Nossos Corpos Foram Feitos Para a Luta.

Angie
Angie
Nov 3 · 8 min read
Marsha P. Johnson [na foto, com o rosto censurado pela logo do site Xvideos] foi uma mulher transgênere e ativista Queer dos EUA. Foi a principal protagonista da revolução de Stonewall, contribuindo também com a iniciativa STAR (Street Tranvestite Action Revolutionaries), que retirava Transexuais, Trangêneres e Travestis da situação de rua. O corpo de Marsha foi encontrado no fundo do Rio Holland no ano de 1992, dias após a parada do orgulho LGBT daquele ano, onde ela tinha sido perseguida e assediada. Hoje, o Brasil é o país que mais mata Travestis, Transgêneres e Transexuais no mundo. Curiosamente, o Brasil também lidera o ranking mundial de acesso à pornografia “Shemale.” (Arte Autoral)

Um dia, me peguei refletindo sobre A Raiva. A Raiva me é bem conhecida, apesar de ser uma amiga recente. E eu sei muito bem que raiva é uma reação normal à injustiça. É a motriz da revolução, da mudança, da resistência; Mas, ao voltar-me para minha comunidade, a raiva não parece cumprir sua honrosa função. As revoluções Queer me parecem mitos distantes, como se houvesse uma religião de Stonewall que espera ansiosamente pelo retorno messiânico da coragem. A raiva do transviado* parece contida, mascarada por uma performance carnavalesca e maquiada com glitter e arco-íris. Eu nunca vi, em meu curto tempo de vida, uma verdadeira revolta Queer. As paradas do Orgulho me pareciam apenas festas, que mostrariam a aparência de uma comunidade feliz, encobrindo a bandeira manchada de sangue e medo. Quanto à injustiça, ela existe de forma evidente. Mas nossas reações a ela não superaram ainda o sombrio silêncio. Nossos corpos, dominados pelo contentamento, tornam-se calados diante da injustiça. Por que, então, é a nossa comunidade que enfrenta a mais explícita e violenta pulsão de morte? O que há nestes corpos silenciosos que tanto incomoda?

As opressões de gênero são, sem dúvida, as mais profundas. Elas nos tocam, nos definem e nos produzem antes mesmo de sermos capazes de reconhecermos a nós mesmos. Somos tratados como Homem ou Mulher, antes de nos tornarmos, em uma tragédia Beauvoiriana, Homem ou Mulher, ou a Outra Coisa. Mas o gênero, segundo a contribuição de Butler, não é um significado diretamente aplicado sobre a pele. É de dentro para fora. Somos construidos por um mundo que define, pelas garras do gênero, o que nossos corpos fazem, como se movem, como falam, como e porque vivem e morrem, com base na invenção de um sexo biológico, que tudo explica e tudo divide entre rosa e azul. Nós somos criados como seres completamente incapazes de enxergar além do gênero. Com o gênero, vem a normatividade, e com a normatividade um armário que nos é designado, como forma de aversão àquela parte inexplorada de nós mesmos. O “Não seja, não abra esta porta,” nos atinge antes do “você é.” Em outros casos de opressão, a abordagem é direta e identitária: “Você é, e eu não gosto do que você é.” Para nós, apenas o “não seja.” “Não seja viado, não seja sapatão, não seja um traveco, ou será pecador e aidético.
Nos outros casos, há a possibilidade da afirmação pela raiva: “Você é;” “Eu sou. E daí?” Mas, no controle pela negação, tudo que nos resta é o confuso desejo da normalidade, e um questionamento essencial que nos é imposto: “Não seja;” “Por que? eu sou? que sou eu, que não pode ser isto?

