Imagem ©2017 ClipartPanda.com

A Fila

Vou para o posto…tenho que me vacinar. Engraçado, este é um verbo que não conjugo há muito tempo, desde criança, na verdade. Lembro-me do horror da fila, vendo meus amigos logo à frente enfrentando aquela agulha sinistra, em fila indiana, que mais parecia rumo a um abatedouro. Agora, não, agora é diferente…. As filas são formadas por meio de senhas e o público espera sentado. Seria um benefício dos tempos modernos, se o espetáculo torturante não fosse ainda pior que aquele de meus tenros anos de idade. Sentamos lado a lado, como se estivéssemos em um teatro onde são permitidas conversas inúteis, enquanto se assiste ao espetáculo mambembe do serviço público de saúde, atendendo um povo de todo tipo, em sua maioria, velhos, mães e seus chorosos rebentos.

A demora é grande, começo a sentir sede e fome, o que parece acrescentar mais acidez pouco a pouco a meu olhar. Um bebê começa a chorar aos berros no colo de uma mãe desolada que mira fixamente os enfermeiros como se fuzilar com os olhos pudesse agilizar sua permanência no local. Mas aí me distraio com alguém ao meu lado que elucubra sobre a aparente capacidade dos pulmões da criança: “nossa, não parece um cantor de ópera? ” E, se você não quiser estender mais esta conversa tão elucidativa, é melhor sorrir de leve e fazer olhar de paisagem. Neste momento, uma velha entra com determinação na sala e, como se a prioridade concedida pela idade lhe desse o direito de ter aquele irritante ar de superioridade, ela para de pé ao meu lado, olhando-me do alto. Vi, então, que fui sorteada e cedo meu lugar, embora achasse que ela estava em bem melhores condições físicas que eu. Dizem que são os médicos ortomoleculares que revertem a velhice em juventude, sei lá… Como já era de se esperar, ela resolve jogar a armadilha: “Obrigada, minha filha… O mundo anda mesmo precisando de pessoas assim.” Eu sorrio de leve para agradecer o duvidoso elogio. “Você vê, né? Hoje em dia, mais parece estar tudo de pernas para o ar, ontem mesmo eu fui…” Eu aceno com a cabeça como se estivesse interessada, mas o restante do discurso, dores e dificuldades chega a meus ouvidos como um rádio fora de sintonia. Como estava de pé, olhei ao redor e, naquele mar turvo de gente, havia dois pontos brancos, seriam mães de santo? Bem, se com toda a vestimenta e paramentos, elas ainda permaneciam esperando da mesma forma que eu, vou me resignar, vai ver trata-se de um plano divino, uma espécie de provação, quem sabe depois disto não garanto meu lugar no céu?

Em meio a este calvário, minha visão vai ficando turva, o calor insuportável se converte em chamas, e os lamentos de tantas mulheres, crianças e velhos formam o cenário completo de um inferno à brasileira com cheiro de éter. Os enfermeiros têm chifres e caudas vermelhas em meio ao mobiliário frio decadente numa decoração desconexa e reaproveitada de repartição pública… O que eu fiz para merecer estar ali? Olhei à minha volta para ver se encontrava o dono do lugar: o próprio diabo em pessoa vestindo jaleco. E o tal capeta, então, me responderia: “Morrer você não morreu, minha cara, nem precisa, você já vive no inferno. ”