Dormir no sofá

Durmo no sofá há uma semana.
Minha sogra não está bem. Ela dorme com minha esposa no quarto. Eu fico com o sofá. Não é briga, não é bronca, é um combinado entre adultos.
É engraçado. Eu falo que durmo no sofá e acham que é briga.
Aqui tudo é mais claro. Aquela luz azul da geladeira é um saco, parece tão inofensiva mas ilumina pra caramba às 3h da manhã. Memórias de infância voltam. A planta parece um bicho, um monstro, com tentáculos ou pernas de aranha peluda. É uma das plantas que mais gosto.
Prometi a mim mesmo: nunca terei TV no quarto. Agora meu quarto é a sala de TV.
As duas gatas dormem comigo. Uma delas é mais presente (a Sorvete, da foto) e sempre está ou ao meu lado ou em sua cama. A Daia fez uma cama para as gatas e elas ignoraram solenemente. A cama da Pizza é onde ela quiser. A cama da Sorvete é no sofá.
Eu durmo na cama dela ou ela dorme no meu sofá?
(Cama de Gato é um puta livro do Kurt Vonnegut, vale a leitura).
Observo. Tem um pote de cola sobre o criado mudo amarelo que parece sorrir (o móvel, não o pote). Tenho uma câmera e um tripé, mas quase nunca uso. O capacete, pendurado onde deveria estar a bicicleta, já até pegou poeira.
Eu deveria estar dormindo.
O sofá é um dos móveis mais importantes da casa. São eles:
- A cama (colchão incluso);
- A mesa;
- O sofá.
O resto pode ser usado, capenga, cheio de gambiarras, roubado da casa dos pais, emprestado, reutilizado ou até mesmo ausente. A cama, mesa e sofá não. Melhor do que reunir os amigos e comer na sua mesa, escolhida à mão, só chegar em casa do trabalho e se jogar no sofá escolhido à dedo.
Mas a cama é o móvel mais importante, o pai nessa trindade. Escolher o colchão é mágico, deitar em todos e tentar racionalizar se esse é melhor que aquele. Escolher um, esperar chegar, forrar com lençol novo (e descobrir que comprou do tamanho errado). Transar pela primeira vez no colchão que você escolheu é sensação única e intransferível.
Tenho dormido no sofá. É bom? Claro, escolhi um sofá maravilhoso.
Saudades da minha cama.
