Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

Como o mito do “siga seus sonhos” criou uma geração de jovens deprimidos

Faço parte de um grupo de pessoas bem peculiares, que constantemente é objeto de alguma pesquisa por aí: a geração Y. Somos odiados por todos os mais velhos, que ainda por cima nos culpam por tudo o que existe de errado no mundo, ainda que estejamos aqui há bem menos tempo que eles.

Não existe consenso sobre o período de nascimento dos millennials, mas é algo entre 1980 e o começo dos anos 2000. Somos definidos como a primeira geração a ter nascido na era digital, o que significa que a tecnologia está inserida no nosso dia a dia desde que temos consciência de sermos pessoas. Além disso, somos mais progressistas e mais tolerantes que as outras gerações e somos menos fãs de instituições, como as igrejas.

Somos a geração da prosperidade. Tivemos vacinas para nos ajudarem a sobreviver à infância, a Alemanha não está comprando briga com metade da Europa há várias décadas, não tem ditadura para derrubar (ainda, pelo menos) e nossos pais entenderam que filho não é só para perpetuar a espécie, pode amar e dar carinho também. Provavelmente, nunca houve uma época tão boa para ser um serumano.

Mas aí é que está a pegadinha. Crescemos e vivemos num ambiente muito mais acolhedor e saudável do que nossos antepassados. Vivemos rodeados de amor e gente nos falando que somos incríveis, maravilhosos e nos perguntando o que gostaríamos de ser quando crescêssemos e falando “acho que dá sim” quando a resposta era sereia.

Desde pequenos, fomos incentivados a seguir nossos sonhos ou ir atrás do que realmente gostamos. A essas ilusões sobre sermos especiais somam-se as ideias de gente como o Sartre, que disse para não aceitarmos os modelos dados e acharmos nosso próprio modo de viver. E foi aí que criamos um baita de um problema.

Na teoria, deixar as pessoas livres para serem quem são é incrível, pois ninguém deveria ser obrigado a viver uma vida que não traga prazer e satisfação. E lá fomos nós buscar essa vida como um rato caindo numa armadilha ao tentar comer um queijinho.

Assim, enquanto nossos pais e avós viviam suas vidinhas pacatas tendo exatamente a mesma rotina durante 50 anos e não vendo muita graça na sua existência, nós vivemos em completo desespero, angústia e ansiedade — o mal do século XXI. Mas, nossa gente, por que isso? Porque a partir do momento que as pessoas dizem para você FAZER AQUILO QUE VOCÊ REALMENTE GOSTA você precisa descobrir O QUE VOCÊ REALMENTE GOSTA. E, velho, como isso é difícil.

São tantas opções, mas tantas opções que chega quase a ser ridículo. Quem nunca viu uns cursos de faculdades e ficou em choque que existe uma graduação inteira para cuidar de velhinhos? Como escolher entre tantas possibilidades? Como saber o que você REALMENTE GOSTA aos 17 anos sendo que o único conhecimento que você tem sobre a vida é que o sistema circulatório dos peixes é simples e completo?

— disse todo jovem que descobriu que o mundo é péssimo

E ainda tem uma grande pegadinha. É possível fazer isso! Tem gente que realmente gosta do que faz, ainda que essa seja a exceção. E a partir do momento que existem exemplos reais nos perguntamos: “por que essa pessoa feliz e contente no trabalho não pode ser eu?”. Então, além de acabarmos levando uma vida que não gostamos, ainda temos de viver com a sensação de que poderíamos ter algo melhor. A nossa frustração tem o tamanho da diferença entre a vida que temos e a vida que gostaríamos de ter.

Nós fomos o teste. Ninguém nunca teve toda essa liberdade de escolha antes, ninguém soube nos preparar para isso e, como quase tudo em que a humanidade toca, deu ruim.

A prova disso é que as palavras eternizadas na voz da magnífica Elis Regina fazem ainda tanto sentido que não me espanto ao ver um bando de gente de 20 e poucos anos se esgoelando no refrão em um karaokê na Liberdade, 40 anos depois de Belchior mostrar que o farol está fechado para nós, que somos jovens.

O que separa a gente — os jovens de 2016 — dos jovens de 1976 é que tivemos muito mais dificuldade em perceber que ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais, apesar de tudo, tudo, tudo o que fizemos. E, olha, nós fizemos tudo mesmo.

Inventamos carreiras, inventamos amores, inventamos famílias, inventamos lares. Tudo isso para, no fim, acabarmos no mesmo lugar: em casa, entediados, pensando “que cazzo eu fiz da minha vida?”. A diferença é que nossos pais baby boomers chegaram aí aos 40 e poucos. Alguns de nós mal saíram da faculdade.

#somostodosTed

O pior de tudo são as pessoas que acham que conseguiram, que encontraram aquilo que gostam de fazer, só para descobrir que não gostam tanto assim. Porque, apesar de termos um milhão de profissões diferentes, trabalhar é sempre a mesma coisa. Não há sujeito que não fique de saco cheio de todo dia fazer o mesmo caminho para chegar ao mesmo escritório para conversar com as mesmas pessoas durante o almoço no mesmo restaurante e para fazer o mesmo trabalho para os mesmo patrões que não estão nem aí para você.

A consequência é que agora temos infinitas linhas na lista das coisas-que-eu-não-faria-nem-se-me-pagassem-um-milhão-de-reais, enquanto na coluna das coisas-que-eu-não-desejaria-morrer-todo-dia-se-eu-fizesse só consta crazy cat lady — e mesmo assim estamos revendo essa escolha porque é muito caro sustentar um gato, imagina 50.

Deveríamos estar ansiosos para o nosso futuro, mas, além de não fazermos ideia do que queremos, estamos assustados e com medo. A filosofia de vida mais famosa atualmente é a clássica “é o que tem para hoje”: aceitamos qualquer coisa que não represente o inferno na Terra para nós e seguimos encontrando felicidade nos pequenos momentos e chorando no banheiro do escritório.

Talvez o Rousseau estivesse certo. Vamos vender nossos filhos e morar na floresta.

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