Por que você não deve perguntar aos seus pais que carreira escolher
Ou o conselho que, como artista, gostaria de ter escutado antes de entrar na faculdade

Não se surpreenda com o fato de seu pais considerarem um “absurdo” você escolher uma faculdade que não faça parte da Santa Trindade Acadêmica: Direito-Medicina-Engenharia. Para seus pais, é simplesmente inconcebível que você deixe de ter um “dinheiro certo e carreira estável” para se “aventurar” por aí. Seja pelas crises econômicas e políticas recorrentes em solo brasileiro, nossas famílias aprenderam a olhar com certo ceticismo para formas de levar a vida que não fossem tão convencionais quanto uma linha de produção fabril. Só tem um grande problema: o mercado de trabalho, tanto a nível nacional como mundial, não funciona mais como uma esteira de fábrica com produtos enfileirados prestes a serem montados.
Em Manaus, quando digo que comecei a trabalhar como freelancer pela internet, as pessoas me olham assustadas e perguntam: “E o INSS? Seguro desemprego? Se não te pagarem?” A desconfiança é natural numa cidade em que o Polo Industrial já chegou a empregar a média de 121.631 trabalhadores em 2013 (atualmente o número caiu para em torno de 80 mil). O modelo do pensamento industrial é algo que formatou a maneira de pensar não só do amazonense médio, mas também a do brasileiro e de todas as gerações anteriores. Qualquer mudança no percurso do plano de vida ideal (estudar — trabalhar em uma empresa/fazer concurso público — se aposentar aos 60/65 anos) é vista como ameaça a sobrevivência social e financeira. É a nossa versão importada (e endividada) do Sonho Americano: estude, trabalhe, faça um financiamento parcelado em até 30 anos para comprar uma casa, compre um carro. O que mais você poderia querer?
Lembre-se: para eles, é uma questão de sobrevivência você não sair muito dos trilhos. A parte límbica do cérebro está lá, gritando PERIGO PERIGO PERIGO, O MOLEQUE VAI ESTRAGAR TUDO. Não há racionalidade nesse momento, mesmo que você mostre por A+B que a área do Direito está saturada, que você não suporta ver sangue e desmaiou na frente deles quando o irmão quebrou o nariz, que não tem a mínima aptidão para cálculos que não envolvam uma calculadora: o plano, tal qual uma linha de produção no Distrito Industrial, precisa ser seguido.
Mas talvez seus pais nunca tenham trabalhado em fábricas. Talvez tenham feito muitos sacrifícios para sustentar a família, tiveram uma origem pobre e ascenderam socialmente pelas carreiras da Santa Trindade Acadêmica, ou simplesmente gostam de pensar que vão ter um filho advogado/médico/engenheiro na família. Você sente que tem uma dívida com eles, mesmo que um contrato nunca tenha sido estabelecido formalmente. E aqui temos mais um problema: o “preço” para pagar essa dívida pode ser alto demais. Não há exageros aqui: deixar qualquer um decidir o seu destino, mesmo que seus pais, não só parece um roteiro de filme ruim da Sessão da Tarde como é algo emocionalmente burro e que pode custar bons anos da vida.
No meu caso em especial, desisti de duas faculdades até finalmente me formar no que realmente queria (tenho um modesto curso de Tecnologia em Produção Audiovisual no currículo) e isso nada tinha a ver com indecisão. Desde muito cedo sabia que queria ser escritora, mas caí na ladainha do “escrever no Brasil não dá dinheiro”. Muitos anos perdidos depois, gostaria que alguém tivesse me dito que haviam opções para pessoas como eu. E hoje, com certeza, há muitas opções: quem dera um Van Gogh ter acesso a uma câmera e ao Instagram hoje em dia, ou um Machado ter uma conta na Medium. Os tempos mudaram, principalmente para os artistas. E embora continue não sendo fácil, não é impossível.
Isso não significa que nossos avós e pais sejam os carrascos da nossa geração, mas muito mais vítimas de uma época de transição como a nossa: a era pós-industrial. Nossos avós ensinaram aos nossos pais que a vida tinha um caminho certo e reto, nossos pais passaram isso para nós, mas já não se aplica. Graças a Internet, você pode literalmente aprender o que quiser e aperfeiçoar o conhecimento na profissão que deseja seguir, por mais inusitada que ela seja. Temos privilégios que renascentistas e iluministas invejariam e que até para nossos avós seria uma realidade digna de ficção científica.
Estamos em um momento no qual o mundo se assemelha muito mais a uma floresta tropical de ideias, habitada por um “bicho” que é visto com muita desconfiança em terras brasilis: a criatividade. E nem só de criatividade vive o artista, o marketing vem junto (juntos, não separados hein? Deus tá vendo você se promover como escritor e escrever que é bom nada).
Nos próximos posts, vou compartilhar como está sendo a minha “jornada” como artista chacoalhando algumas árvores e rezando para que algumas maçãs caiam na minha cabeça. Até agora posso dizer que o gênero se assemelha muito mais a uma tragicomédia, mas sem piadas muito boas. Paciência. A estrada é longa.
