Meu pé de Edelweiß

O racismo estrutural nas colônias alemãs do Brasil

Anfibologia
Aug 24, 2017 · 10 min read

“Ach! O cabelo é bem preto, mas pelo menos os olhinhos são azuis!” Este foi o primeiro comentário da minha avó ao ser apresentada à sua bisneta. Minha avó mora numa colônia alemã no Sul do Brasil. Até chegar à minha geração, a família é uma linhagem imaculada de descendentes teutônicos, vindos do Hunsrück para a América Latina no século XIX em busca de terra e oportunidade. Eu procriei com uma “brasileira” de cabelos castanhos e pele quase tão branca quanto a minha. Meu irmão também, mas seus filhos parecem saídos do elenco de A Noviça Rebelde. Acasos da genética.

Minha avó não combina com o perfil dos supremacistas brancos que marcharam sobre Charlottesville, no estado americano da Virgínia, em agosto de 2017, brandindo flâmulas com a suástica e fazendo saudações com a mão direita estendida uns 20 centímetros acima da linha dos olhos. Pelo contrário. Seria difícil encontrar qualquer traço de ódio na senhora temente a Deus e de voz suave. Talvez não odeie nem mesmo as baratas que eventualmente se aventuram pela casa. Jamais a vi levantar a voz, muito menos a mão, para agredir qualquer pessoa. Nunca a ouvi pronunciar palavras agressivas contra ninguém, nem mesmo ceder à tentação da fofoca. E, todavia, ela subscreve às premissas principais do ideário eugenista do início do século XX, entre cujas consequências está o holocausto perpetrado pelos nazistas na II Guerra Mundial.

Ultraliberais como Brendan O’Neill, editor da revista digital britânica Spiked, a ex-jogadora de vôlei tornada colunista conservadora Ana Paula e até mesmo esquerdistas como o professor brasileiro residente nos EUA Idelber Avelar, se apressaram a apontar a política identitária das últimas décadas como a principal responsável pela adoção do imaginário nazista por parte de grupos da “direita alternativa” americana. O termo “direita alternativa” ou alt-right vem sendo adotado por vários grupos de extremistas na América do Norte e Europa, cujos pontos em comum são a adesão ao ideal de supremacia branca, ao nacionalismo, ao antifeminismo, ao antissemitismo e à islamofobia. Em suma, a “direita alternativa” é aquilo que há alguns anos conhecíamos por neonazismo.

O argumento dos que apontam as políticas identitárias como principal combustível para as tochas que iluminaram as suásticas em Charlottesville é: na busca por mais direitos civis, não-brancos, judeus, muçulmanos, mulheres, LGBTQs e outras minorias adotaram discursos que reforçariam o contraste entre o homem branco heterossexual e todos os outros 7 bilhões de habitantes do planeta. Confrontado com o questionamento quanto a seu lugar na sociedade, o homem branco heterossexual se veria obrigado a tatuar uma suástica no peito e marchar aos gritos de “solo e sangue!” ou “matem os judeus!”, para defender a permanência, numa praça da Universidade da Virgínia, da estátua dum líder militar do Sul escravocrata durante a Guerra de Secessão americana.

Tal argumento, porém, não resiste mesmo a uma análise perfunctória. Em primeiro lugar, a política identitária surgiu décadas após os primeiros homens brancos heterossexuais portarem suásticas em comícios. A política baseada em identidade, em lugar de classe, é um produto da desconstrução teórica do marxismo após a II Guerra Mundial e não fazia marola na esfera pública antes dos anos 1970, época de efervescência dos movimentos pelos direitos civis de negros, mulheres, LGBTQs e outros. Os movimentos neonazistas se iniciaram logo após a derrota do III Reich, ainda nos anos 1950, com a Frente de Libertação Europeia criada pelo britânico Francis Yockey. Portanto, a ideologia nazista claramente prescinde de qualquer tipo de política identitária para se desenvolver.

Por outro lado, chama a atenção o fato dos proponentes do argumento acusando a política identitária de fomentar o nazismo nunca levarem suas conclusões um passo, apenas um passo, adiante — ou, talvez, atrás — e denunciarem o racismo estrutural da sociedade americana como o principal combustível do suposto “racismo inverso”, isto é, o preconceito de não-brancos contra brancos. É como se a política identitária surgisse do nada. Ou, nos casos mais extremos de perturbação mental, como se a política identitária fosse uma conspiração de minorias ressentidas pelo sucesso dos homens heterossexuais brancos.

Não parece ocorrer aos críticos que as políticas identitárias sejam uma consequência da exclusão social a que as minorias foram submetidas ao longo de séculos. Quando grupos sociais cujo espaço era restrito, antes, às periferias, ao lar ou aos armários, começam a ocupar espaços antes dominados pelo homem heterossexual branco, este movimento é visto como uma injustiça grande o suficiente para autorizar a compreensão e a empatia por nazistas autodeclarados. Os supremacistas brancos vêm tendo sucesso em se colocar no papel de vítimas e, assim, disseminar o discurso de que o “racismo inverso” é responsável pelo ressurgimento do nazismo.

