A Praça

Naquele velório, ao olhar as pessoas indo e vindo, sentia-se uma escafandrista observando os cardumes no fundo do oceano frio. Flutuava. Não ouvia nada além da própria respiração. Vai ver o nada está mesmo um pouco além do tudo, pensou. Não era só da mãe que se despedia naquele momento, mas também da melhor amiga, confidente, conselheira, muitas pessoas numa só. E a dor do vazio a fez sufocar, e teve vontade de fugir. Então saiu.
Ao alcançar a rua, olhou em volta e percebeu que aquele bairro era familiar. A cada passo, a paisagem ia trazendo à tona memórias de uma infância esquecida. E foi bem no meio de sua caminhada sem rumo que se deparou com a praça sombria e sem cor. Não conseguia acreditar. Tudo continuava igualzinho, igualzinho, embora parecesse bem menor agora. Era a “sua praça mágica”.
Parou para contemplar como se estivesse diante de uma grande maravilha. Sentou-se, então, num banco que também lhe trouxe lembranças. Ela ainda era pequena e, quando estava no alto do escorrega logo à frente, avistou uma estranha. Era uma mulher bem distraída, sentada de cabeça baixa no mesmo lugar em que ela estava agora. Criancinha que era na época, sentiu aquele ímpeto infantil de alegrar um adulto, então correu até ela. Mas a moça nem se deu conta. Para conseguir a atenção dela, resolveu dizer algo. O que disse mesmo? Ah, sim! Algo sobre a vida não ter fim. Pensou consigo mesma que era uma frase bem estranha para uma criança. De onde ela teria tirado isto? E riu sozinha. O fato é que acabou pregando com aquela frase um baita susto na mulher. Sua mãe, que a observava de longe, gritou: “Vamos embora, Lilica!” Nossa! Isso mesmo: Lilica! Emocionou-se ao recordar o apelido. E foram muitas e muitas outras cenas passando em sua mente. Foi como um transe.
Nem se deu conta de quanto tempo ficou assim inerte com o olhar fixo no chão. E foi sua distração que a fez levar um susto com a aproximação repentina de dois pezinhos miúdos. Nem teve tempo de levantar os olhos quando escutou uma voz de menininha: “Moça! Fica triste, não! Você sabia que a vida não tem fim?”. Levou um grande choque com a frase que conhecia tão bem. Como ela sabia? Mas, quando levantou os olhos, só deu tempo de ver a menina se virando de costas, correndo para a mãe que a chamava ao longe: “Vamos embora, Lilica!”.
