Ah, mas nem todo homem…

Sim. Todo homem. Sem exceção. Todos. Os. Homens.

O machismo mata. Mata todos os dias. Mais precisamente, 13 mulheres por dia, no Brasil. Ele também estupra, assedia, agride. É tão violento que nos esquecemos de que não é apenas quando ele deixa cicatrizes no corpo que machuca. Violências psicológicas e relacionamentos abusivos estão por todo o lado também, ferindo muitas mulheres.

E quando a coisa é mais sutil ainda? Quando não é necessariamente um relacionamento abusivo, mas sim pequenas agressões que enfrentamos todos os dias de nossas vidas, desde que — e apenas porque — chegamos ao mundo portadoras de um útero?

Fresh Off The Boat

Não adianta: nossa sociedade é machista. Por mais descontruidão da PORRA que um cara seja, em algum momento ele vai ter alguma atitude machista. E sim, estou dizendo todos os homens mesmo, sem exceção alguma. Absoluta e invariavelmente todos.

Não, não odeio homens. Longe disso! Tenho homens maravilhosos na minha vida que amo muito. Porém, não sou ingênua a ponto de achar que eles não têm atitudes machistas. Pelo contrário, já as vi acontecendo e os alertei sobre isso.

É apenas um fato. Em uma sociedade de privilégios masculinos, homens e mulheres são criados e tratados de formas diferentes ao logo de sua vida. E isso tem ficado cada vez mais claro para mim. Tenho cada amiga MARAVILHOSA que vocês nem acreditam. Inteligentes, engraçadas, divertidas, bondosas, lindas, cheias de estilo, com um baita de um bom gosto. E já vi 99.999% delas sofrendo por um boy mais lixo que o outro. Uns caras bem toscos mesmo. É de partir o coração. E de dar raiva, muita raiva.

Desde muito novos, homens são levados acreditar que estão sempre certos e que o mundo gira em torno deles. Sério. Vocês já pararam para prestar atenção em ego de macho? Já perdi as contas de quantas vezes um cara achou que estava dando em cima dele única e simplesmente porque havia sido simpática. Enquanto isso, nós mulheres aprendemos desde pequenas a duvidarmos de nós mesmas, além de sermos jogadas umas contra as outras o tempo todo.

Não quero dizer que todos os homens são ativamente machistas, com a plena consciência de que estão ferindo uma mulher de alguma forma. Contudo, quando você está inserido na lógica do patriarcado (como estamos todos), em que você é o principal beneficiado pelas injustiças causadas por ele, basta um empurrãozinho para ter uma atitude machista.

A mais comum — e talvez uma das mais perversas — é dizer “você está louca”, “isso é coisa da sua cabeça”, “não sei de onde você tirou isso” ou “você está exagerando”. Essas frases têm o mesmo efeito: jogar a culpa na mulher. Essa pessoa doida, desequilibrada, histérica, avoada, que inventa coisas, é sensível demais, basicamente um monstrinho nervoso e irritado que tem uma hemorragia por mês e não morre.

É difícil não se afetar por essas palavras, ainda mais quando você tem um mundo inteiro fazendo de tudo para que você tenha uma autoestima péssima. Nós já duvidamos de nós mesmas, aí chega alguém muito mais confiante de si reiterando todas as nossas inseguranças!

Além disso, é claro que queremos estar erradas. Não queremos acreditar que alguém de quem gostamos poderia fazer aquilo que supostamente é fruto da nossa imaginação. Por esse motivo, acabamos, muitas vezes, internalizando a ideia de que somos loucas, por exemplo. E isso é absolutamente injusto conosco.

“Quer saber por que uma garota age como louca? Olhe para o namorado dela!” — Mike Tyson em How I Met Your Mother

Quase sempre não é coisa da nossa cabeça. Entretanto, é muito mais fácil para os moços fingir que nós somos doidas do que de fato assumir a besteira que fizeram. É muito mais cômodo poder se aproveitar dessa vantagem criada pelo machismo do que ser um adulto maduro e assumir responsabilidade pelas suas ações.

Esse é o famoso gaslighting, que junto com o mansplaining e o manterrupting, forma a tríade dos comportamentos machistas que os homens nem percebem, porque elas já estão absolutamente normalizadas. São essas coisas que nos fazem duvidar de nós mesmas, das nossas ações, das nossas habilidades, das nossas ambições, acharmos que nunca somos boas o suficiente. É impossível não se deixar afetar quando passamos por essas situações centenas de vezes ao longo de nossas vidas, praticamente em toda interação com um representante do sexo masculino.

Por isso, acho que o papel de qualquer homem que diz apoiar o movimento feminista é reconhecer: (1) seus privilégios; (2) suas falhas. Tudo o que disse acima é muito mais resultado da realidade em que estamos inseridos do que de preconceitos pessoais. Contudo, é responsabilidade dos indivíduos reconhecerem seus erros e se esforçarem para não repeti-los.

Isso é tudo o que peço. Homens, sejam modestos. Respeitem que as mulheres sabem mais do que vocês sobre machismo, porque sentimos na pele e enfrentamos isso diariamente. Se alguma de nós apontar um erro seu, ao invés de desmerecer, dizer que estamos erradas ou nos chamar de loucas, reconheça que nós podemos ter razão. Nós só queremos ajudar.

Reveja sua atitude. Reflita sobre isso. Tente entender melhor. Nos trate melhor. Seja melhor.

Não é porque você nunca levantou a mão para sua namorada que você não tem atitudes machistas. É o velho ditado: não fez mais que sua obrigação.

P.S.: demorei muito para escrever esse texto, pois reconheço que é um problema muito menor comparado com o feminicídio, por exemplo. No meu lugar de mulher branca de classe média, me senti quase uma criança mimada falando sobre isso. Mas, no meu contexto, é algo importante e acredito que alimenta esse realidade que permite manifestações machistas muito mais agressivas.

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