Perda ou Ganho?

Foto tirada em 2010 em “La Pedrera”, em Barcelona, Espanha

Não me lembro bem da primeira vez que me dei conta de sua presença em minha vida… Só sei que era constante, mas a atenção era muito dividida entre tantos afazeres e obrigações. O que importa é que me lembro mais da felicidade da infância do que de sua ausência, que foi dura, mas me preparou para as dificuldades que enfrentaria na vida adulta.

Só bem mais tarde eu soube que teve alguns sonhos ceifados pelo cotidiano, seu companheiro também não os aprovava, nem muito menos ele podia apoiá-la com a firme convicção de exercer seu papel de provedor. Mudaram-se constantemente, desbravaram cantos inóspitos, ele a abrir estradas de seu país e você, nos bastidores, enfrentou isolamento, mas dizia-se feliz ou talvez muito jovem para ser triste.

A vida, então, seguiu rápido seu script dos anos dourados, mas você só não esperava ficar viúva tão cedo. Ao acompanhar perplexa a doença corroendo lentamente as entranhas de seu companheiro de vida, percebeu consternada que, como um passarinho, seu maior alicerce estava morrendo dolorosa e silenciosamente sem que nada pudesse fazer. O duro golpe me fez vê-la chorar pela primeira vez na minha vida, aquela fortaleza desmoronou em um só golpe certeiro, e minha juventude pouco pôde fazer para ajudar, só conseguia assistir de longe assustada a profunda dor da ausência.

Em alguns anos, a fortaleza se reergueu ainda mais firme. Sua luz interior voltou e o sorriso largo recomeçou a iluminar minha vida e de todos a sua volta. Costumava usar um crucifixo pendurado no pescoço, que, para muitos seria um símbolo de sofrimento e sacrifício, mas para você era, muito pelo contrário, o maior símbolo de ressuscitação para uma vida nova. Era o que sentia ter acontecido consigo mesma, e acreditava nisto tão piamente, que se tornou quase sacerdotisa. A nova casa que abrigou, então, sua viuvez recebia muitas pessoas à procura de alento, um bom conselho ou uma oração improvisada que, segundo você, era inspirada por Deus.

Ao completar 77, ou uma sugestiva sequência de números 7, símbolo de totalidade e renovação para os cristãos, você foi arrancada sem anestesia de minha vida, causando uma hemorragia de lágrimas da noite para o dia. Seu último sorriso para mim foi, ironicamente, quando nos despedíamos de uma das tantas coisas que fazíamos juntas e eu, na pressa desavisada da juventude, perdi mais um abraço e um beijo maternal. Depois disto, o tempo devia ter parado, mas não parou, os violentos golpes da sequência implacável do anoitecer e amanhecer ruíram meus alicerces, que viraram pó, mas do pó vão se reerguer seguindo seu exemplo de ressuscitação. A ressuscitação que supera a morte cicatriza as chagas mais profundas na alma. A perda, então, vai se tornar um ganho. E a morte dará lugar à vida.