A palavra e o espelho

Narciso
Por Caravaggio, 1594–1596
Galeria Nacional de Arte Antiga

“Você seria capaz de escrever um conto a partir de duas palavras com significados bem distintos? ” Os olhos da professora brilhavam com o desafio lançado como uma flecha para a turma. As palavras impressas em cartõezinhos azuis foram, então, espalhadas sobre a mesa para que, secretamente, escolhêssemos duas. Foi um enxame de palavras girando, girando, zunindo em minha cabeça, um balé sedutor, umas sorriam para mim, outras se aproximavam e me aguçavam os sentidos. Como escolher? Toda palavra é um universo, carrega ideias, significados, metáforas, sentimentos… Cada palavra dá as mãos para outras tantas que formam a sintaxe, o tricô dos nós das sintaxes formam o texto, o texto povoa as páginas e as páginas geram os livros. Alimento para minha vida. Já ouvi uma vez que nós somos o somatório das milhares de pessoas que conhecemos, mas eu sou mais o produto de tudo o que leio, qualquer que seja a fonte que me seduza à leitura.

Duas palavras, então, flutuam ao meu redor e, brilhando mais que as outras, ofuscam meus olhos: palavra e espelho! “Eu quero estas duas! ”, eu gritei. Pronto, achei que havia resolvido meu repentino dilema, mas outro surgiu, o que as duas teriam em comum para que se formasse um conto? Pronto, perdi a paz, nada me vinha à mente.

Resolvi perguntar ao espelho o que ele achava disto. Meu reflexo foi rápido em responder: “Minha cara, você ama ler e é muito vaidosa, daí sua atração por estas palavras, ué? ”. “Sim, é verdade”, retruquei, “mas deve haver um significado mais profundo, que você não vê, você é muito raso, só enxerga as aparências.” Virei, então, para a palavra e indaguei: “O que você acha disto? ” E com desenvoltura e charme, característico de toda palavra, ela respondeu que seria muito simples. “Eu sou o reflexo da alma de quem me profere, assim como você vê o estado de sua alma no reflexo de sua cara no espelho, não é mesmo? Porém, a imagem que eu e o espelho passamos guarda um perigo: ela está sujeita à interpretação de quem a lê. Veja, minha querida, se os olhos são janelas da alma, nós, as palavras somos, então, o espelho dela.”

Neste momento, a palavra e o espelho se olharam com carinho e deram as mãos, são agora irmãos que soltam uma gargalhada e começam uma alegre ciranda de comemoração. Eles nada tinham a ver um com o outro, mas encontraram profundas afinidades. E eu, em transe, assistindo o espetáculo em silêncio pensei em quanto os dois tinham para ensinar à humanidade que só vê diferenças e se mata por não ver seu reflexo no outro. Como já diria o Caetano: “Narciso acha feio o que não é espelho…”.