“Kerb”, por Pedro Weingärtner (1892)

A verdade, porém, é que os ideais nazistas nunca foram erradicados de fato, segundo minha experiência de uma infância inteira convivendo com teuto-brasileiros. Como sugere a anedota que inicia este texto, a genética é um fator relevante no cotidiano de lugares como Blumenau, Santa Cruz do Sul, Marechal Cândido Rondon e, suponho, todas as outras regiões que receberam imigrantes alemães a partir do século XIX. Quando um desconhecido é apresentado, os cumprimentos logo dão lugar a uma entrevista sobre sua família. Se não for evidentemente “brasileiro” ou negro, os colonos perguntam, à queima-roupa: “você é de origem?”. De origem germânica, bem entendido, ou pelo menos da Europa ao norte dos Alpes. Gringos, ou descendentes de italianos, estão um patamar acima dos “brasileiros”, mas é preferível que sua filha não se case com um deles. Se o desconhecido for de origem, segue-se uma longa discussão a respeito da árvore genealógica e a aceitação na comunidade é imediata.

Não é que todos os teuto-brasileiros sejam nazistas, ou mesmo apenas racistas hidrófobos, propriamente. A atitude do descendente alemão frente a outras etnias é complexa. A eugenia foi muito popular entre o final do século XIX e o início do XX, quando a maior parte da imigração alemã para o Brasil se deu. Os colonos viveram em comunidades isoladas de outras etnias até poucas décadas atrás. Meu avô só aprendeu português na escola. Muitos dos meus parentes mais velhos conversam numa mistura de dialeto Hunsrückisch com português, criando neologismos a partir da mistura das duas línguas, como o verbo foiçen (passar a foice em alguma roça), o substantivo Milhobrot (pão de milho) ou o advérbio “uma vez”, tradução literal do alemão einmal, gerando frases como “fâmos na paranca to rio catar percamota ‘ma fêis!” (vamos já colher mexericas na margem do rio!).

Não é simples avaliar o quanto os indivíduos criados neste ambiente são racistas. Embora o patrimônio genético seja considerado uma característica fundamental de qualquer pessoa e haja dificuldade em lembrar de apenas um churrasco no qual não tenha circulado alguma piada de negro ou judeu entre os anos 1980 e 2000, poucos colonos tinham a oportunidade de discriminar um negro ou judeu diretamente naquela época. Negros e judeus não circulavam pelas ruas, não faziam compras nos mercadinhos, não dividiam salas de aula com os teuto-brasileiros. Quando eu era bebê, com frequência era assentado sobre o balcão do estabelecimento comercial no qual minha mãe trabalhava. Tinha quase um ano quando um negro entrou pela porta. Eu nunca vira um ser humano preto. Apavorado, abri o berreiro, para consternação de minha mãe.

Volta e meia, aparecia alguma família negra ou parda na cidade, cujo pai era gerente transferido do Banco do Brasil ou algo do gênero. Ver negros de classe média convivendo nos mesmos espaços gerava dissonância cognitiva na população. A reação inicial era um misto de curiosidade e desconfiança. “Ach! Tu viu, Judite? A xerente nova to panco é Schwarz!” Seguia-se uma cuidadosa análise do comportamento da família. O gerente é trabalhador? Eles não ouvem música alta em casa? Os filhos vão bem na escola? Se a resposta a essas questões fosse positiva, a negritude da família do gerente passava a ser simplesmente ignorada. Ninguém mais parecia ser capaz de perceber sua cor, nem se lembrar de que a pele fora uma questão em algum momento. Exceto, é claro, se por acaso algum dos filhos do gerente resolvesse namorar a filha dum teuto-brasileiro.

Se a ausência de interação entre brancos e outras etnias tornava difícil avaliar até que ponto o racismo de varejo expresso no discurso cotidiano podia ser transformado em discriminação concreta por parte de um indivíduo específico, o racismo estrutural na sociedade teuto-brasileira, a essa altura do relato, deve estar bastante claro. Havia negros, eles apenas não circulavam nas cidades porque viviam em roças, sem acesso à educação ou oportunidades de emprego entre os alemães de classe média. Mesmo as empregadas domésticas eram, em geral, recrutadas entre famílias de colonos pobres. Não raras vezes, eram parentes menos favorecidas. A rede de relações nesse tipo de comunidade era muito estreita para deixar passar forasteiros. Sobretudo se fossem negros ou judeus, mas “brasileiros” e mesmo alemães de confissão protestante, nos círculos católicos, eram vistos com desconfiança.