É esta crise de identidade, que, segundo Beauvoir, seria exclusivamente feminina, que nos coloca sobre o governo do silêncio. O transviado também se encontra na posição de absoluta alteridade. Nossa raiva que não pode ser pronunciada, que é este “ser o que não se pode ser,” apresenta-se como a principal barreira para a resistência discursiva. Quando expressamos nossa raiva, é difícil dizer “Eu sou.” Uma clara evidência é a calorosa discussão que abrange as “Letras” do movimento LGBT, como formas de engolir e classificar as subjetividades que resistem à dominação do gênero. Como uma forma discursiva da revolução Queer, o movimento LGBT tenta definir como “ser” aquilo que é o “não ser.” Daí surge a falha do movimento LGBT em acolher com igual dignidade todas as criaturas transviadas. As definições nos separam, nos colocam, novamente, no dilema do Eu e o Outro. Saímos então de um armário, para uma pequena caixa. O que é ser gay? Não há um único representante universal de cada letra da comunidade LGBT. Não se pode definir o que é o monstro colorido que pula do armário, porque nossas identidades desafiam as correntes do racional. Nossos corpos, nossos sexos, nossas identidades incorporam as maiores inseguranças da sociedade contemporânea. Nossa imagem é tão assustadora que desafia os limites da descrição. O viado, a sapatão e a travesti, hoje, possuem um significado quase satânico. Queremos desafiar a autoridade divina? Converter as crianças? Pervertê-las e então devorá-las? Já teríamos, inclusive, pervertido o Sexo, a Política e a Natureza? Caem sobre nós os olhares ansiosos, acendendo a fogueira para a próxima caça às bruxas. Mas pode-se dizer que o indivíduo transviado é apenas uma negação, uma permanente antítese da normalidade? Não. Somos, com certeza, alguma coisa, mesmo que sejamos a coisa proibida. Que tem a ver então esta coisa com a nossa raiva?

A nossa raiva, como eu já disse, não está dentro dos limites do discurso. Nossa afirmação do “Eu sou ________,” apesar das crescentes tentativas, é uma ilusão sedativa que nos obriga a nos contentarmos com um título e um pequeno pódio de reconhecimento. O verdadeiro “Eu sou,” acontece na pele e na carne do transviado, e não em suas palavras. Nossos corpos, quando amando corpos semelhantes, quando travestidos, quando autobatizados ou reconstruídos por intervenção médica, proclamam, de forma alta e clara, o verdadeiro discurso de nossa existência: a linguagem silenciosa do ininteligível. O ato glorioso de transviar-se consiste em ter sobre a própria pele um discurso de blasfematória subversão do gênero. Tão difícil é entender os transviados que, a pergunta que hoje é mais evocada é “como poderei explicar?” Proponho então uma nova: “Seria a explicação necessária?” Nossa raiva é evidência da injustiça, que ocorre sobre corpo que cultiva em si mesmo a própria identidade. A existência transviada é A Grande Afronta; uma revoltosa originalidade que se encontra, não nos grandes volumes teóricos da sexualidade e do gênero, mas nas ruas. Esta originalidade é tão poderosa, construida com tanta coragem, que não pode ser contida pelo discurso repressivo, ou pela restrição punitiva. Nossa existência é a eterna dualidade entre vida e morte, silêncio e afronta. A morte, para o transviado, não é apenas um fim do corpo físico. Para nós, a verdadeira morte é a normalidade, a inteligibilidade, a adequação. Esta é, ou pelo menos deveria ser, a face de nossa resistência: uma corrente poderosa de vida, que perturba toda e qualquer pulsão de morte. A corrente transviada é uma contracorrente, e a cultura Queer uma contracultura.

