Pedido de demissão: quando finalmente chegou a minha vez
Sobre minha transição de carreira — parte 1
Eu digo que a maior decisão que eu tomei em todo esse processo de autoconhecimento do último ano foi ter pedido demissão. Porque o trabalho fazia parte do maior tempo da minha vida — e era onde eu mais me sentia frustrada. Mesmo com todas as mudanças que já tinha feito, mesmo depois de buscar diversas alternativas dentro daquele emprego, nada impedia aquele sentimento de que eu estava fazendo a coisa errada.
E pra mim foi muito difícil aceitar isso. Quase dez anos trabalhando na mesma área, estudando sobre o mesmo assunto, investindo em pós-graduação. Como assim eu vou jogar tudo pro alto e recomeçar? Demorou muito para que eu desapegasse da ideia de que eu teria que continuar a fazer o que eu tinha me preparado pra fazer. Demorou muito pra aceitar que eu poderia me preparar também para fazer qualquer outra coisa que eu quisesse. É tão injusta essa pressão de ter que fazer o vestibular logo depois do ensino médio e já decidir o que você vai fazer pelo resto da vida.
Eu tinha dezesseis anos quando passei no vestibular para Jornalismo. Ao mesmo tempo, eu tinha prestado em outra faculdade para Psicologia. Optei pelo jornalismo porque era em uma Universidade Federal e, o curso de Psicologia não, e mesmo com a bolsa, não daria pra pagar a mensalidade. E porque, de verdade, eu não tinha certeza de nenhuma das duas profissões. Quão absurdo é isso, né? E acontece o tempo todo. Você segue o fluxo: escola, faculdade, pós-graduação, emprego com carteira assinada. E parece que com isso, você venceu na vida. Mas, a realidade pode ser um beco sem saída na sua cabeça.
Eu pensava que não tinha solução. E eu sentia que tinha feito todas as escolhas erradas e não sabia como mudar isso. E eu aceitei por muito tempo viver uma vida no automático, me confortando no que as pessoas me diziam, acreditando que isso era dar certo na vida. E não era. Não era mesmo. Pelo menos, não pra mim.
E após tomar consciência disso, o que mais me doía era não ter coragem para arcar com as consequências. É difícil contar para nós mesmos que algo deu errado, mas é apavorante dizer isso aos outros: “Não estou feliz, preciso ir embora”. Depois que eu decidi que me demitir seria minha libertação para buscar algo que eu queria, demorei cerca de três meses para realmente abrir mão. Até que um dia, na terapia, minha psicóloga jogou uma metáfora. Eu gostava muito do ambiente, das pessoas, eu gostava de onde eu estava, mas não do que eu fazia. E daí ela me disse: “É como se você estivesse numa festa, com pessoas que você gosta, mas tudo ao redor não fosse do seu agrado. Tá tocando rock, mas você gosta de MPB, tem pista de dança, mas você não gosta de dançar, etc”. Ela pontuou todos os cuidados que eu deveria tomar para não ser impulsiva e tudo eu já tinha feito. Só faltava a atitude.
E assim eu fiz: pedi a famosa demissão. Como muitas vezes eu vi as pessoas fazerem — sempre ficava pensando quando seria a minha vez. Nunca me senti tão livre. E nunca me arrependi. A verdade é que o mundo não acaba se você muda de caminho. A gente demora muito pra ouvir nossa intuição. Vamos deixando a vida passar, tudo se perder. É sempre muito importante pensar se o que você está fazendo hoje realmente te faz feliz, porque se não estiver, cada dia que você passa no mesmo lugar, é um dia a menos se sentindo em paz.
Ps: Esse texto faz parte de uma série intitulada “Resgate de mim”. Para saber mais, volte no primeiro post. ❤
