febre

sempre fui sentimental, chorona, sempre levei as coisas pro lado pessoal.

talvez seja por isso que nasci poeta. porque sinto em excesso.

enfim.

quando criança, ao menor sinal de calor no meu corpo, enfiavam-me termômetros frios sob os braços. imóvel, eu esperava os cinco minutinhos, junto com um rosto preocupado na minha frente, que passava a mão sobre minha testa e perguntava o que eu sentia.

hoje, alguém coloca a mão na minha testa e considera que talvez eu tenha febre, e sai para seus afazeres. com isso, eu mesma coloco o termômetro sob meu braço. eu mesma espero, só, pelo resultado. um rosto preocupado ainda vem saber como eu estou, uma mão ainda afaga meu cabelo. eu mesma verifico o resultado , naquela listrinha preta e fujona — tarefa simples mas, também, composta.

composta de memórias, de anos que se passaram, da identidade da criança que eu já não sou mais.

o resultado já saiu — 37ºC. e ainda me resta um grito, um traço da infância que parte de mim não quer deixar pra trás: “pai, é febre?”