Sobre monstruosidade, hibridez e ser mulher negra na sociedade:

Quando assisto a “Estamira” não consigo ver outra cena que não seja a minha velhice e a velhice dos meus ancestrais, porque sempre somos tratadas como lixo, jogadas ao lixo, porém respirando muito tempo dentro do lixo, criamos autodefesa defronte àquilo que deveria nos matar.

É ato que desde muito cedo aprendi que ser negra não era coisa boa, que ter cabelo crespo, cacheado, pra resumir, tudo que fosse fora do padrão hegemônico da sociedade, era feio e precisava ser podado. Mas, eu resisti.

Durante muito tempo nas escolas que estudei, sofri o que dizem por aí de “bullying”, não isso é só mais um termo europeu, assim como feminismo, mas essa já é outra parte pra comentar, pra falar que nada verdade, o que meninas negras como eu, sofrem RACISMO, HOMOFOBIA, e tudo isso se somatiza quando a gente aprende a respirar nesse lixo todo. O nosso querido empoderamento, a nossa querida sorororidade, é baseada na solidão e na base do facão é que somos moldadas para sermos mulheres.

Eu aprendi a ser mulher, olhando-me no espelho no meio do abismo, do caos, de toda a desgraça que fodia e que fode minha cabeça até hoje, dizendo a mim mesma que eu era, e sou forte pra lidar e derrubar qualquer um.

Cresci, amadureci e apodreci. Não sei expressar sentimentos, não gosto de compartilhar minhas histórias e tudo isso se deu e se dá pelo fato de não conseguir confiar nada a mais ninguém. Pois, se nem meu corpo, quando quis compartilhar para sentir prazer, sofri violência, e achei que era amor, porque era muito igual ao que eu sentia diferente.

Me senti dentro de vários lixões como o aterro de Gramacho, e penso comigo mesma, será que em pleno século vinte e um, ainda vai precisar que lixos sejam jogados em cima de nós para que possamos virar documentário e ter “fama”, que é passada obviamente por homens. Asco que tenho só de pensar nisso.

Fodo mesmo, fodo porque gosto de foder e foder com força e se não for pra ser assim, eu degolo a cabeça e mudo de alvo.

Para ver a minha melhor parte, tem que passar pelo lixão, pela escuridão, pela desgraça e pela miséria que lá no fundo, mas bem fundo mesmo, é possível que encontre ainda um resto de amor. Isso se ele ainda existe.

Mas aprendi algo maior. Aprendi a respirar e a florescer no lixão. Ser hibrida metade mulher e a outra metade cobra. Rastejo e respiro e mordo se necessário for. Mas nunca mais, vocês vermes terão um gole do meu sangue, sagrado de ancestralidade.

Ângela Karolyna Lopo de Carvalho