A Chave

Por que sempre perco a chave bem na hora de sair de casa? Isto é particularmente torturante para alguém que mora sozinho, pois as chaves proporcionam a proteção e o aconchego do lar ou, sem elas, o abandono ao relento, não há meio termo. A não ser que se tenha uma grande família, como outrora já tive, as portas da casa nem são trancadas, há muito ir e vir, a privacidade é tão escassa quanto a atenção dos pais.
Quando criança, eu só possuía uma única chave, que era o acesso a meu mundo mágico secreto particular: o meu diário. Com histórias de aventuras e sonhos infantis, foi como uma mensagem cuidadosamente colocada em uma garrafa para flutuar no mar do tempo, e os anos vividos, tal como a maré, as trouxessem para a mulher que eu seria no futuro. Quem dera eu fosse hoje tão madura quanto imaginava que seria…
A chave é um objeto insignificante, frio e pequeno, mas o significado da palavra amplia ou limita, abre ou fecha. Quando jovem, eu queria abrir portas, ultrapassar obstáculos, alcançar a tão sonhada estabilidade. Mas como uma seta lançada em chamas, ao atingir seu alvo, minhas metas se extinguiram. Dolorosamente admito que ainda me falta encontrar a chave da felicidade, ou talvez agora eu queira mesmo é esquecer de qualquer chave e escancarar as portas, ainda que o preço seja revelar meus sentimentos tão explicitamente como uma fratura exposta.
Aí, então, vou fechar o ciclo com chave de ouro. E, mesmo com o descompromisso de ter que provar algo mais a alguém, o maior troféu da velhice — é bem provável que, já no fim da vida, eu ainda continue buscando outra chave. Mas aí me pergunto qual se encaixaria melhor no meu futuro? Acho que Clarice Lispector me responderia: “Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem a sua chave e a dos outros nada resolve”.