Crianças da Juventude Hitlerista em Presidente Bernardes, São Paulo, por volta de 1930

A combinação entre a autossuficiência típicas de comunidades pequenas e o imaginário peculiar do teuto-brasileiro levava com frequência ao desenvolvimento do chauvinismo e, nos casos mais graves, adesão aberta aos ideais nazistas. Embora a maior parte dos colonos nunca tivesse pisado na Alemanha ou na Áustria e poucos deles houvessem convivido com parentes nascidos naquelas terras, sentiam uma forte conexão com elas. Durante a II Guerra, muitos torceram a favor da Alemanha. Meu bisavô escutava o noticiário do governo nazista via rádio de ondas curtas todos os dias — atividade proibida pelo governo Vargas quando seu romance com o Eixo foi interrompido pela súbita paixão por um ricaço chamado Tio Sam e que dava cadeia; meu tio-avô certo dia vestiu a farda do serviço militar, deu a volta por trás da casa e bateu à porta gritando “Polícia, sabemos que alguém aqui apoia os alemães!”, quase causando um infarto no velho.

Conforme historiadores como René Gertz e Eliane Bisan Alves, porém, a eventual simpatia por Hitler na colônia alemã era devida mais a uma certa nostalgia e idealização da antiga pátria do que a uma subscrição aos princípios ideológicos do nazismo. A maioria dos teuto-brasileiros não conhecia o programa político do nacional-socialismo, mas reconhecia o investimento de agentes e empresários ligados ao partido em instituições como clubes de tiro e caça, associações de canto coral e igrejas, entre outras atividades queridas dos descendentes germânicos. Embora a filiação ao partido nazista do Brasil tenha sido pouco expressiva entre os colonos e se concentrado em São Paulo, especialmente entre os funcionários de empresas cuja matriz ficava no Reich, Hitler era tido por muitos como o herói de seu modelo de nação.

Assim como tinham pouco conhecimento sobre a ideologia nazista, os teuto-brasileiros eram desinformados sobre suas próprias raízes germânicas. Embora a maioria dos imigrantes tenha saído das regiões da Renânia e Palatinado, com alguns grupos expressivos da Renânia do Norte e Vestfália, a principal comemoração no calendário das colônias é a Oktoberfest, uma festa típica da Bavária. De fato, a primeira Oktoberfest foi realizada para celebrar o casamento do príncipe herdeiro e futuro rei Ludwig I, em 1810, poucos anos antes da primeira leva de imigração para o Brasil. As Volksfesten do Palatinado incluíam cerveja, mas não homens adultos de calças curtas, suspensórios e chapéu de feltro. Uma das principais mercadorias agrícolas da região é, na verdade, o vinho produzido a partir de uvas cultivadas nas encostas do Vale do Mosela e do Reno, introduzido pelos romanos.

Piscina com suástica desenhada no fundo, em Pomerode, Santa Catarina. (Diário de Santa Catarina)

Os fatos históricos, é claro, não impedem os teuto-brasileiros de criarem sua própria imagem da cultura antepassada. Na parede dum clube em Porto Alegre, se encontra até hoje um mapa da Alemanha que é, na verdade, o mapa do II Reich de Otto von Bismarck, incluindo a Polônia até Königsberg (atual Kaliningrado). As cucas, um tipo de pão doce com cobertura de farofa de açúcar, são consumidas com linguiça, embora a Streuselkuchen da qual a receita tenha sido adaptada, aparentemente, não seja acompanhada de Wurst na Silésia, onde surgiu no século XIX. Por outro lado, o pão de milho ou de aipim está presente em todo Kerb, ou quermesse, que se preze.

A introspecção das comunidades teuto-brasileiras, a valorização do sangue e a idealização desinformada da terra de origem dos antepassados levam à normalização do racismo e podem ser teratogênicas em alguns casos. Embora meu avô fosse um ativista social católico, ostentando em seu currículo a construção dum asilo para idosos indigentes, e meus tios fossem todos de esquerda, alguns inclusive sindicalistas, as infames obras de Siegfried Ellwanger Castan — Holocausto: judeu ou alemão? e Acabou o gás! O fim de um mito, por exemplo eram leitura recomendada na família. Um dos padrinhos de casamento do meu pai tinha entre seus bens mais preciosos uma pistola Luger P-08 e de vez em quando passeava pela cidade usando um boné da Afrika Korps. Nada disso causava espécie entre os concidadãos e talvez até hoje, embora possa ser claramente enquadrado como discurso de ódio, seja possível passar incólume com esse tipo de comportamento.

A noção de que a política identitária seria a principal responsável pelo ressurgimento do nazismo deveria ser ridícula para qualquer pessoa com a mesma história de convivência com descendentes de alemães. O racismo e até mesmo a admiração pelo III Reich sempre fizeram parte dessa cultura — mais proeminente em alguns casos, menos em noutros, dependendo, acredito, muito do grau de isolamento e afluência econômica da comunidade. Ao contrário do caso americano, se podemos acreditar nas análises da Fox News, nunca conheci um admirador do nazismo que estivesse passando por dificuldades econômicas. Pelo menos na minha experiência, esta sempre foi uma atividade da classe média de colarinho branco. Os colonos agricultores, suponho, se preocupavam mais com a roça por capinar do que com a conspiração judaico-feminista para transformar todo homem branco heterossexual num comunista gay.

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http://an.fi.bo.lo.gi.a Dubiedade de sentido apresentada por uma construção sintática.

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