Cinza

“A casa cheia, o coração vazio” esse é meu dia das mães, todo ano.

Abraço, beijo e cheiro minhas tias, minha vó, meu pai. Me sinto acolhida, acarinhada e amada. Mas olho pros lados e todos estão ali com suas mães, com seus filhos. E daí começo a me sentir deslocada. Por mais mãe que minha vó seja, ela é minha vó. Por mais mãe que meu pai é, ele ainda é apenas o meu pai. E eu sinto falta dessa ligação bonita, sabe? De tu ter nascido de alguém e ter essa conexão absoluta. De ouvir um “na volta a gente compra”. Eu nunca ouvi isso, assim como nunca ouvi nada. Porque não tenho conexão. Tenho o laço físico, a parada biológica, mas e a conexão de almas? Somos tão iguais, em tudo, isso me assusta. Te olho e me vejo mas não nos vejo. Não existe nós. Não conheço as tuas manias e tu nem faz ideia do que eu mais gosto de comer. Não me conhece pelo olhar assim como eu não sei decifrar o teu silêncio. Não tenho abrigo no teu abraço assim como em mim tu não tem uma melhor amiga. Somos estranhas que dividimos a mesma história, o mesmo sangue, o mesmo sobrenome. Mas não uma conexão.

Eu odeio o dia das mães. Assim como meu maior medo é de ter filhos, um dia. Na real ninguém entende essa minha nóia, mas eu a alimento. E se eu for uma mãe assim? E se eu falha tão miseravelmente? E se eu repetir os mesmos erros? Que medo que me dá, só de pensar em botar um filho no mundo.

Eu não tenho essa visão bonita sobre maternidade e nunca tive. Jamais vou pensar que ser mãe é natural, que o amor de mãe é sem fim. Porque tu talvez tenha falhado nessa missão. Porque ser mãe não é natural e o amor não é quesito obrigatório. E talvez eu também não tenha nascido pra gerar outra pessoa. Talvez meu carma seja cuidar de mim mesma todos os dias e tentar diminuir essas feridas que parecem sempre abertas, expostas, sangrentas, principalmente no dia das mães. Que tu combina de vir e não vem. Que tu promete me ver e se vai. Que tu planta uma esperancinha e arranca com as próprias mãos. Talvez tu também odeie o dia das mães. Talvez também deite a cabeça no travesseiro nessa noite e fique pensando em tudo que aconteceu, talvez tu deseje ter uma borracha e um pincel, pra apagar o passado e refazer tudo, de um jeito mais bonito e menos traumático.

Talvez tu também tenha medo de ser mãe. Mas agora, já é.