ficar mais velha não vai ter mais ninguém. A mulher que tem filhos tem pelo menos os filhos pra ficar com ela pra o resto da vida. Tudo o que um homem sonha é ter filhos…" daí eu respondi, meio tímida "mas a mulher abre mão de muita coisa pra que tudo isso aconteça…" e ele coroou nosso diálogo com "mas ganha muitas outras!!!!!"

Bem, em primeiro lugar, esse é um post feminista pra lá de liberal. Se vc é radfem é bom parar aqui…..

Enquanto conversávamos, tocava uma musica na minha cabeça, os versos são assim: Essa moça tá diferente, Está pra lá de pra frente, Essa moça tá decidida a se supermodernizar… vai desinventar o som… agora está só na dela, botando só pra quebrar…" Essa moça tá diferente. E eu sinto muito, ela não vai voltar a ser o que ela era. E esses moços, pobres moços… a letra do Lupicínio também caberia muito bem aqui.

A realidade da mulher mudou duas vezes.

A primeira porque a gente ganhou esse "espaço" no mercado de trabalho mas pra ter essa "hora do recreio" a gente teve de continuar cumprindo nossos papéis naturais: ser mãe, ser linda, sexy, vaidosa e fiel, ser cuidadora, ser doméstica, ser doce e quieta. Se a gente conseguir ser tudo isso e ainda trabalhar, ok. Vai a luta, minha filha!

A segunda, que está em curso nesse exato momento, é a possibilidade de uma mulher dizer "olha só, não quero acumular papéis não" e resolver que não quer ter filhos, ou que não quer casar, ou que não quer casar mas quer ter um filho (essa eu ando achando a melhor opção…). Hoje a mulher pode abrir mão do privilégio de ser mãe e esposa. Ela pode abrir mão da dádiva divina de cuidar de uma casa, de um homem, dos filhos. Ela pode simplesmente não querer o pacote. E sabe do que mais? Ela não será a dona de um coração duro e amargo e de um apartamento cheio de gatos. Ela será uma profissional, ela será uma mãe solo, ou uma dinda dedicada. Ela vai aprender a surfar. Vai conhecer o Egito, fazer doutorado, fazer amigos, dar, comer, transar a 3, ter uma amizade colorida, ou duas. Ela vai fazer a porra toda e o mundo não vai acabar. E sabe do que mais mais? Ela não vai estar sozinha.

Eu, como uma dessas moças diferentes, não paro de pensar no quanto os moços têm contribuído para que eu não esteja sozinha no mundo. Por um lado, que bom, né? Mas por outro… que merda! Esse descompasso da existência é muito triste. O relacionamento ht está se deteriorando muito mais rápido e a "culpa" não é de ninguém. É só do descompasso, um engasgo no sistema, uma falha na matrix.

O mito dizia que a moça queria muito casar (na verdade ela precisava, para ser alguém normal) e que o moço passava a metade da vida tentando se escapar disso e chegava uma hora que desistia de correr e acabava cedendo à pressão. Casava, mas traía porque é da natureza do homem e, afinal, ele nem queria ter casado então tem o direito de continuar a vida sexual dele como se nada tivesse mudado. Aí está o imaginário popular. Maaas, "essa moça tá diferente…"

Mas o moço que eu conversei hoje pela manhã ainda ama a moça. E a moça, pelo pouco que conheci dela, provavelmente ainda ama o moço. Ela não queria ir embora, mas não deu conta de ficar. Ele não queria que ela fosse, mas não deu conta de ceder e se sentir "menos homem", sei lá…. duas pessoas que se gostam e que hoje vivem longe uma da outra. Por descompasso.

Mas sossegue seu coração, moço. Tempo vai, tempo vem. E do lado esquerdo do peito, no fundo, ela ainda te quer bem.

:)

Like what you read? Give Ane Molina a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.