Foto tirada em 2014 no Museo Rafael Larco Herrera, em Lima, no Peru

Guerra é Guerra

“A vida de solteiro é uma guerra, meu amigo! ”, alertou um camarada meu que há muito havia escolhido ser o único e exclusivo dono e usuário de seu controle remoto. Aos poucos, fui entendendo o que ele quis dizer, uma imagem que, a princípio, me pareceu bem assustadora para ser sincero.

Meu fim de casamento foi o que foi como para muitos é. Minha mulher foi ficando cada vez mais distante e gelada, não havia mais brilho nem calor em sua presença, somente obrigações, contas atrasadas, dificuldades escolares de nosso filho, uma lista interminável de reclamações e lamúrias. Sexo? Não havia nem clima, talvez uma boneca de sex shop fosse mais carinhosa. Ela, por sua vez, um dia me confessou sentir mais atração pela tela de computador que por mim. Uma lástima. Amigavelmente, desfizemos tudo o que se dizia um lar e ela se foi com meu garoto para outra cidade distante, buscando o auxílio da mãe.

Sinceramente, no início, achei que seria bem difícil para mim, mas comecei a entender meu amigo, o preço de estar sozinho, na verdade, foi a paz, o controle remoto só para mim, a bagunça e sujeira da casa, a falta de banho de quem dorme sozinho. Uma maravilha. Após um tempo, as roupas limpas começaram a ficar escassas, e confesso que senti uma pontinha de saudade, então resolvi contratar uma empregada. Pronto! Não fosse a profunda saudade de meu filho, minha vida seria perfeita. Só faltavam, agora, as mulheres. Aí, então, entendi a imagem de uma perfeita e deliciosa guerra.

A primeira batalha é interior. É preciso ser estratégico antes de entrar em campo. O bom soldado escolhe bem os companheiros de sua legião que levará ao seu lado no front. É preciso criar um profundo companheirismo, para não ser abandonado abatido de tão bêbado, nem deixar o companheiro ser capturado por outro exército inimigo incompatível com suas estratégias iniciais. É preciso ter pelo menos uns cinco bons companheiros para cobrir todo o terreno.

Depois disto, com o batalhão formado, começa-se a avançar em direção ao território a ser docemente dominado. Para isto, o bom soldado não pode sentir frio, sono ou cansaço. As batalhas, em geral, ocorrem na madrugada, depois de o soldado esvaziar seu cantil de cachaça, encher sua coragem com álcool para avançar. Neste momento uma boa camuflagem é essencial, talvez seu alvo não esteja preparado para lhe ver logo de primeira do jeitinho que você é, suas imperfeições e chatices, é preciso, primeiro, chegar despercebido, envolver e encantar para, aí então, dominar o terreno.

Hoje, meu amigo se orgulha de mim, diz que virei general bem rápido e já posso treinar outros soldados rasos. Até hoje, foram muitas batalhas enfrentadas, perdi várias delas, confesso, mas o fato é que a adrenalina da guerra vicia como cocaína. Não sei onde vou parar, mas também nunca vi um general voltar a ser soldado, a subida de patente é inevitável, até a aposentadoria. Mas aí será outra história.