Foto tirada em 2010, em Granada, Espanha

O Rei do Lar

Mesmo nos dias mais atribulados no trabalho, muita coisa a resolver, o tempo cada vez mais curto, eu nunca deixo de almoçar com calma. Deste momento eu não abro mão. É mágico e só meu, para relaxamento e contemplação do mundo ao redor.

Foi então que certo dia, já sentada no restaurante e começando a saborear meu prato, meus sentidos começam a captar todos os sons e movimentos para deixar minha imaginação fluir. A cortina de meu teatro particular, então, se abre para o início de um novo espetáculo. Um rapaz, na mesa ao lado, confessa muito animado para os amigos: “Sempre digo para minha mulher, estuda mesmo, trabalha bastante, se dedica, porque, quando você estiver ganhando bem mais que eu, eu paro de trabalhar e fico em casa! ”.

Fiquei admirada! Eu sou de uma geração cujos pais comemoravam cada título, emprego e aumento salarial obtidos por suas filhas: “Uma mulher, minha filha, tem que ser independente! ”, lembro-me bem de meu pai profetizando. Porém, em contrapartida, eles esperavam que seus filhos homens tivessem uma esposa bela, recatada e do lar. Resultado? Aliar a condição de alta executiva, esposa de um homem de sua faixa etária ou mais velho e mãe, ao mesmo tempo, se tornou uma quimera, um pote de ouro no final do arco-íris.

Já pensou, então, em quanto este rapaz era sensível à difícil dupla ou, possivelmente, tripla ou quádrupla jornada de sua esposa trabalhadora? Que homem mais raro este! E que mulher de sorte! Não resisti à tentação de imaginá-lo recebendo de avental a mulher em casa à noite, com a panela numa mão e a colher de pau na outra, todo sorridente e, após um beijo, dizer: “Amor, o jantar já está pronto! ” E, gritando da cozinha, avisa: “Já dei banho e a janta para as crianças, amor, e elas estão dormindo! ” Pensei logo que se tratava de um homem revolucionário e não demoraria para ele organizar um grande ato na Cinelândia para gritar, junto a outros tantos manifestantes, palavras de ordem pelo direito totalmente legítimo do homem de ser, sim (por que não?), dono de casa, queimando em uma grande fogueira todos os controles remotos da face da terra.

Meu louco devaneio foi logo interrompido quando ele acrescentou: “Ah, gente, imagina só! Eu ia ficar no sofá o dia inteiro, ia assistir a todos os jogos, todos os filmes possíveis, até novela não ia escapar! ”. É, não tem jeito, a verdade nua e crua sempre vem à tona. As cortinas de meu teatro, então, se fecham, encerra-se a peça de Nelson Rodrigues, um novo episódio de “A vida como ela é”, só que na versão sem cortes.