Liberdade é pouco

Eu não acredito em Deus. Apesar de ter sido batizada, feito catequese, estudado em colégio católico, participado de missas e até rezado antes de dormir quando era criança, hoje em dia sei que nada disso faz sentido para mim. Com o tempo, entendi que não precisava ter uma religião só porque a maioria das pessoas tem e fui abandonando essas práticas completamente.

Confesso que também não vejo essas instituições com bons olhos. Acho que muitas crenças acabam tornando seus fieis pessoas piores, cheias de preconceitos e pré-julgamentos e eu nunca conseguiria viver sob algumas das imposições que elas fazem por aí. Contudo, nos últimos tempos, tenho começado a criar certa inveja de quem acredita em uma entidade divina.

A ideia de que existe alguém olhando por nós e de que a nossa existência tem algum sentido maior me parece bastante acolhedora. A possibilidade de termos um destino já definido e de que tudo acontece por uma razão confere ao indivíduo uma tranquilidade que torna mais fácil aceitar os acontecimentos como eles são. O problema é que para mim simplesmente não desce.

Acredito que um dia a Terra se formou e foi se transformando até que eventualmente começaram a surgir uns seres estranhos que evoluíram até essa coisa bizarra que a gente chama de ser humano. Não há razão, explicação, motivo. E acabou. Acasos e aleatoriedades geraram a vida e continuam determinando nossa existência.

É bem complicado viver assim, entretanto, com essa sensação de que somos completamente insignificantes e de que nada realmente importa porque, no fim, vamos todos morrer (alô, Nihilist Memes!). Um pouco depressivo, não?

Falei em outro texto que estou passando por uma crise existencial muito forte, sem ter ideia alguma do que quero fazer com as muitas décadas que ainda me faltam. Estou sendo obrigada, portanto, a fazer uma complexa autorreflexão para tentar encontrar alguma resposta. O primeiro passo desse processo é descobrir o que me faz bem e me apegar a isso. O segundo, descobrir o que realmente importa para mim.

Pois bem. Não é dinheiro. Não é carreira. Não são bens materiais. A resposta é bem mais simples: são as pessoas. Essa é a única coisa que tem algum valor real. Por mais brega e clichê que possa parecer, dar e receber amor deveria ser a motivação principal de todos nós. E de fato tem sido para mim.

Tento sempre ser a melhor versão de mim mesma e fazer o bem para as pessoas que amo. Infelizmente, sou meio atrapalhada e, de vez em quando, acabo cometendo alguns erros e magoando os outros. Porém, como uma amiga muito especial e paciente sempre precisa me lembrar, isso não faz de mim o pior ser humano do mundo, apenas mais um ser humano cheio de falhas como todos os outros. Então, apenas continuo tentando.

A questão é que ser bom com aqueles com quem nos importamos é fácil (ou, pelo menos, deveria ser). O desafio mesmo é entender que todas as outras pessoas do mundo também merecem a melhor versão de nós. E digo todas as pessoas mesmo, incluindo desconhecidos e até aqueles de quem não gostamos. Em Do que é feita uma garota, Caitlin Moran diz: “o mundo é difícil, e todos nós somos frágeis. Então, seja gentil”. Desde que terminei esse livro, essa frase me acompanha em todos os lugares que vou.

Quando entendemos isso, tudo fica mais claro, mesmo que fique também mais difícil. Todos nós estamos presos a esse universo, à vida, às dúvidas, às incertezas, à existência. E ninguém sabe muito bem o que está fazendo e estamos todos tentando. É aquela máxima: não está fácil para ninguém.

Todos temos problemas. Todos. Não sabemos quais são as cruzes que os outros carregam, mas elas estão lá. E também não acho que algumas dores devam ser invalidadas porque existem coisas piores que poderiam acontecer. Cada um sente de um jeito diferente. Enquanto alguns passam fome, outros sofrem de doenças mentais. Enquanto uns não têm onde morar, outros perderam alguém querido. É uma pirâmide de Maslow de problemas: alguns são mais imediatos, mas todos machucam.

Em um discurso de 2005, David Foster Wallace fala de algo semelhante. O autor relembra que o mundo não gira ao nosso redor, existem outras pessoas por aí e elas são tão importantes (ou tão insignificantes) quanto nós e é nosso dever reconhecê-las enquanto indivíduos completos. Ao invés de descontar nossas irritações em cima da atendente de caixa que está demorando demais, devemos aceitar que ela deve estar tão frustrada quanto nós e não merece tal tratamento.

Mais adiante em seu discurso, Wallace fala uma das coisas mais importantes que já li: “A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros — no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita”.

Esse é o meu ponto. Cada um tem suas dificuldades e suas mágoas. E absolutamente nada nos dá direito de colocar as nossas questões acima das dos demais ou de causar ainda mais mal a eles. Devemos o tempo todo nos lembrar disso. Importar-se genuinamente com os outros o tempo todo pode parecer (e na, verdade, é) difícil e desgastante, mas só assim podemos ter uma vida verdadeiramente completa.

Funciona assim: o trânsito está horrível e você está atrasado para um compromisso. Decide então que vai cortar todo mundo e passar no farol vermelho porque não pode perder tempo. O que precisa ser entendido é que não importa o que esteja acontecendo com você, não está certo prejudicar os outros por causa disso. O seu mau humor não é um passe livre para destratar os demais.

Isso tudo é muito óbvio para mim e não consigo entender como não é para todos. Fico bem chateada ao perceber como as pessoas desconsideram a existência dos outros. E essa falta de consideração generalizada é evidenciada nas menores atitudes: ficar parado do lado esquerdo da escada rolante, não dar seta para virar, furar fila.

Os exemplos do individualismo e do egocentrismo humano são infinitos — coloque na lista corrupção, desonestidade, desrespeito, desigualdade, etc. Talvez essa mudança de atitude exija um nível de altruísmo muito maior do que algumas pessoas podem oferecer. Então, apelo para o egoísmo: não faça com os outros o que você não quer que façam com você.

Entendam, não é que eu seja a Madre Teresa. Pelo contrário, vira e mexe despejo minha raiva em cima das pessoas ou sou extremamente egoísta também — só realmente nunca furo filas. Porém, me sinto verdadeiramente mal quando faço alguma dessas coisas, a ponto de chorar desesperadamente. Ser um boa pessoa é uma grande preocupação para mim, então quando me desvio um pouco desse objetivo, fico bastante decepcionada comigo mesma.

Estou sempre me policiando. Tenho muitos deslizes. Às vezes cansa muito. Também quero sair por aí cortando os outros no trânsito de vez em quando. De tempos em tempos penso em desistir. Mas não consigo. Isso faz parte de quem eu sou. Tentar fazer diferente exigiria uma mudança muito profunda no meu ser.

Acho bem mais fácil simplesmente ser gentil.

Um resumão para quem ficou com preguiça de ler tudo

P.S.1: David Foster Wallace se suicidou três anos depois daquele discurso. Realmente não está fácil.

P.S.2: Não acredito em Deus, mas acredito em astrologia. Para mim não é incoerente, podemos conversar sobre o assunto.

P.S.2: Foi muito difícil escrever esse texto, pois essa é uma questão fundamental para mim. Levei mais de duas semanas para concluí-lo e a versão final está bem diferente do primeiro rascunho. Durante o processo, fui descobrindo novas coisas que penso e acredito, encontrando novas visões e mudando o foco do texto milhões de vezes ao melhor estilo Michael Scott. Ainda fiquei ouvindo música e várias vezes parei para cantar e dançar.