O mundo é cruel com as mulheres

E não é de hoje.

Por alguma razão, conheci o feminismo cedo. Aos 16 anos descobri o movimento riot grrrl, comecei a ouvir punk rock e hardcore feminino e a admirar personalidades como Kathleen Hanna e Allison Wolfe. Eu achava sensacional que meninas pudessem fazer um som foda com letras revolucionárias num universo dominado por homens. Mas não fazia ideia de que esse feminismo poderia ir além do “punk rock não é só pro seu namorado”.

Naquela época, ser feminista representava pra mim ser uma mulher independente, sexualmente livre e que soubesse da possibilidade de fazer tudo o que um cara faz. Passou algum tempo e também alguns relacionamentos. E eu me vi afastada desse ideal que mal entendia.

2013 foi um ano péssimo. Estava com problemas de saúde, deprimida e lidando com diversos acontecimentos. Em algum momento decidi que precisava mudar. Fui numa nutricionista e comecei uma reeducação alimentar, tentei parar de fumar e dei uma boa pausada nas baladas. Perdi 15 quilos em seis meses, mas eu continuava me vendo de um jeito horrível. Já se olharam no espelho e não se reconheceram?

Durante este período, conheci um cara e logo começamos a namorar. E assim como foi rápida a sua chegada na minha vida, vieram os problemas. A primeira coisa que percebi é que ele era mentiroso. Uma ex dele, que nunca soube se ainda estavam juntos enquanto ele estava comigo, ficou meses me ameaçando e perseguindo ele. Ele dizia que ela era louca. E eu acreditei.

(Eu estava descrevendo em 3 parágrafos tudo que aconteceu neste relacionamento, mas decidi parar, porque é algo que eu não gosto de lembrar, então, vou resumir). Perdi mais 6 quilos sem fazer dieta porque vivia estressada, triste e chorando. Brigamos todos os dias dos 7 longos meses de relacionamento. Toda vez que uma briga terminava, ele me dizia que iria mudar, mas cada vez que acontecia, as coisas iam piorando. Ele foi ficando cada vez mais agressivo e possessivo.

Durante essas brigas ele ameaçou se matar várias vezes e quando eu o perdoava, ele voltava a fazer de novo. Todas as vezes que tentei terminar — e não foram poucas — ele chorava, se jogava no chão, dizia que não iria viver sem mim. E enquanto não conseguia jogar a culpa para mim, me ameaçava e dizia que eu nunca iria encontrar alguém que me amasse como ele. Eu me sentia insegura e exausta.

Aquilo foi me consumindo e parecia que era isso que ele queria. Sempre que tentava me esquivar, ele me trazia de volta. Fazia um jogo psicológico que toda vez acabava comigo se sentindo culpada. Até que um dia ele me agrediu. Depois se arrependeu, me pediu mil desculpas, chorou e disse que não era digno de mim, ao mesmo tempo que ameaçou se matar e que consequentemente a culpa seria minha.

Era bizarra a minha dificuldade em terminar de fato. Mas se vocês perguntarem para qualquer vítima de um relacionamento abusivo, elas te dirão a mesma coisa. Quando eu finalmente cheguei à exaustão, percebi o quanto meus pais estavam tristes, amigos estavam preocupados e que já não era eu mesma. Acho que perceber como este relacionamento doentio afetava tudo ao meu redor foi o estopim para encontrar forças e colocar um ponto final. Ele não acreditou, me dizia que a gente nunca iria se separar, que eu estava apenas com ciúme porque ele tinha sumido num fim de semana.

Lembro de ter sofrido durante um mês inteiro. Ele passou algum tempo me mandando mensagens e ligando, mas eu fui encontrando forças para ignorá-lo e tirá-lo da minha vida até conseguir me libertar completamente. Quando toda a dor passou, eu me sentia livre. Andava na rua e me sentia flutuar, de tão leve.

Demorei algum tempo para perceber o que foi aquilo que vivi, tanto que para descrever o ocorrido, tive que resgatar na memória. Eu não me sinto mal em contar tudo isso, algumas coisas não gosto de lembrar e por isso estão enterradas, entre elas o fato de eu não me reconhecer durante este tempo. É como se outra pessoa tivesse vivido no meu lugar e aquilo tudo foi um pesadelo.

Algum tempo depois voltei a me reconectar ao feminismo e a mim mesma, vi ao lado de outras mulheres que o que eu passei não era incomum e que se tratava de abuso. O fato de ele ter me agredido foi pequeno se comparado ao terror psicológico que durou meses, mas assim eu me fortaleci brutalmente. Comecei a me questionar sobre várias coisas e a perceber outras também.

A desconstrução é diária e os questionamentos também

Vivemos numa sociedade que objetifica as mulheres, que faz com que elas enlouqueçam para serem aceitas por essa masculinidade frágil e raivosa, que faz com que nos sintamos sempre inseguras sobre o nosso corpo e inclusive sobre a nossa mente. Nossos pensamentos são controlados, nossas ações são sempre julgadas. É como se não pudéssemos ser donas de nós mesmas.

