forgive myself

Acho que eu te devo desculpas, Ariani. Opa, desculpa de novo. Sei que tu não gosta que te chamem pelo nome. Mas enfim, Ari, eu tenho tanto pra te falar. Sei que tu deve estar magoada comigo, escorpiana rancorosa da porra. Mas não te tiro a razão. Há anos eu venho te violentando, te agredindo, te matando aos poucos.

Me perdoa por te fazer sofrer tanto. Me desculpa, desculpa, me desculpa por todas as vezes que eu fiz com que tu se humilhasse, por todas as vezes que eu fiz tu continuar em relacionamentos tóxicos que tiraram boa parte da tua vida e que aos poucos foram cegando a tua visão. Mas tu é forte, Ari, e ainda sabe amar como ninguém. Mas tu não aprendeu a ser amada, tu não sabe, tu desconfia, tu desacredita, tu teme, tu procura coisas até encontrar e mesmo sem encontrar tu se convence de que encontrou. E isso é tudo culpa minha. Eu te culpo por tanta coisa, me envergonho e omito tanta coisa que eu fiz você fazer. Eu te lembro todas as noites de todas as coisas ruins que te aconteceram e faço você querer acabar consigo mesma, me perdoa por eu querer te ferir. Me desculpa por fazer você querer dormir e não acordar mais, me desculpa por colocar coisas horríveis na tua cabeça, me desculpa por te afastar de todas as pessoas e fazer com que todos se afastem de ti. Eu sou a pessoa mais perigosa para ti e mesmo assim estamos sempre juntas. E sempre estaremos, afinal. Somos uma só. Mas eu estou há tanto tempo te impedindo de viver, roubando tua saúde mental, sabotando tua saúde física.

Hoje eu percebi o quanto tu é incrível e o quanto eu estou te deixando apodrecer. Uma menina madura. Tu se doa demais, se anula, porque eu sempre minto ao pé do teu ouvido que é seguro, que é necessário, que o amor é desse jeito meio torto mesmo. Mas não é e tu sabe disso, tu percebe os erros. Mas continua fazendo exatamente igual. Estou te fazendo esquecer como é amar, esquecer o que é ser amada, estou envenenando teus relacionamentos, tuas amizades, tua família, matando aos poucos todo o afeto. Te fazendo odiar e amar e odiar, e odiar mais, e odiar tudo, e odiar todos, e odiar a si mesma, o tempo todo, bem no momento em que tu finalmente tá começando a aprender a se amar, a gostar do seu corpo, a aceitar as estrias, a flacidez, as imperfeições.

Eu te violentei com o silêncio quando tudo o que tu precisava era apoio para falar, eu não te dei este apoio, eu não estive presente, eu não te lembrei que tu é a coisa mais importante pra mim. Eu deixei que tu ficasse em silêncio até que tua cabeça apagasse tudo o que aconteceu até que numa noite em que eu te permiti beber mais do que podia tudo veio à tona novamente e nos deixou semi-mortas por semanas a fio. Mas eu também te agredi com minhas palavras, com os gritos, com as falas nas horas erradas, com todas as coisas sem pensar, logo você que pensa tanto e tanto e tanto antes de fazer as coisas.

Eu estive distante novamente por alguns meses porque nós estávamos tão doentes e eu te odiei muito e senti uma raiva muito grande de quem tu é, de como tu é, de tudo em relação a ti e pensei erroneamente que a melhor coisa seria me afastar de ti, desejar tua morte tua mutilação, minha dor era tão grande que eu pensei que o único jeito de acabar com ela seria acabando com você. Mas aí eu acordei. E percebi que eu estava fazendo tanta coisa errada e te machucando tanto e te tirando tudo, e então eu abracei e beijei cada parte do teu corpo cada parte que eu consegui alcançar enquanto a água morna caía sobre nossas costas sussurrando um pedido de desculpas por ter agido como uma inimiga quando só o que temos, verdadeiramente, é uma a outra. Tu é tão frágil, tão pequena, tão mulher mas tão criança, tu precisa de tanto cuidado e eu só tenho te mandado coisas ruins, pensamentos ruins. Mesmo quando tu encontra uma maneira de ser mais feliz, menos pesada, eu vou lá como que por querer e vomito em cima de ti todas as coisas ruins que tu tenta ignorar e eu quero que tu veja e sinta e analise e perceba e chore e sofra e queira se afastar e morrer mas morrer não é suficiente que tu deixe de existir que toda a tua existência seja apagada esquecida. Eu não quero mais fazer isso contigo, tu não precisa notar tudo, perceber tudo, se incomodar, tu pode ser leve, menos atenta, é melhor assim. Feche os olhos de coruja e tente viver, Ari. Tu tem essa mania de querer ter controle sobre tudo ao teu redor e de dar significados pra cada uma dessas coisas mas isso só te machuca te estraga te mata. Fecha os olhos e respira e sente o ar fresco a tua volta e dá valor pra o que tu tem e ignora o que falta hoje eu vim aqui pra te ensinar a viver de novo.

E para de chorar de noite pensando que tu se tornou um monstro e temendo que todos se afastem, e para de pensar que tu é uma pessoa horrível por não querer mais ouvir o sofrimento dos outros. Entenda que isso acontece porque tu já está atolada dentro da própria mente e não há quem consiga suportar o peso de tantos corações sozinha. Vou te cuidar, eu prometo, a partir de hoje tudo o que eu fizer vai ser por ti, vai ser por nós.

Eu te amo. Não me deixe esquecer disso e eu não deixarei tu esquecer que tu é especial e maravilhosa e uma mulher foda pra caralho. Tu é o que tenho de mais precioso e importante e único. Vamos lutar juntas, nós somos uma só.

Este texto é fruto de reflexões causadas pelo texto da Andressa e também por uma crise existencial embaixo do chuveiro, que talvez também tenha sido causada pelo texto incrível e sincero que essa linda escreveu.