Pelos no ralo
A angústia sobe garganta acima. Eu a engulo, mas ela volta a encher minha boca. Sei o que fazer. Caminho até meu quarto, pego uma velha toalha de banho amarela. Fecho a porta do banheiro e tiro a roupa. Vou abrindo, devagar, o registro do chuveiro, até a água atingir a temperatura ideal — bem quente. Levo meu corpo para baixo daquela corrente de água que em poucos minutos deixa o banheiro enevoado de vapor. Os pensamentos bombardeiam minha cabeça, memórias colidindo entre si. Presto atenção na água que desce suave pelo meu corpo, na brisa fria que passa pelas minhas costas quando saio da mira do chuveiro. Olho para meus pés; há pelos no ralo — preciso limpar, mas não é muito agradável.
E então percebo que você é para mim como os pelos no ralo. Tua perda foi pra mim como a primeira depilação: algo que faz parte da vida de todos nós. Algo que aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Tu és os pelos que caíram de mim. Confesso que me senti nua quando você partiu. Como tirar a perna de sob a água para passar a Gilette — uma onda de frio me atingiu quando vi seu corpo imóvel descansando tão serenamente entre coroas coloridas. E, como os pelos no ralo, que ferem o piso branco e eu sei que preciso tirá-los, assim penso em tua ida: a saudade me fere o peito, o remorso de palavras não ditas, de atitudes contidas, suja o que deveria ser limpo dentro de mim. Sei que preciso abandonar tais sentimentos, para que tua lembrança em mim seja tão pura quanto o piso branco que suporta meu peso. Mas essa tarefa é difícil — assim como que para limpar o ralo preciso tocar nos pelos ali caídos, para tirar estes sentimentos de dentro de mim preciso conhecê-los, encará-los e enfrentá-los cara a cara. E isso dói. É necessário, não posso adiar mais; já se passaram quase três anos. Por que evito tanto? Quantas vezes mais terei de reconhecer a imundície deste ralo coração para que enfim me disponha a fazer uma faxina? Quanto mais depredarei este branco fino que em mim habita, quanto mais o deixarei encardir? Não quero isto impregnado em mim; mas não consigo sair do lugar. Fecho o chuveiro, enrolo meu corpo na toalha com pressa para não sentir o ar frio. Dou mais uma olhada no ralo. Fecho os olhos e enxergo aqui dentro. Torno a abrir — os pelos ainda estão lá.