O sonho

Acordou desesperado, mas não se mexeu. O furor era notado apenas na intensa movimentação dos olhos. Não era nistagmo. Girou a cabeça para a esquerda e depois para a direita. Estava sozinho. Sabia do dever de levantar, pois tinha algo a fazer. Planejava todo o dia ainda na cama, mentalmente. Algo pulsava dentro, em sua mente. Era uma imagem. Talvez uma lembrança. Não conseguia acessar. Girou o registro da esquerda apenas. Queria água muito quente. Não se lembrava do trajeto da cama ao banheiro. Continuava mergulhado na busca pela imagem. Talvez uma lembrança. Estava sentado no chão do box com chuva de água morna. Não se lembrava de ter misturado a água fria. Estava bem vestido. Cheiroso. Imberbe. Nada nos bolsos. Um cilíndrico pergaminho envolto em fino barbante de henequém repousava frouxo na mão esquerda que ele levantava para ver as horas de forma obsessiva. Ruas vazias. Apenas uma senhora que acenava ao longe. Atravessava avenidas diagonalmente. Já era crepúsculo. Já era crepúsculo há muitas horas. Atravessava cidades diagonalmente. Apareceu em uma praça cheiroso e bem vestido. Ainda era crepúsculo. Ela precisava de ajuda. Ninguém poderia saber dele. Tinha relação com entender algumas coisas e entrar e sair sem ser vista. Ela era alta. Cabelos longos. Rosto de atriz intrépida. Construíram um traje para que ela pudesse ir e vir sem ser notada. Dedicaram-se a entender as coisas juntos por semanas. Havia uma tenda nesta praça. Não se lembrava de ter erigido uma tenda. Ainda era crepúsculo. Trabalhavam juntos. Ela estava empolgada. Era estranho para ele, pois quando ela ia embora no traje voador havia outra dela na tenda e fazia companhia a ele com conversas e sorrisos até o dia seguinte. Mas ainda era crepúsculo. Quando ela voltava, continuava havendo apenas uma. Ela estava feliz. Os lindos olhos pretos [dela] guardavam o Universo. Constelações pairavam, galáxias espiralavam. Um oceano noturno de silêncio e proteção. Ele sentia-se infinito. Certo dia, haviam terminado todos os trabalhos. Ela estava triste. Ele não entendia como que o cilíndrico pergaminho ainda repousava na mão esquerda depois de tudo que fizeram juntos. Ela dizia que seria enviada a uma cidade distante. Ele não entendia como que o cilíndrico pergaminho ainda repousava na mão esquerda depois de tudo que fizeram juntos. Ela era alta. Ele a ouvira. Estava cabisbaixa. Seus longos cabelos escondiam as lágrimas de saudade, talvez tristeza. Ele levantou-lhe delicadamente a cabeça pelo queixo com o pergaminho na mão esquerda. Ainda era crepúsculo. Perguntou-lhe se ela desejava que ele fosse a esta nova cidade. Um sorriso gigante e molhado brotou entre lindas covinhas. Ele a seguiria. Deu o pergaminho como presente de data que se repete:

“Onde a vida lhe apontar
Meus pés a caminhar
Onde a vida te esconder
Minhas mãos a volver
Quando a vida for chorar
Meus peitos a escorar
Quando a vida te sorrir
Meus olhos a te sentir
Quando tua vida for suar
Meu corpo pronto a pulsar
Quando inteiro amar for a vida
Meu coração a derramar por batida”

Ainda era crepúsculo. Ela leu. Voou no pescoço dele. Era a mais feliz. Olharam-se com suavidade. Ela precisava ir. Ele iria a pé atravessando cidades, rodovias e avenidas. Diagonalmente, ano após ano. Cerraram os olhos juntos. Ele acordou só. Era um sonho e eles sentiam-se infinitos.

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