Quantas mulheres buscam alternativas assustadoras para perderem peso ou modificarem seus corpos e se colocam em risco para seguirem um padrão de beleza sendo que cada corpo funciona de um jeito? E quantas delas sofrem em silêncio porque não se reconhecem nas propagandas ou capas de revistas, e vivem infelizes com seus corpos, sejam eles magros ou gordos? Quantas delas SE ODEIAM e passam a vida sem se aceitar?

Quantas meninas não-brancas sofreram durante a infância e continuam sofrendo com o racismo TODOS OS DIAS? Principalmente as mulheres negras que pagam o preço diário das agressões dessa sociedade retrógrada e com sólidas heranças escravocratas.

Quantas mulheres sentem medo de andar na rua sozinhas por temerem que algum homem faça algo contra elas TODOS OS DIAS? Assalto, estupro, sequestro, morte… As possibilidades são infinitas.

Quantas mulheres são vítimas de relacionamentos abusivos, de violência doméstica e são estupradas pelos próprios companheiros, agredidas emocional e fisicamente TODOS OS DIAS? E muitas não conseguem denunciar porque temem pela própria vida? Que sofrem ameaças reais de morte e/ou continuam suportando pela integridade de seus filhos/parentes?

Quantas mulheres não dizem ou fazem o que pensam porque seus chefes, sua família e toda uma multidão irá julgá-las de uma maneira que ela é sempre culpabilizada? Elas não podem engravidar, elas têm que fechar as pernas, elas têm que se comportar, elas têm que abaixar a cabeça, elas têm que servir. É pra isso que a mulher serve nesta sociedade onde a maioria esmagadora em cargos de poder são homens.

É A VIDA TODA, O TEMPO TODO ALGUÉM DITANDO O QUE VOCÊ DEVE E PODE FAZER.

Quantas mulheres se entopem de hormônios porque temem a gravidez e as consequências de ter um filho em dias atuais? Porque para esta sociedade quando uma mulher engravida, toda a responsabilidade deste ser que veio ao mundo cabe à ela. E quantas dessas mulheres terão problemas futuramente para engravidar ou poderão sofrer inúmeros problemas de saúde que os ginecologistas nunca nos contam?

Quantas mulheres perdem a vida ou sofrem com consequências absurdas quando recorrem ao aborto clandestino? Porque existe um sistema que diz que elas não são donas do próprio corpo. E você que se diz pró-vida, comece a repensar, você não é deus pra julgar ninguém. E julgar uma mulher numa situação que existem duas pessoas envolvidas é preguiçoso, estúpido e presunçoso demais! E ainda temos projetos de lei como o n° 5069/2013, do senhor Eduardo Cunha, que dificulta mais ainda o aborto em casos de estupro e outros piores podem surgir, porque temos uma bancada na câmara e muitos políticos que parecem odiar as mulheres.

O Feminicídio é real. E no Brasil, estamos em quinto lugar na taxa de países que mais matam mulheres no mundo.

E por que o feminismo é necessário?

Quando uma mulher busca ajuda, ela procura quem já passou pelo mesmo que ela. Temos inúmeros grupos online e físicos para apoio e discussão sobre relacionamentos abusivos, violência doméstica, contracepção sem hormônios, gordofobia, lgbtfobia, faça você mesma, vagas de emprego, feminismo negro, feminismo asiático, feminismo indígena e a lista segue. Além disso, há várias festas e eventos que promovem rodas de conversa. Os locais são seguros, mas cada uma precisa fazer a sua parte para mantê-los assim.

E o feminismo continua cada vez mais forte, ganhando cada vez mais adeptas e mostrando inclusive para os homens como a desconstrução do machismo é eficiente para uma sociedade mais igualitária, seja dentro das empresas, nas instituições de ensino ou na sua própria casa.

Se envolver com estes grupos parece uma grande besteira para quem está distante desses espaços de discussão, mas eles são essenciais para a nossa evolução pessoal e quanto integrante de um todo.

E com isso, e mais um pouco, a gente vai se fortalecendo e aprende a respeitar as pessoas. É entender que o recorte étnico-racial e de classe é importante, e que todas as pessoas deveriam ter as mesmas oportunidades e os mesmos direitos. É defender e ajudar na luta daqueles que inclusive são diferentes de nós. É tentar fazer as pessoas no seu dia a dia a pensarem diferente. É repensar seus privilégios e de que maneira você pode contribuir para a diferença. É se empoderar e praticar a sororidade ajudando outras mulheres quando possível. É perceber que enquanto continuarmos olhando para o nosso próprio umbigo, julgando as pessoas pela a aparência, praticando preconceito e racismo e não olhar ao próximo como uma pessoa que deveria ser tratada da mesma forma que você, nada vai mudar.

O feminismo não é apenas sobre a sua liberdade individual, é sobre lutar por um mundo mais justo para todos. O mundo é cruel com as mulheres, mais com umas do que com outras, mas a ideia não é discutir quem sofre mais e muito menos diminuir a dor de ninguém. Cada uma tem a sua história que deve ser respeitada. Todos podem lutar contra a ideologia machista, a objetificação feminina, o falocentrismo, a falta de diversidade em cargos políticos e de liderança nas empresas, a gordofobia, a lgbtfobia, o racismo, a opressão de classes e a dominação masculina. Basta querer e fazer.

Procurar ajuda nunca será um problema, o problema é continuar em silêncio. A sua voz importa e o seu ouvido também.