Breve relato sobre alguém, cerejas e coisas que estão bem além

Menino do olhar de folhas secas. Sei que você não é menino mais. Menino já não é, nem rapaz. Já é homem feito. Você não terá dificuldades em se reencontrar. Já é um encontro. Começando pelo seu olhar melancólico e seu sorriso que tanto contradiz qualquer melancolia existente no teu ser. Eu quero continuar te alcançando, passando pelas suas mãos calejadas e os teus braços fortes, percorrendo toda sua cor acastanhada e seus cabelos raspados nas laterais.

Navegando pelos seus lábios vermelhos, e pelo seu rosto expressivo. Sobrevoando seu peito imenso, que abriga coração maior ainda. Correndo pelas suas costas com as pontas dos dedos no instante de um abraço. O nosso abraço. O nosso amasso. O nosso laço. O nosso ar, nosso enrolar de almas. Nosso enrolar de corpos. Nosso estar querendo estar.

Menino do olhar amendoado, caramelizado, mais doce que um luar e um céu inteiro coberto de estrelas. Menino já não és, eu insisto, mas também insisto em lhe chamar. A esperança anda contigo, ao seu lado, mais intensa que o mar. A esperança, a vida, o seu reencontro com si mesmo. E eu, caso você queira. Posso andar, correr, voar. Ao seu lado, presa no seu abraço, no seu braço, no seu passo. Menino com balanço de sonata. Lábios montanhosos, feições turbulentas.

Quero continuar deslizando nas suas ondas, nas suas águas, nas suas mágoas, medos e satisfações. Nadando de braçada no seu peito, nos seus braços, suas costas. Procurando uma parte dentro do seu triste ser que possa ser ligada ao meu também triste ser. Procurando… Procurando… Um meio suave e que não me faça corar de te dizer que és tão importante, tão luminoso, tão imenso de bondade. Tão grandioso. Tão maravilhoso.

Estou aqui, sentada sempre naquela grama, com meu vestido de bolinhas, vendo você me observar à procura de algo pra dizer que não seja “meu anjo, me abraça aqui de novo”, sentindo as formiguinhas passeando em minhas coxas e as borboletas voando em minha alma. Estou aqui, eterno chantili com uma cereja na ponta. Estou aqui, ouvindo Debussy, Bethoven, Schubert, onde cada suavidade me lembra seus olhos de outono e o teu sorriso de mar. Estou aqui, sempre admiradora tua. Não se afaste.

Homem dos olhos cor de folha quase seca, vem aqui pra gente se animar. Pra eu ter pose de bailarina, ficar na ponta dos pés, te olhando, me esticando, pra te alcançar, pra você ser meu, pra eu ser sua. Deixa eu ser. Deixa crescer essa coisa que tem dentro de mim e que tem dentro de você. Vem se encaixar em mim, já que a minha cintura e suas mãos formam um quebra cabeça completo. Vem! Menino febril, da voz de trovão, do instinto animal, do sorriso de canto mais lindo que eu já pude receber. Menino do coração de homem. De um todo fenomenal. Não fica triste.Tem um mundo esperando por você, pra vê-lo brilhar mais que um sol, mais que um céu… Fica nele, e de preferência, me deixa ficar nele com você. Menino da pele tom de leite com canela, do olhar cor de chuva, do olhar… de homem.