pequenas gentilezas

Gosto de explicar bem as coisas antes de começar, gosto da ideia de pôr em ordem meus próprios pensamentos para falar sobre uma coisa tão simples, mas que mudou a vibração das minhas energias, tornando-as melhores.

Estou fazendo uma cadeira de Teoria e Prática do Estudo Bíblico, referente ao curso de Teologia. E hoje de manhã eu fui assistir a essa aula, bem desanimada. O pessoal da minha turma são todos bem calorosos, porém é complicado: eu estou no curso apenas para tentar transferência no próximo semestre, não sou cristã — rompi meus laços com a igreja de uma forma nada amigável — e não estava preparada para uma sala com 40 seminaristas, uma senhora machista e um professor extremamente gentil que fez com que eu me sentisse na obrigação de, por respeito, não revelar meu motivo de estar ali e minha ideologia espiritual, que é pagã.

Enfim.

O professor me tratou de forma muito acolhedora e atenciosa, e um colega com aparência daqueles velhos barbudos que pilotam harley-davidson e praticam bullying com “maricas” foi o único da sala que, ao entrar, me deu o bom dia mais caloroso que já me foi dirigido. Mas, mesmo assim, eu estava me sentindo uma bosta dentro daquela sala de aula. Em primeiro lugar por eu não acreditar na Bíblia nem no Deus cristão, em segundo lugar porque, embora eu já tenha estudado a Bíblia de forma mais “espiritual”, aquele era um estudo científico do qual eu não entendia nada, já que o que valia não era a mensagem que eu tomava para mim mas sim o conteúdo histórico do Livro e tal. E em terceiro lugar porque eu, em minha infinita sabedoria (só que não), esqueci de levar o elemento mais importante para essa aula: uma Bíblia.

A certa altura da manhã, eu já sem nada para fazer dado o fato de que não tinha levado uma Bíblia e meu celular estava descarregado, estava a olhar pro nada, pensando na bosta que era eu estar ali naquela sala, em contato com uma fé que além de não crer eu também não aprecio, com pessoas que sabem tanto que me deixam envergonhada e já pensando em trancar a cadeira, quando meu colega tatuado que parece um motoqueiro barbudo virou-se para mim com uma gentileza sem tamanho e me entregou uma Bíblia, falando em tom gentil que se eu não tinha uma, ele me emprestava a dele.

Pode parecer bobo ou sei lá o quê, mas num ambiente onde a maioria das pessoas passa sem nem te perceber e você tem que contrair os ombros para não ser arrastado pelo fluxo de pessoas, receber um gesto tão simples de gentileza me deixou feliz. E me fez perceber o quanto somos hipócritas ao julgar, mesmo sem querer, alguém pelo que aparenta ser. Aquele cara, com duas argolas de prata em cada orelha, careca, barbudo e vestindo uma jaqueta de couro escrito Diablo, seria a última pessoa a quem eu daria o título de fuchs* e com certeza a última pessoa de quem eu esperaria alguma ajuda. Enfim, saí da aula sem o pensamento ansioso e apavorado de tentar trancar a cadeira o mais rápido possível e sem a cara de bunda com a qual entrei. Gentileza não gera apenas gentileza, gera uma melhora significativa no astral da gente.

*fuchs — “raposa” em alemão, é a forma como os estudantes seminaristas luteranos são apelidados (o professor explicou o por quê, mas são tantas teorias que eu não lembro mais)

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