E quando nossos corpos ultrapassam, permanentemente, os limites do armário? É neste momento que encontramos um campo de guerra. Nossos corpos livres são uma declaração aberta de afronta. A maquiagem, os trejeitos, a devassidão… Estamos, constantemente, segurando bandeiras coloridas, mesmo que não intencionalmente. Nossas armas de guerra são coisas tão mundanas que, em outros contextos, pareceriam inofensivas. Um par de shorts curtos, uma mão quebrada, um jeito debochado, e a prontidão para se defender e defender as ‘manas.’ Mas nossa maior arma, sem dúvida, seria uma poderosa visão e esclarecimento, para enxergar além dos limites do gênero. Um transviado que se adequa à normatividade de gênero, ou, que em um movimento hipócrita, finge se adequar, não vive a verdadeira resistência transviada. Quando nos libertamos das mãos controladoras do gênero, devemos estar prontos para enfrentá-las, arrancando dedo por dedo, com nossos dentes e unhas de acrílico. Nossa liberdade não é apenas uma arma poderosa, mas é uma que contagia. A liberdade inspira, e se espalha. Não obstante, muitas pessoas ainda têm medo de viver a verdadeira liberdade. Esta “maioridade de gênero,” que ultrapassa as matizes infantis do rosa e azul, toma espaço no escuro, no escondido, como coisa obscena e pornográfica. Não é de se surpreender que a pornografia “Shemale” seja a mais acessada em nosso país. O indivíduo transgênere representa, da forma mais explícita, esta resistência interna, que todos, transviados ou não, temos em nossas entranhas, contra as investidas opressivas do gênero. A pornografia oferece uma catarse desesperada, 5 minutos de liberdade assistindo um “Machão comendo travesti.” Contudo, a liberdade da pornografia é cuidadosamente controlada. Pior que restringir a liberdade, é hipnotizar um indivíduo para acreditar que é livre. Um pequeno espaço concedido de isenção do padrão de gênero, em que até mesmo alguns transviados se encontram presos: A pornografia permite que o transviado saia do armário, para então entrar no esgoto. O que era uma promessa de luz, torna-se mais um momento para encobrir-se, esconder-se atrás da cortina do “privado” e do “proíbido.” Isto também é morrer.

Portanto, nada faz mais sentido que restringir o transviado às entranhas do mundo. A luz não pode tocar aquilo que escapa da normalidade. Nós somos permitidos e desejados na revista pornográfica, e imediatamente mortos nas ruas. A cultura Gay fora do serviço sexual é distante, importada, e somente alcança uma parcela especialmente recatada da sociedade. Até mesmo em posições de respeito, o transviado é “O outro, a chacota, o exemplo.” Daí para os sensacionalismos que colocam sobre nós o crachá da aids: “Bicha morta, sem nenhum esforço, pela própria perversão.” Quando não podem nos matar, esperam ansiosos pela oportunidade de deixar morrer, e de se alimentar da morte. E, quando nem isso é possível, parte-se para o negacionismo radical de nos privar do direito à existência. Nosso frágil “Eu sou” é imediatamente rebatido com “Não, não é. Não deve ser.” Seria o Orgulho, então, apenas uma festa? É evidente que não. Que espaço é o Orgulho, se não a mais clara forma de afronta? Que parada é esta que concentra sobre si todos os olhares preocupados, sem precisar de nenhuma palavra? Este é o nosso discurso. Não o nosso “Eu sou,” mas o nosso “Eu estou presente, vivo.”

Como, então, deveria ser a resistência Queer? Estamos cercados de morte por todos os lados. Apenas ser “a coisa proibida” parece insuficiente, se nossa existência é uma sentença assinada de morte. Precisamos de uma resistência discursiva? Talvez, talvez não. Nossa resistência é tão simples quanto o ato de viver apesar do risco. E viver não apenas como sobrevivente. Viver com dignidade, com liberdade, com a não-aceitação de qualquer forma de morte. Nossos corpos foram feitos para a luta, para uma luta pela vida. Vida que desafia a morte física, que é perigosa e contagia, e que não se pode lutar contra. Nossa luta não deveria inspirar vida apenas em nossos corpos, mas também nos corpos de outrem. Talvez, o nosso “Não ser” não nos caracterize como criaturas subhumanas, jogadas no escuro. Talvez, nosso “Não ser,” signifique “Não ser preso.” Portanto, que seja o “LGBT” apenas “livre.” Que seja a nossa luta aquela da liberdade, aquela figura assustadora e maravilhosa do desconhecido. Quando a morte nos desafiar, que nossa vida e nossa liberdade sejam maiores que nossos corpos. Que nossos corpos, todo dia, sejam construídos pela luta, feitos para a luta.

*Transviado: que ou aquele que não obedece aos padrões comportamentais vigentes. A palavra também apresenta um trocadilho com as palavras “Trans” e “Viado,” sendo muito usada em comentários referentes ao indivíduo Queer. Escolhi o termo para me referir, de forma abrangente, a todos os indivíduos não heterossexuais e/ou não cisgêneres.

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