Agridoce

Cigarros e poemas

Acendo um cigarro e o encaro entre meus dedos. Parte de mim sabe que eu deveria apagá-lo e devolvê-lo ao maço de onde o roubei. Mas a minha outra parte, essa a que fala mais alto, e que espera o fácil e mau caminho, decide levar aquele pedaço cilíndrico de morte aos meus lábios. A nicotina atinge meu cérebro com o mesmo alívio e paz que uma criança perdida no supermercado sente ao ver sua mãe entre tantas outras mulheres, quando aquela confusão toda de carrinhos e vozes parece dar lugar à calmaria de se estar no lugar certo.

Os pensamentos param de me sufocar e dão lugar ao vazio tranquilo do pensar sem sentir. Usufruo deste momento com total atenção e apego, ciente de que tão logo a chama apagar, essa calma dará lugar aos mesmos velhos pensamentos mortos e assassinos que carrego dentro de mim. Me dou uma hora de conforto solitário, de falsa terapia, afinal, a nicotina não me pode escapulir tão rápido assim. Minha cura, minha salvação, meu porto onde sozinho me encontro seguro e perdido me acho vazio. Vazio de vida. Vazio de amor. Vazio de sonhos e de futuro e por isso o mato, afogando-o e sufocando-o entre a fumaça tóxica do meu veneno mais doce.

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